Elisa Lucinda: Aos homens de boa vontade

Elisa Lucinda
Elisa Lucinda

A cobertura linda, queijos e bebidas sofisticados.Fui convidada a um papo animado. Ótimo. Minha amiga foi embora mais cedo e eu fiquei conversando com aquele cara de papo agradável, um homem viajado, gente boa, informado. Nenhuma atração entre nós.Quando mencionei que já estava na minha hora, surgiu o lobo. Eis o nosso diálogo:
-Isso aqui é Rio de Janeiro!!Você está pensando que fica aqui, toma minhas bebidas, come minha comida e vai embora assim? E eu , fico como? Nananinnannão!
– Minha amiga vai se ver comigo! Ela não me disse que era pago. Falou que você , o anfitrião , era um amigo dela…meu Deus, que vergonha! Quanto que é? Me fale mais ou menos,me desculpe…
-Você não está entendendo, garota…
-Estou sim. Sou capixaba e não ando na aba de ninguém! Amanhã, pego com ela o número da sua conta e deposito. Me desculpe mais uma  vez.
Isso já tem trinta anos. Talvez todas as mulheres de minha geração, das passadas, das atuais, tenham cada uma um depoimento deste meu à moda do “ou dá ou desce”.
Há 3 meses, ia gravar um poema no metrô e marquei com a equipe. Era de noite. Tipo 10. Enquanto esperava , observava uma mulher,  que, como eu, não entrava em nenhum dos trens. Eu, porque esperava o pessoal, mas e ela? Quando um trem partia se encaminhava até à beira dos trilhos, ficava um pouco e voltava e andar sem rumo pela plataforma. Os cabelos não deixavam que visse seu rosto, tive medo que chorasse. E era. Me aproximei.
Que foi? Você está triste?
-Muito.
-Está pensando em se matar?
-Sim mas meu pensamento não quer deixar porque tenho um filho.
-Concordo com seu pensamento.
– O pai do meu filho é violento, me trata com maldade e também me dá presentes. Não deixa eu continuar a estudar, vive dizendo que sou burra, fez eu perder meu emprego. Se eu falar em separar ele diz que sem emprego vou perder a guarda e, que se eu largar ele ninguém mais vai me querer.
– Você está sendo abusada psicologicamente, querida, você sabia?  É um crime e te leva a uma enfermidade emocional grave, te deixando vulnerável à manipulação e domínio.
– É que sou sozinha, não tive nunca pai e não dou sorte como homem.
-Peça ajuda, procure psicologia gratuita, você precisa de um profissional. Não se mate, vai sair dessas situação de desespero e ainda vai dar orgulho ao filhinho.
Nos abraçamos demorado. Ela se desmanchou agradecida. São dois casos diferentes de abuso que relatei e, falo por muitas, temos váaaaaaaaarios casos pra contar.
Tudo entranhado numa educação masculina machista até o talo. Meninos cresceram com a certeza de que a filha da empregada seria um dia “deles”, tal qual a mãe dela era do pai. Muitos homens  foram mal criados, naturalizando os abusos de tal modo , que toda escrotidão ganhou sinonímia simplista de “coisa de homem”. Criado para ser dono da fêmea e ser por ela cuidado quase como
bebê, o homem precisa refletir e rever seu conceito de ser, pois está flagrantemente perdido. Pagando mico atrás de novo diante da nova mulher que não para de se renovar, tirando o atraso dos tempos de amordaçamento.  Estou lendo História de um silêncio eloquente, documento em livro lindo escrito por Thais Dumêt que, a partir da história da criminologia feminina nos conta a história das leis feitas por homens para reger a justiça para a mulher. O livro me ensina que, por causa disso, por tanto tempo um estuprador que se casasse com a vítima era livre da  pena. Que um homem podia matar a mulher em nome da honra. Ora, tais exemplos mostram a crueldade do machismo transmutado em leis.É muito grave.
Esta educação ignorante da vida feminina, e despeitosa fez com que várias fantasias fossem alimentadas como verdades na cabeça masculina hetera, em geral. Uma delas é a de que toda mulher quer qualquer homem à qualquer hora.Por causa de tal absurdo tive que ouvir o motorista do táxi me perguntar pateticamente: será que essas quinhentas mulheres estão dizendo a verdade?? Vi gente dizendo que era modinha. Homens nunca foram abusados , a não ser quando crianças ,infelizmente.Mas , este abuso constante na vida adulta e, para muitas desde sempre, só a mulher sabe.
Eu peço que nos escute , ó homem de boa vontade, pense: você acha possível sua filha, sua mãe sua irmã, virem a público, se expor , inventando que foram abusadas, por “modinha ?” Faz sentido isso?
O abuso agora é crime! É vergonhoso e , não tão simples quando inclui manipulação como atestam os testemunhos das vítimas de Abadiânia. Não estamos falando de um vestido novo, e sim de um velho crime para o qual não estamos mais dispostas à manutenção do silêncio.
É preciso que homens de boa vontade ,os que já entenderam que abusos não devem continuar,os que se constrangem com essa triste verdade, se posicionem nas redes e nos lugares a favor das vítimas. Quem cala aqui é conivente.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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