Elisa Lucinda: Cercadinho de palavras

10.639 , a divisora das águas

Embora a barbárie campeie causando estragos irreparáveis à saúde física, psicológica e integral da população negra, excluída, pobre e brasileira, o “espetáculo” diário seja dantesco, que é o mesmo que infernal, ainda tem gente que quer que a gente desenhe. O atual governador do Rio não atira num bandido em céu aberto, de helicóptero orientado para ser letal na Zona Sul da cidade, na zona nobre. Não é o filho da Casa Grande que é baleado ao ir para o colégio dentro do transporte escolar ou do bairro. Para os que ainda querem que desenhemos lá vai: não é coincidência. Se o menino ou a menina assassinados ostentassem pomposos nomes, ricos berços e claras peles, o assunto logo atingiria o patamar de catástrofe. A palavra bandido rapidamente seria trocada por “adolescente” e em vez de ser visto como monstro , logo alcançaria o status de vítima. Embora seja branco, alvo, o branco não é alvo da polícia e não está nas cadeias e tampouco é a cor dele que se vê no transporte público lotado. A senzala se reproduz. O desenho continua: Somos parados em bancos onde nunca somos gerentes, somos os quando não alisamos o cabelo, não temos as boas aparências dos empregos, não somos a maioria habitante nas ondas mais seguras da cidade e apesar de não estarmos etnicamente presentes nas investigações de corrupção, levamos a fama de desonestos. Quadrilhas e mais quadrilhas de brancos envolvendo juízes, empresários,parlamentares, que com seus cargos públicos e facilidades “fazem a festa” do Oiapoque ao Chuí, mas curiosamente não simbolizam a cara do mau para a sociedade, e ninguém diz deles que “esses brancos não prestam”.

Sabedores disso, onde será o nervo, o centro nervoso que pode produzir uma manobra radical na cena? Quem pode adivinhar?

Trata-se da escola, meu amigo,minha amiga. É nela que a formação emocional e intelectual dos professores para implementar com sucesso a efetividade da lei 10.639 grita , e pode fazer a diferença. O racismo, que é o bullying diário de todo negro brasileiro, faz estragos na aprendizagem, e não tratamos do tema com a mesma seriedade com que tratamos as epidemias, as necessidades das vacinas. Não é hemorrágico, não dá febre, não parece doença, mas é: mata,contamina,infecta . É impossível educar saudavelmente sem acolhimento. A escola é a primeira família não-família de uma criança, o grupo social onde ela passa mais tempo e onde não há o colo da mamãe e de outros. Por outro lado, vai ser na relação da confiança e do amor que ela vai alcançar as vitórias da compreensão. Esse papo todo é pra dizer a coisa mais escrota que eu vou dizer e que eu não gostaria jamais de escrever, mas a situação me obriga: A maioria dos alunos negros do país não é abraçada pelos seus mestres. Não é metáfora. Abraço físico. Contato. Estou falando de um racismo que tem nojo da pele preta, do cheiro dela , e que não sabe achar bonito uma criança negra.Por incrível que pareça o fato real ainda é mais assustador do que a frase consegue dizer.Este terror que tento descrever é maior que a palavra que o pretende traduzir. Não estou exagerando. Conheço as vítimas. Do ponto de vista de muitos professores, esses alunos também não são os príncipes das histórias nem as princesas das fábulas, e nunca serão. Há um número enorme de pessoas negras brasileiras que têm medo da escola, guardam desse lugar várias sessões de tortura e humilhação. Muitas vezes são levadas a público dentro da sala de aula e expostas aos outros colegas sob tamanho esculacho, com o intuito de provar que realmente “essa raça é inferior”.

Bem, se isso não está em nenhum caderno, em nenhuma orientação de conteúdo curricular e é uma ação flagrante em quase todo país, então , há uma soberania na sala de aula. Bem, se pode isso ,essa merda desumana e cotidiana na prática pedagógica, que possa também o contrário.

Essa crônica deseja poder fortalecer o coração daqueles professores que fazem a diferença na escola. Falo para os que, apesar de baixos salários, apesar da desconsideração do poder público em relação à essa profissão imprescindível para o desenvolvimento de uma nação, esse revolucionário se lançam em suas salas de aula sabendo que daquele seu ofício brotarão ações consequentes pelas mãos de muitas gerações. Uma puta responsabilidade. Sabemos que o estrago racista produz uma cascata de danos. Então conclamo os corajosos, os que sabem separar sua religião da intolerância com as outras para que não desistam. Essa crônica é para o professor que é budista mas tem a coragem de estudar e ensinar a cultura do candomblé e sabe que esta é tão importante quanto o ensinamento da mitologia grega. Quando podemos estudar sem preconceito nossa ancestralidade fortalecemos toda a sociedade.

Escrevo para os sonhadores, os que são execrados na escola, que são chamados de loucos,os mestres criativos que se lançam em grandes ousadias diante de tão poucos recursos, porém, nunca mais são esquecidos por seus alunos que saem semeados de transformação. Dona Dealdina, minha professora que me ensinou a ler, me abraçou enquanto desenhava no caderno um patinho que se transformava no número 2. Nunca esqueci dela e acho que é por isso que sou apaixonada por este número. A Maria Filina me ensinou a paixão pelos versos e meu deu esse ofício. Por isso escrevo para os que têm coragem de tirar das mãos da princesa Isabel o equivocado papel de redentora, e de devolver a história à incessante da Nação Zumbi que durou cem anos ,e a todos quilombolas que forçaram,dentre outros fatores, o fim da escravização oficial.

Dentro da sala de aula , com estratégica sabedoria , podemos enriquecer muito a subjetividade daquele espaço do saber recontando a história do Brasil para todos. O que nos foi contado pune os índios, desrespeita e assassina os negros, e coroa os vilões. Essa distorção se reproduz na sociedade. Tragédia: Acontece no mundo o que é ensinado nas escolas. Essa crônica é também para você também que não sabe nada ainda dessa lei 10639 mas sabe que uma escola racista é uma escola inconstitucional. Repito e o faria mais dez mil e seiscentos e trinta e nove vezes: o racismo é crime e está engendrado na linguagem, no ensino público, nos podres poderes, na cabeça de muitos professores e diretores. Então, pare de sujar diariamente suas mãos nele. Pesquisemos. Apalavra Inhaca, por exemplo, usada para se referir à sujeira , ao mau cheiro é , na origem, o nome de uma ilha em Moçambique. Chega. O desenho está feito. Se você olhar, professor, com muita atenção para o que tem no desenho , vai ver no fundo um aglomerado formado por aparentemente invisíveis letras: Fique atento, aprenda com urgência e com paciência e já verás : neste desenho ao fundo está escrito Quilombo Resistência!

Todo dia um professor age como um senhor de engenho cruel, uma sinhazinha nojentinha, ou como um Zumbi, ou uma Dandara. Escolha de que lado você está dentro da sala.

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2 comentários:
  • Claudio Pimenta
    15 outubro 2019 at 17:15
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    Você como sempre brilhante! Sou professor e a sua crônica só veio confirmar que estou do lado certo. Mesmo que esse lado seja o de uma minoria. Amo meus alunos e o que faço. Já fui muitas vezes criticado por ser amigo de aluno, ir à favela em festa de aniversário, ficar 15 dias em uma comunidade carente do Maranhão na casa da mãe de um deles a convite da família. Sou um educador. Para mim, meu trabalho deve ir além dos muros da escola. Nunca me arrependi do que eu fiz. Aprendo muito com os seus textos. Obrigado por tudo, minha querida.

  • Jorge Fonseca
    25 outubro 2019 at 13:20
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    Muito bom, guerreira!!!!

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