DO LUCRO À LAMA: uma viagem de Mariana ao fim do mundo

Texto de Caetano Manenti, do Jornalismo em Pé, especial para os Jornalistas Livres e Greenpeace Brasil

Como sugerem as histórias de terror, o prenúncio do horror foi sonoro. A avalanche de lama, pedras, máquinas pesadas e todo o tipo de natureza retorcida chegou primeiro aos ouvidos dos moradores de Bento Rodrigues.“Pelo barulho que ouvi, achei que era o mundo acabando”, nos contou uma senhora que, um dia após a hecatombe, com os olhos secos de tanto chorar, tentava decifrar o que restou de seu lugar.


Eram quase três e meia da tarde de 5 de novembro de 2015, um dia quente, como de costume na vida do vale, e seco, como tem sido este maldito 2015 no centro-sul de Minas Gerais. Depois deste momento, nada mais foi como antes. A barragem de rejeitos de minério do Fundão, com cerca de 55 bilhões de litros de lama espessa, rompeu-se sobre os 7 bilhões de litros de rejeitos, esses mais líquidos, da barragem de Santarém. A combinação de lama e água virou uma bomba sobre a terra seca. O mundo não acabou como pensou a senhora. Mas uma linda parte dele sim.

“Pelo barulho que ouvi, achei que era o mundo acabando”. Foto: Bruno Bou

Do Fundão ao Oceano Atlântico, são quase oitocentos quilômetros de morte e tragédia, que expõem, em cada local, um novo problema de uma interminável lista: a exploração minerária em si, a segurança do trabalho de empregados terceirizados, a falta de planos de emergência, a dificuldade do acesso à água, a falta de respeito (e amor) pela natureza; o ancestral descaso com os direitos indígenas. Temas para reflexões inadiáveis.

A equipe dos Jornalistas Livres e do Greenpeace percorreu o trajeto de destruição, como numa viagem a um futuro indesejado (onde a natureza agoniza ou já é morta), e agora conta por que o desastre mineiro/capixaba antecipa como poderá ser o fim da linha de um país que, há cinco séculos, suga suas riquezas mais profundas sem se preocupar com quase nada: nem bicho, nem planta; nem rio, nem mar; nem escravo, nem pobre, nem índio.

 
Como já ocorria com o ouro no tempo de um Brasil remoto, as riquezas de nossa terra pouco ficam por aqui. No caso da exploração nas Minas Gerais, o trem matou a floresta para cruzar o Estado e levar commodites para o exterior através dos portos do Espírito Santo. Foto: Gustavo Ferreira

O ANÚNCIO DA TRAGÉDIA

Ministério Público mineiro já havia registrado preocupação com a Barragem do Fundão

As mais importantes pistas para entender o que ocorreu nas barragens da Samarco — empresa brasileira de propriedade da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton — surgem em 24 de outubro de 2013. Aquela quinta-feira poderia ter salvo a quinta-feira do fatídico 5 de novembro de 2015. Na oportunidade, a tragédia foi anunciada em documento oficial, assinado pelo Ministério Público de Minas Gerais.

O promotor de justiça Carlos Eduardo Pinto encaminhou parecer para o Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais (COPAM-MG), órgão do Governo do Estado, sobre os riscos de revalidar a Licença de Operação da Barragem no Fundão, expirada em setembro de 2013. Usando-se de um laudo do Instituto Prístino, o promotor fazia alertas claros, ao apontar o perigo do contato da Barragem do Fundão com pilhas de estéril de uma outra imensa mina em Mariana, essa de exploração exclusiva da Vale, conhecida como Fábrica Nova.

É preciso explicar:

Rejeito é tudo aquilo que não é usado após o beneficiamento do minério, e é armazenado em barragens. Já o estéril é o material que envolve o minério, e é desprezado ou removido no processo de lavra, ainda na mina. Esse material também pode ser alocado na própria mina, disposto em pilhas ou usado para terraplenagem.

O estudo diz: “Esta situação [do contato da barragem com as pilhas de estéril] é inadequada para o contexto de ambas estruturas, devido à possibilidade de desestabilização do maciço da pilha e da potencialização de processos erosivos. (…) O contato entre elas não é recomendado pela sua própria natureza física. A pilha de estéril requer baixa umidade e boa drenagem; a barragem de rejeitos tem alta umidade, pois é reservatório de água”.

O contato entre os dois materiais (que pode ser visto nos pontos tracejados da figura), segundo a Prístino, dificultaria a drenagem da barragem.

 

Em outros trechos assustadores — e agora sabe-se, proféticos — o parecer do Ministério Público mineiro foi além. Pedia que três pontos fossem condicionantes para a revalidação da licença.

a) Realizar monitoramento geotécnico e estrutural periódico dos diques e da barragem, com intervalo máximo de um ano entre as amostragens.

b) Apresentar plano de contingência em caso de riscos ou acidentes, especialmente em relação à comunidade de Bento Rodrigues, distrito do município de Mariana-MG.

c) Realizar análise de ruptura (DAM — BREAK) da barragem, prevista para ser entregue à SUPRAM (Superintendência Regionais de Regularização Ambiental).

 
Três parágrafos que mudariam a história desta tragédia. Foto: Gustavo Ferreira

Após o rompimento, soube-se que o Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais nunca respondeu ao parecer. Afinal, a Secretaria de Meio-Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas justificou que as operações na barragem do Fundão estavam legalizadas, uma vez que, conforme norma do próprio COPAM, está garantido: “Nos processos em que se constatar a apresentação de requerimento de revalidação dentro do prazo de validade da licença, este prazo ficará automaticamente prorrogado até decisão da Unidade Regional Colegiada do COPAM”.

Fundão funcionava, assim, com uma licença prorrogada automaticamente, apesar de haver um laudo objetivo a respeito dos perigos para a segurança da barragem em si e, mais especificamente, para o povo de Bento Rodrigues. A possibilidade do rompimento das barragens era conversa frequente nos distritos do noroeste da cidade, segundo muitos moradores conhecidos durante nossos dias em Mariana e região.

Longe de Bento Rodrigues, entretanto, a Samarco era uma empresa premiada por sua eficiência face à crise econômica mundial. Apenas quatro meses antes do acidente, em julho, a empresa recebeu, pela terceira vez consecutiva, o prêmio de “Melhor Empresa do Ano” na área de mineração, conferido pelo anuário “Melhores e Maiores”, da revista “Exame”, publicada pela Editora Abril.

A premiação é resultado da análise e tabulação de dados elaboradas por uma equipe da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), da Universidade de São Paulo, que assim justificou o prêmio da Samarco: “Conseguiu crescer mesmo em meio à desaceleração econômica e queda no preço do minério de ferro. Ela obteve a melhor rentabilidade do setor e é destaque pela terceira vez, com um faturamento de US$ 2,6 bilhões e lucro de US$ 1 bilhão. O segredo, segundo a empresa, é planejamento, controle de custos e fidelização de clientes.”

Foi uma performance invejável em condições tão adversas. Segundo a publicação “The Steel Index”, referência do mercado siderúrgico, o ferro vive um momento crítico. O minério com entrega imediata no porto chinês de Tianjin fechou cotado a US$ 44,20 em 24 de novembro. Foi a cotação mais baixa desde o início de julho, quando a matéria-prima do aço tocou a marca dos US$ 44,10, menor nível já registrado pela série histórica iniciada em 2008. Para se ter uma ideia, em fevereiro de 2011, a tonelada chegava a ser comercializada a US$ 187,10. Ou seja, em 4 anos, verificou-se uma queda de 76% no preço da matéria-prima. Especialistas do setor que não quiseram gravar entrevistas disseram que é perfeitamente correto imaginar que as minas da Samarco estivessem trabalhando perto de ou em sua capacidade máxima para cobrir os prejuízos com a brutal queda de valor do minério.

“Em 2014, o preço de venda do minério de ferro bruto recuou 47% em relação ao que era praticado no ano anterior, e o aumento da oferta global, combinado à desaceleração de mercados consumidores estratégicos, indica um cenário que não é passageiro; pelo contrário, impõe à indústria mineral um ambiente de negócios diferente, que consideramos um novo capítulo da história da mineração.”

O texto acima consta do “Relatório Anual de Sustentabilidade 2014”,editado pela Samarco. A saída? Altíssima produtividade e controle de custos. Sobre o controle de custos, é fácil exemplificar. Embora diga seguir à risca um Plano de Ações Emergenciais (PAE) das barragens, que teria fundamentado em 2014 um total de 1.356 horas de treinamentos com os empregados envolvidos direta ou indiretamente nas atividades, na prática a empresa não dispunha nem mesmo de alarmes sonoros para emergências, como, obviamente, é o caso da ruptura de uma barragem. As sirenes só foram instaladas dois dias depois da tragédia, “para o caso de novo rompimento de barragem”, informou com candura o engenheiro e gerente de Projetos da empresa, Germano Silva Lopes. O lema da Samarco é “Desenvolvimento com envolvimento”.

Quanto à altíssima produtividade, basta ver os demonstrativos da empresa. Se, em 2009, a Samarco produziu 16 milhões de toneladas de pelotas de ferro, em 2014, comemorou a produção de 25 milhões de toneladas. Trata-se de um crescimento de 56% em apenas cinco anos, dos quais 19% apenas entre 2013 e 2014. O aumento de produção, é certo, gerou uma montanha a mais de rejeitos.

 
Esferas utilizadas no processo de pelotização do minério também foram carregadas até o Bento. Foto: Rafael Lage

Em 2009, a produção de rejeitos batia na marca de 13,7 milhões de toneladas. Em 2014, atingiu o recorde de 21,9 milhões de toneladas (crescimento de 60%, dos quais 33% apenas entre 2013 e 2014). E onde era armazenado o excesso de rejeitos? É a própria Samarco quem responde, em seu “Relatório Anual de Sustentabilidade 2014”:

“Na Samarco, todo o rejeito (materiais arenosos e lamas) gerado na etapa de beneficiamento do minério de ferro é armazenado em um sistema, composto das barragens de Germano e de Fundão e do empilhamento na Cava do Germano, na unidade de Germano (MG).”

Se em 2013, o Ministério Público mineiro de 2013 apontava para o risco de “desestabilização” da barragem — o que já era ruim ficou pior — com a deposição de mais dezenas de milhões de toneladas rejeitos na barragem ameaçada.

Operários que trabalhavam na barragem confirmaram para nossa equipe que a empresa realizava obras visando ao aumento da capacidade das barragens de Germano e do Fundão. Em 2013, quando foi elaborado o parecer técnico encomendado pelo Ministério Público, o pedido era de que a barragem do Fundão alcançasse a altura de 930 metros (sobre o nível do mar), dez metros acima dos, até então, 920 metros. Já havia previsão de elevá-la, até 2022, para a cota 940 metros.

Não há números definitivos, mas o aumento da produtividade em um cenário de baixa do preço de muitas commodities deve servir de alerta para um possível crescimento relacionado no índice de vítimas fatais em minas e barragens ao redor do mundo. Para tomar de exemplo: a gigante BHP registrou cinco mortes no ano fiscal encerrado em junho, em operações na Austrália, Chile e África do Sul. Nos doze meses anteriores, nenhum acidente havia sido registrado.

 
Foto: Gustavo Ferreira
Barragens: São mais de 700 em Minas Gerais. 24 só em Mariana, todas ligadas à mineração. Foto: Bruno Bou

AINDA ANTES DO BENTO, MORTES TERCEIRIZADAS

13 dos 14 funcionários das barragens que estão mortos ou desaparecidos eram terceirizados

Os funcionários da Barragem do Fundão e de Santarém foram as primeiras — e mais numerosas — vítimas diretas da tragédia. Ainda que todo o Complexo da Mina do Germano, onde estão as duas barragens rompidas e mais a Barragem de Germano, seja de exploração da Samarco, os mortos — a maioria ainda desaparecidos — não eram funcionários da empresa. À exceção de um, Edmirson José Pessoa, os outros 13 eram empregados terceirizados. Seis deles de uma mesma empresa, a Integral Engenharia, com sede em Belo Horizonte. Dos 463 funcionários que estiveram no interior das barragens em todo o dia do rompimento, apenas 20 eram contratados diretamente pela Samarco, segundo nos informou o Sindicato Metabase Mariana.

De acordo com funcionários da segurança (também terceirizados) da Samarco, posicionados na portaria das barragens no dia seguinte à tragédia, era precisamente a Integral que trabalhava na ampliação da barragem. Foram levados pela lama ainda funcionários da Geocontrole BR Sondagens (especializada em sondas), Manserv Montagem e Manutenção, Produquimica e Vix Logística. A diversidade e a quantidade das empresas em trabalho de campo — enquanto os funcionários da Samarco atuam principalmente no administrativo — convoca a um questionamento fundamental em tempos de projetos legislativos que querem ampliar a contratação terceirizada no Brasil. Por que os terceirizados morrem mais?

Quando da discussão do PL 4330/2004 na Câmara dos Deputados, em abril deste ano, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (o Dieese) apontou uma significativa diferença entre o número de vítimas fatais em acidentes de trabalho no Brasil. Terceirizados morrem mais. Ao apresentar estudos de alguns ramos, a assessora da direção técnica do Dieese, Lilian Marques, disse aos nossos congressistas que

“os números refletem a forma como os trabalhadores terceirizados são tratados pelos seus empregadores, em aspectos como segurança e treinamento”.

Após os incidentes em outras duas barragens, autoridades públicas e a própria Samarco admitiram a possibilidade de rompimento da barragem de Germano. Foto: Gustavo Ferreira

O fio que vai desvelando essa história aponta também para o sindicalismo na região. Fracionados como convêm aos patrões, funcionários de empresas diferentes integram sindicatos diferentes, mesmo que trabalhem no mesmo local, sob o mesmo contexto de perigo. Trata-se de um sindicalismo tão fatiado quanto os morros explorados.

É provável que alguns dos empregados mortos não tenham nem mesmo conseguido sair de cima ou de dentro dos veículos que pilotavam. Segundo depoimentos de familiares, eles não estavam devidamente preparados para a situação de emergência.

Em vídeo, é possível perceber a certeza que um outro funcionário da barragem tem em relação à morte de colegas. Foram vítimas de um golpe brutal, soterrados pela lama, corpos arrastados morro abaixo numa morte certa.

Foto: Gustavo Ferreira

O FUTURO QUE NÃO MAIS SERÁ

A Prefeitura de Mariana sonhava em transformar Bento Rodrigues em rota turística da mineração. A lama terminou com tudo. Cinco pessoas não conseguiram deixar o Bento, e o número de vítimas fatais humanas da tragédia deve alcançar 19, entre encontradas e desaparecidas

Foram as imagens aéreas do distrito de Bento Rodrigues que revelaram para o mundo o que poderia vir a ser o maior desastre ambiental da história brasileira. Era uma cena de pesadelo, algo como o fim dos tempos, que, em vez de meteoro ou tempestade, veio como lama, com nome oficial de rejeito de minério. Em outras palavras, aquilo que não prestou para enriquecer ninguém: “a barragem é a única parte do negócio da mineração que não dá lucro”, como nos contou um engenheiro do setor, em entrevista num laboratório da Universidade Federal de Ouro Preto, uma semana após o desastre.

Gustavo Ferreira

Ao contrário do que implorava o Ministério Público, a Samarco não tinha um plano de contingência para a comunidade de Bento Rodrigues. O máximo que se soube, na emergência, foram algumas ligações telefônicas para tentar salvar os moradores. Ouvindo o barulho destruidor se aproximar, um corre-corre desesperado começou. Os mais velhos foram recolhidos de carro. Os mais jovens subiram correndo para as partes mais altas da localidade.

Ao conversar com moradores do Bento, percebia-se um profundo alívio de que o rompimento não tivesse ocorrido durante a madrugada, o que certamente teria matado muito mais gente. Ao total, sabe-se que cinco pessoas não conseguiram sair do vilarejo a tempo. Vulneráveis, três idosos e duas crianças.

Uma delas é Emanuelly Vitória, de apenas 5 anos, que, na hora do desespero, se perdeu de seu pai, Wesley Isabel, e foi levada pela enxurrada. Thiago Damasceno, de 7 anos, foi atingido dentro do quarto da avó. Maria Elisa Lucas, de 60 anos, estaria visitando o distrito para pescar na hora do incidente. Maria das Graças Celestino, de 65, tentou buscar pertences em casa e não foi mais vista. Antônio Prisco de Souza, o Totó, de 65 anos, também não conseguiu fugir, assim como tantos animais, de cachorros a gatos, bois e cavalos, passarinhos em gaiolas que ou morreram na hora, ou agonizaram na lama nos dias seguintes.

Para conhecer mais sobre a história de vida das vítimas e de seus familiares, assim como os nomes e sobrenomes que escrevem esta tragédia, que não cabe em números, vale conhecer o registro feito pelo estudante de jornalismo Leandro Barbosa em seu site História Incomum.

 
Foto:Bruno Bou
Foto: Gustavo Ferreira

Daqueles que conseguiram escapar para as partes altas do lugarejo, muitos não conseguiram deixar o Bento imediatamente após a tragédia. As equipes de resgate não chegaram antes do cair da noite e muitos foram os que sofreram madrugada adentro no cenário do caos. Menos mal que os heróis existem, como Danilo Caetano. No dia seguinte à tragédia, seu nome era o mais falado no sobe e desce das ladeiras de chão batido. O homem de 39 anos, hoje morador da vizinha Santa Rita Durão, usou o conhecimento adquirido nos anos vividos na comunidade e abriu picadas para criar caminhos alternativos para dezenas de pessoas deixarem o pesadelo. Uma servidora da Secretaria Municipal de Saúde — que não quis dizer seu nome, mas que também passou a noite salvando gente da barragem rompida — contou que Danilo escalou até as copas das mangueiras para salvar cinco jovens. “Ele subia e descia esse morro com água e comida para alcançar as pessoas que não podia resgatar.” Quando o dia amanheceu, exausto, Danilo deixou para trás a sua história. Em vez do agradável bar sob as mangueiras, lama. Em vez do campo de futebol, da igreja ou de sua escola, mais lama.

Neste link da GlobalGeo, é possível ver fotos de satélites impressionantes de como era o Bento antes e depois da lama.

GlobalGeo

O rejeito de minério “acabou com o Bento”, nas palavras repetidas de muitos moradores que, ainda incrédulos, subiam até o morro vizinho, que servia de plateia, para observar a cena grotesca.

Bento Rodrigues era um subdistrito do distrito de Santa Rita Durão — ambos com origem no século XVIII e ambos berços do desenvolvimento da mineração em Minas Gerais — no extremo noroeste do município de Mariana, próximos aos limites com as cidades de Catas Altas e Ouro Preto, aos pés da Serra do Caraça. Só não podia ser chamado de lugar pacato porque as explosões das minas ao redor chacoalhavam o povoado repetidas vezes — em especial, na hora do almoço.

“Naquele dia, ouviu-se, perto do meio-dia, uma explosão especialmente forte”.

Foi o que nos contou Jean Roberto, vice-presidente da Associação de Moradores de Santa Rita Durão. Ele sabe como poucos a história das cercanias e nos provou que havia um plano da Prefeitura de Mariana de transformar Bento e Santa Rita em atrativos de uma rota turística da mineração, a Estrada Parque Caminhos da Mineração. A ideia era retirar carros comuns da MG-129, trajeto dos grandes caminhões a serviço das mineradoras, e direcioná-los a uma estrada turística a ser construída, com vistosa sinalização, ciclovias, espaços para contemplação da paisagem e (por que não?) realização de eventos de negócios do setor. Para usar um termo da moda, a ideia era “gourmetizar” Camargos, Bento Rodrigues e Santa Rita Durão, ao gosto das mineradoras.

Jean Roberto faz questão de nos mostrar um vídeo, hoje irônico, que apresenta um futuro que nunca chegou. Foto: Gustavo Ferreira

O vídeo do projeto parece um sonho inverossímil. Em vez de localidades soterradas, é anunciada “a primeira Estrada Parque que alia o desenvolvimento econômico, o turismo e a preservação do patrimônio cultural e ambiental”. A estrada chegaria ao Bento pela Fazenda do Tropeiro, que, como o nome diz, é um antigo reduto de descanso para tropeiros em viagem. “Nela, se propõe a criação de um espaço multiuso, voltado para cursos, treinamentos, palestras, workshops, feiras agropecuárias, rodeios, utilizado de acordo com demanda de empresas sejam elas públicas, privadas ou não-governamentais”, diz o locutor do vídeo. Em resumo, um investimento que o Bento nunca teve. Na Fazenda Cata Preta, o plano era o Museu da Mineração — aquele que seria o primeiro museu do Bento.

 
Só no vídeo: Prefeitura transforma o Bento num pólo de investimentos. Reprodução da internet

Agora soterrada, a Capela de São Bento era o depósito da fé local. Mesmo para os mais esperançosos, é difícil crer que a lama não tenha terminado com Bento Rodrigues para sempre. O campo de futebol resta apenas na nostalgia dos boleiros mais rodados de Mariana. Pior ainda será a saudade do Bar da Sandra, mais prestigiado empreendimento do Bento. Há 8 anos, a propriedade de Sandra, cozinheira astuta e empreendedora, fazia sucesso. Aos pés de imensas mangueiras que, guerreiras, resistiram em pé à enxurrada, visitantes e locais encontravam “cerveja gelada, truco, um excelente molho pardo, coxinha, torresmo. Esse era o meu barzinho”,como nos contou Sandra. Na sexta-feira anterior à tragédia, o bar sediara o 5º Campeonato de Truco do Bar da Sandra. “Foi a despedida do Bento”.

Mangueiras sobre as quais ficava o Bar da Sandra. Foto Gustavo Ferreira

A Associação de Hortifrutigranjeiros de Bento Rodrigues fabricava a pimenta biquinho, um diferencial da economia local. Bento era especial também pela existência de “duas cachoeiras deliciosas”, segundo nos contou Jean Roberto, liderança em Santa Rita, ex-bancário em Belo Horizonte e ex-proprietário de um terreno no Bento, negociado com a própria Samarco.

A relação da Samarco com os povoados da vizinhança, claro, era intensa desde a sua chegada, no fim da década de 70. Conhecemos dois moradores do Bento que suaram seus corpos para a construção das barragens. José das Graças Caetano, hoje com 62 anos, pilotou tratores que colocaram abaixo uma floresta de eucaliptos para dar lugar à Barragem do Fundão. “E agora eu perdi na tragédia quase tudo de material que eu tinha: casa, documentos, roupas, fotos. Só restou a roupa do corpo e o meu Golzinho”. Foi o carro, em disparada morro acima, que salvou a vida da família Caetano.

Para os olhos leigos como os nossos, era fácil julgar inadequada a posição das barragens em relação ao Bento. Santarém, barragem mais líquida, que servia também de reservatório de água a ser lançada na pedra na rotina do trabalho de mineração, ficava a menos de 2 quilômetros de Bento Rodrigues. A hipótese de um grave erro de localização da barragem ganhou força logo no dia seguinte à tragédia. Geólogos do Instituto de Geólogos do Brasil não aceitaram gravar entrevistas, mas confirmaram: um povoado não pode estar no sopé de uma barragem — muito menos de três. Ou melhor: três barragens não podem estar sobre as cabeças de quase 600 pessoas.

Havia interesse comercial da Samarco no Bento. Alguns moradores do subdistrito garantem que a empresa tinha conhecimento do risco das barragens e que pretendia fazer uma quarta barragem ali — ou mesmo uma área de escape para caso de um acidente. O certo é que, mais de uma vez, a Samarco cadastrou as famílias em extensos relatórios. Em uma reunião com os moradores após a tragédia, um deles disparou: “a Samarco sabe mais da gente do que nós mesmos”.

Mesmo com tantos interesses numa região abençoada por abundantes recursos minerais, não há contra-partidas relevantes da Samarco ou da Vale — ou das autoridades públicas — para melhorar a vida da vizinhança, o que muito revolta Jean Roberto.

Vice-presidente da Associação de Moradores de Santa Rita Durão, Jean Roberto, não se conforma com a falta de investimentos em seu canto da cidade. Foto: Gustavo Ferreira

“O prefeito não diz que 80% da arrecadação de Mariana vem da mineração dessa região? Então por que não temos uma ambulância por aqui? Por que não temos cursos profissionalizantes? A Vale sempre diz que não há mão de obra qualificada — e não tem mesmo — , mas, claro, não há cursos, apenas a escolinha. Deixa eu mostrar para vocês como é o nosso esgoto!”

Jean e seu vizinho fazem questão de mostrar que o esgoto deságua in natura em Santa Rita Durão. Foto: Gustavo Ferreira

Muito antes de melhorar a vida do noroeste do município de Mariana, a Vale estraga o meio-ambiente da região. É o que fica claro na dissertação de mestrado em Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Ouro Preto de Tatiana Gomes Ferreira, defendida em 2011. No resumo do estudo, ela é enfática: A mineração foi considerada (pela população de Santa Rita) como uma atividade negativa, devido ao desmatamento e à degradação de edificações, e os que apontaram como positiva levaram em consideração unicamente a geração de empregos. O principal impacto causado pela mineração (após o aumento da exploração na Mina Alegria, também na região) foi a intensificação da degradação das edificações, devido ao tráfego intenso de veículos pesados. As águas naturais e de algumas residências do distrito estão com sua qualidade alterada devido, principalmente, à contaminação bacteriológica e níveis de enxofre acima do permitido por lei”.

Além de poluir os recursos hídricos, degradar as casas, não devolver em investimentos o que recebe em oportunidades, a Vale se sente dona do pedaço. De certa maneira, entende-se: boa parte da região de Mariana e Ouro Preto está loteada para a maior mineradora do país.

 
Mina de Timbopeba, Ouro Preto (MG). Fotos: Gustavo Ferreira
Barragem do Doutor, Ouro Preto (MG).
Entrada da Mina Alegria, Mariana (MG)
Público ou privado? Reportagem foi constrangida em estradas de acesso às minas da Vale nos municípios de Mariana e Ouro Preto.

Em localidades imediatamente vizinhas à catástrofe do Complexo da Mina Germano, outros três imensos empreendimentos (a Mina da Alegria, a Mina de Timbopeba e ainda o Complexo de Fábrica Nova) dominam a paisagem — e muito mais do que isso. Nossa equipe fotografou ao longe Timbopeba e Alegria e percebeu que, mesmo em rodovias públicas de acesso livre, são as regras da Vale que valem. Após negarem nosso acesso em Timbopeba, seguranças seguiram de perto o carro em que estávamos. Paramos para uma conversa surreal.

Não fica em propriedade da Vale, não. Senão, vou chamar a polícia prôceis… — disse o segurança, em um mineirês quase incompreensível. — Essa estrada é propriedade da Vale?, perguntamos. — Foi a Vale quem construiu. — Mas é propriedade da Vale? — Vai dar na Vale. — A rua que dá na sua casa é sua?

O segurança, agora tímido, fechou o vidro do carro e desistiu da conversa. Afinal, o recado já tinha dado.

Foto: Gustavo Ferreira

Os caminhos que entrecortam o interior de Mariana e Ouro Preto têm um cheiro estranho, forte, de poeira no ar. O asfalto é avermelhado, do minério que despenca dos caminhões. Os morros têm aquele aspecto fatiado, próprio de uma região recheada de minérios, intensamente devastados. Só nos limites do município de Mariana, são 24 barragens registradas. Umas mais, outras menos, são motivos de temor para a população há muitas décadas — e ainda mais agora.

A mineração, inegavelmente, é patrimônio histórico, cultural e econômico da região. Aliás, foi atrás de minas de ouro que os primeiros bandeirantes chegaram por lá na década de 1690. Muita riqueza já foi tirada daquela terra, especialmente no lombo dos escravos, que passaram a chegar aos milhares com o boom do ciclo do ouro. O protagonismo da mineração é tão grande nesta, que é a nossa, história que o próprio crescimento do Rio de Janeiro no século XVIII está relacionado com a demanda por escravos para extrair o minério deste rico pedaço do planeta.

Gravura de Rugendas, no século XIX, mostra a lavragem do ouro em Minas Gerais.

Depois do desastre em Mariana, mais de 300 anos depois dos primeiros mineradores chegarem por lá, a atividade de mineração pode estar em xeque?

“Colocar a mineração em xeque não, porque é uma indústria muito grande, que envolve muitos interesses econômicos, envolve muitas famílias, que dependem dela para sua subsistência…”

Essa foi a resposta de Ricardo André Peixoto, engenheiro civil, especialista em manejo de resíduos, membro do Núcleo de Estudos de Resíduos da Universidade Federal de Ouro Preto. Há dez anos, ele se dedica a transformar resíduos de minério como matéria-prima a ser utilizada na construção civil. Na busca por materiais secos, Ricardo acredita que pode ter encontrado uma maneira de frear o perigo envolvido na manutenção de barragens de rejeito de minério.

Para isso, bolou uma tecnologia que consegue separar o minério de ferro da areia, da argila e da água envolvidos no processo. Patenteou o projeto em 2012 e, com investimento de um fundo público estadual, levou um protótipo para a barragem da Vale em Brumadinho, que consegue processar 75 toneladas de lama por hora.

A ideia consiste em lançar um vento quente de baixo para cima e jogar ali todo o rejeito. Depois, a própria física faz o resto. Com diferentes pesos, fica possível capturar os diferentes materiais em diferentes alturas. As barragens de rejeito transformariam-se em barragens apenas de água. O custo de operação de um gigante tubo de ar, sobretudo pela questão do consumo energético, atrapalha o desenvolvimento do projeto, mas o professor se mostrou motivado diante de um cenário que precisa de novas respostas para as velhas perguntas.

Engenheiro Ricardo André Peixoto, da UFOP. Foto Gustavo Ferreira

“ É uma pretensão dizer que vamos eliminar a barragem. Mas você teria barragens menores e com material menos contaminante. Menos denso, menos lama. Material mais limpo, água. É hora de rever como fazer a mineração. A gerência de riscos não dá para valorar. Eu consigo valorar uma barragem que rompe. Eu sei quanto custa refazer uma barragem. Mas quanto custa uma vida? É inquantificável”.

Além do custo da barragem, também é possível quantificar as multas por desastres ambientais. Até o início de dezembro, a Samarco já havia sido multada em R$250 milhões pelo o IBAMA e em R$1 bilhão em termo de compromisso preliminar com o Ministério Público Federal. Além disso, a Justiça também bloqueou R$ 300 milhões da conta da empresa. O Ministério Público de Minas Gerais, no começo de dezembro, ingressou com uma Ação Civil Pública contra a Samarco, a Vale e a BHP. O MPMG pede que a justiça cobre R$200 mil por família que não seja transferida para casa alugada até o Natal. Além disso, o MPMG quer que a verba mensal para cada família seja elevada de um salário mínimo para R$1,5 mil, mais 30% para cada dependente. A ação ainda cobra indenização integral de todos os bens perdidos, como casas, comércios e carros.

Os valores podem ser considerados baixos quando comparados, por exemplo, à multa do governo americano sobre a British Petroleum pela catástrofe ambiental causada pelo vazamento de petróleo ocorrido no Golfo do México em 2010. Pelo acordo, a empresa terá de pagar US$ 20,8 bilhões para os estados de Alabama, Flórida, Louisiana e Mississipi. Alguns ambientalistas brasileiros dizem que, aqui no país, as multas são tão brandas que correr os riscos de pagá-las é parte de uma política de economia.

Na Universidade de Ouro Preto, também conhecemos Tatiana Ribeiro de Souza. De verve revolucionária, ela é professora da Faculdade de Direito, mestre em ciências sociais e doutora em direito internacional público. Apaixonada, ela arregala os olhos para debater o Direito frente a um mundo em extinção. A primeira reflexão perturbadora da professora aponta para os motivos de um antropocentrismo do Direito Ambiental.

Tatiana Ribeiro de Souza: “ Quem tem poder de dizer o direito, enxerga o meio-ambiente ainda como um objeto separado do ser humano”. Foto: Gustavo Ferreira

“A forma como nós tutelamos o meio-ambiente tem a ver com a nossa maneira de ver o mundo. O Direito ainda enxerga o meio-ambiente como um objeto separado do ser humano, que existe para nos servir. É isso o que justifica as atuações das mineradoras. Isso está relacionado com a nossa tradição judaico-cristã, que enxerga o meio-ambiente com uma postura bíblica. ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra.’
[Gênesis 1:26] E é assim que o Direito trabalha o Direito ambiental”.

Esse viés orientou as Constituições elaboradas pós-Conferência de Estocolmo, em 1972. Na década de 80, ainda segundo a professora, uma dicotomia entre proteção ao meio-ambiente e o desenvolvimentismo gesta o conceito de sustentabilidade. Foi neste quadro que surgiu a Constituição brasileira, de 1988, que em seu artigo 225 diz assim:

“Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.”

Tatiana provoca: “Quem tem direito é o “todos”, não é o meio-ambiente. Só os seres vivos humanos. Os seres vivos não humanos não são sujeitos de direito. Um cachorro não tem direito. Um cavalo não tem direito”.

A professora exalta o Novo Constitucionalismo Latino-Americano como esperança para uma nova relação com a natureza. O exemplo vem do Equador e, especialmente, da Bolívia, onde um presidente indígena conseguiu liderar um processo que expressa na Constituição Plurinacional os saberes dos povos ancestrais.

“Os povos ancestrais têm essa tradição de enxergar tudo como uma coisa só. Fomos nós que dividimos. Separamos os humanos do meio-ambiente. Lá, agora, a ênfase está nos direitos da natureza. Aqui ainda pensamos apenas em direitos humanos. Essas constituições escritas já no século XXI substituem a ideia de desenvolvimento pela ideia de bem viver. Eles não buscam o desenvolvimento, mas uma integração com a natureza. Esse é o problema central para se entender essa catástrofe”.

Outra cabeça pensante que vê no exemplo da Bolívia a saída para um outro futuro é o antropólogo português, de ampla relação com o Brasil, Boaventura Souza Santos. No texto Décima primeira carta às esquerdas: extrativismo ou ecologia?, Boaventura opina: “Tal como acontece com a democracia, só uma consciência e uma ação ecológica robusta, anti-capitalista, pode fazer frente com êxito à voragem do capitalismo extrativista. Ao “ecologismo dos ricos” é preciso contrapôr o “ecologismo dos pobres”, numa economia política não dominada pelo fetichismo do crescimento infinito e do consumismo individualista, e antes baseada nas ideias de reciprocidade, solidariedade, complementaridade vigentes tanto nas relações entre humanos como nas relações entre humanos e a natureza” .

A teoria e os raros exemplos estrangeiros servem para inspirar, mas a verdade é que ainda não são realidade no debate brasileiro sobre o tema. Não é fácil que seja, aliás. A Vale é uma importante parceira publicitária do setor conhecido como grande mídia. Coincidência ou não, debates ecológicos robustos e aprofundados ainda não são frequentes em nossos telejornais, a ver como os principais canais de televisão trataram a crise hídrica de São Paulo: focalizando na economia do uso doméstico de água e fazendo de conta que o problema não está na agropecuária, na indústria pesada ou na atividade minerária. Entidades ambientalistas não têm espaço em horário nobre.

No caso de Mariana, apesar da devastação provocada pela ruptura das barragens da Samarco, das perdas em vidas humanas, do desastre ambiental sem precedentes, a imprensa nacional demorou para dar o destaque e a dimensão que o assunto merecia, segundo notou o Observatório da Imprensa, do decano Alberto Dines.

“Nem as primeiras imagens da televisão mostrando o lodaçal em que se transformou a cidade de Bento Rodrigues para que as principais empresas jornalísticas enviassem equipes e repórteres para o local do desastre.”

Para piorar tudo isso, as empresas mineradoras fazem parte de um seleto time que, segundo as precisas palavras da professora Tatiana, “nunca perdem as eleições no Brasil”. Como grandes doadores/investidores de campanhas, fica difícil saber o que é política minerária real e o que é força política das mineradoras em si.

Leonardo Quintão, do PMDB de Minas Gerais, é irmão de minerador e relator da Comissão da Câmara que discute um novo código para a mineração. Foto: Divulgação

Só para ficar no exemplo nacional, 20 dos 27 deputados que compõem a Comissão que debate um novo código de mineração para o Brasil receberam dinheiro de mineradoras em suas campanhas em 2014. O irmão do relator Leonardo Quintão (PMDB-MG) é sócio e administrador de empresas de mineração. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que Quintão recebeu R$ 2 milhões de mineradoras para a campanha de seu segundo mandato na Câmara Federal.

As mineradoras mandam. A professora Tatiana coordena um grupo de extensão chamado Projeto Antônio Pereira, que estuda o impacto da atividade minerária no distrito homônimo do município de Ouro Preto. Ela revela que o grupo não consegue ter acesso nem mesmo a documentos básicos de Licenciamento Ambiental, que têm por obrigação serem públicos.

Ao observar os acontecimentos posteriores à tragédia, percebemos que os limites das empresas mineradoras em Minas Gerais não são claros. Chamou a atenção o protagonismo da Samarco em diferentes âmbitos do ocorrido. Após cercar Bento Rodrigues, a empresa recebeu em suas dependências as primeiras palavras do governador Fernando Pimentel (PT) sobre a tragédia. Também foram da Samarco — e não da Defesa Civil — muitas das iniciativas de coordenação de buscas. Era a própria empresa, inclusive, que gerenciava a ação de máquinas pesadas para revirar a lama.

Pablo Dias, do MAB: “Temos pressionado as autoridades públicas e a Samarco para deixarem as pessoas com as cabeças tranquilas, para saber o que elas querem para suas vidas”. Foto: Gustavo Ferreira

Os líderes do Movimento dos Atingidos por Barragens e do Movimento dos Atingidos pela Mineração também criticaram a posição central da Samarco no atendimento às vítimas, sobretudo as de Bento Rodrigues. Segundo Pablo Dias, da coordenação estadual do MAB-MG, “a Samarco fez ações para dividir as famílias. Tentou forçar negociações individuais, sem deixar o processo de comoção passar. Temos pressionado as autoridades públicas e a Samarco para deixarem as pessoas com as cabeças tranquilas, para saber o que elas querem para suas vidas. Os moradores já na primeira semana tiveram que responder a um questionário, que perguntava o que tinha no local. Chegaram a perguntar também qual o interesse das pessoas: reassentamento ou indenização?, o que dá a entender que não seria possível as duas coisas.”

O padre Geraldo Barbosa, da arquidiocese de Mariana, é mais um a engrossar o coro contra as mineradoras da região. Ele hospedou em sua própria casa integrantes de movimentos sociais e jornalistas de mídia alternativa, como nós. Antes de se despedir, fez uma reflexão interessante acerca do nome de seu Estado: “As Minas estão concentradas na mãos de poucos. E os Gerais — o povo — ficam com a dor e a exclusão”.

Antes de pegarmos a estrada para vermos com nossos olhos o que aconteceu no rastro de lama, Pablo Dias, do MAB, nos contou da sua experiência ao sobrevoar a região das minas em um helicóptero.“A percepção é de que a terra está sendo ferida de forma permanente pela mineração. Esse momento do rompimento da barragem foi o sangue, estancado durante muito tempo, jorrando Rio Doce abaixo”.

Vimos o sangue através de nossas próprias lentes.

Mataram o Rio: Cenas grotescas como essa, em Santa Cruz do Escalvado, deixavam populações atônitas sobre as pontes e às margens dos rios. Foto: Gustavo Ferreira

SUJANDO DE SANGUE AS MINAS GERAIS

A lama atravessou Mariana para iniciar uma viagem sem volta, sem vida.

Depois de arrasar com o Bento, a lama seguiu ainda com muita força em direção sudeste, atravessando os limites do município, desgraçando o rio Gualaxo do Norte, até chegar às pequenas Paracatu e Barra Longa, já na madrugada do dia 5 para o dia 6. O prenúncio da lama já corria as cidades desde o fim da tarde pelo telefone e no noticiário, o que salvou as vidas humanas, mas não evitou perdas no comércio e nas residências das partes baixas do centro.

Foto: Caio Santos
Foto: Bruno Bou
Foto: Caio Santos
Foto: Bruno Bou

Piores foram as perdas no interior dos municípios, como nos distritos de Paracatuzinho e Gesteira. A parte nova da comunidade de Gesteira, localizada morro acima, ficou ilhada. Já Gesteira Velha, que ficava ao nível da margem do rio Gualaxo do Norte, ficou destruída, toda sob a lama. Suas quinze famílias perderam as casas, o pequeno grupo escolar de oito alunos e a quadra de futebol. De pé, como prova de alguma resistência, sobrou apenas a antiga igreja, suja até o quinto metro de altura. Pelo menos ninguém foi engolido pela avalanche.

“Graças a Deus vocês trouxeram água”, agradeceu dona Ni Pinto Bento, de 73 anos, à Cruz Vermelha. Ela nos explicou que a questão da sede estava especialmente delicada por lá. Afinal, a severa estiagem persiste, e do poço de onde ainda se buscava alguma água, agora só sai lama.

— Parecia que tava acabando — Acabando o quê, Dona Ni? — O mundo, uai! — confessou, aliviada, agora com um lindo sorriso no rosto, mísero momento de descontração em uma viagem tão pesada.

Comunidade de Gesteira Velha, município de Barra Longa. Foto: Caio Santos
Paracatu de Baixo também foi duramente atingida pela lama. –Foto Joka Madruga/Brasil de Fato
Nem os carros com tração 4X4 conseguiam vencer a lama nos primeiros dias. Foto Bruno Bou
Em Gesteira Velha, famílias ilhadas. Foto Caio Santos

O Gualaxo do Norte levou a lama até o Rio do Carmo em direção à cidade de Santa Cruz do Escalvado, cenário de algumas das mais chocantes cenas que vimos em nossa viagem. É dentro dos limites deste município que o Rio do Carmo encontra o Rio Piranga, e é desse encontro que surge o Rio Doce. Ocorre que, logo em sua primeira porção, o Rio Doce já sofre com uma primeira intervenção humana, também de iniciativa da Vale: a Usina do Candonga, como é chamada pelos locais, ou Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, em seu nome oficial. Em 2004, a localidade de São Sebastião do Soberbo foi inundada para a construção da represa da usina, o Lago do Candonga. A lama, que chegou no começo da manhã de sexta-feira, arregaçou o Candonga, que virou um imenso cemitério da natureza, de árvores retorcidas, de seres humanos, peixes e outros animais. O cheiro de morte era quase insuportável. As cenas, inacreditáveis.

Foto Caetano Manenti

Do alto das pontes e de cima dos barrancos, era possível avistar alguns poucos bombeiros — e funcionários da Samarco — trabalhando numa espécie de rescaldo do resgate. Em um dos poucos restaurantes da localidade, encontramos uma equipe completa da Defesa Civil. O líder da operação não aceitou gravar entrevista, mas um outro agente, com olhar muito mais deprimido, admitiu: “Ontem, eu mesmo encontrei um cadáver. Depois um outro braço”. Ele explicou: como o Candonga era a primeira represa no caminho da lama, é possível acreditar que significativa parte dos corpos desaparecidos tenha descansado de sua viagem em Santa Cruz do Escalvado. Aqueles que não ficaram retidos ali, podem ter sofrido uma violência ainda mais chocante logo adiante, ao passarem pelas turbinas da hidrelétrica Risoleta Neves, que foi obrigada a abrir suas comportas e esvaziar a represa para evitar um novo desastre.

Pelo vídeo, em que se pode ver a força com que a lama atravessou o empreendimento, é praticamente certo que ninguém mais sobreviveria a partir dali.

Lago do Candonga ficou completamente destruído, em Santa Cruz do Escalvado (MG). Foto: Gustavo Ferreira
Foto: Gustavo Ferreira.
Foto: Gustavo Ferreira
Lama escura e uma crosta preta movediça. Foto: Gustavo Ferreira
Do encontro dos rios do Carmo e Piranga, agora morto, surge o Rio Doce. Foto: Gustavo Ferreira

Guilherme Tuzi, de 34 anos, era dono de um bar às margens da represa e de um barco que fazia passeios turísticos. “Servíamos peixes. Toda a sexta-feira havia um forrozão para a comunidade. Eu e meu irmão tínhamos esse negócio havia três anos. A principal área de lazer da localidade é essa. Pegamos essa área bem largada, revitalizamos. O prejuízo é bem amplo, bem alto”.

Na entrevista, Tuzi sugeriu que haveria outros moradores de Santa Cruz do Escalvado que estariam sofrendo ainda mais do que ele com a desgraça do lago. Trata-se das comunidades ribeirinhas de São Sebastião do Soberbo, que foram expulsas dali há pouco mais de uma década e remanejadas pela Vale morro acima. Essa comunidade tinha no rio, antes de seu represamento, sua principal atividade econômica, o garimpo artesanal, individual. Agora a lama expulsou os últimos sofridos garimpeiros que restavam, espécies de mendigos do minério, à procura das migalhas da riqueza das Minas Gerais.

Garimpeiro há 33 anos, seu Paulo Ananias de Souza: O que a gente fica ressentido é que as oportunidades são tiradas da gente para passar para uma grande empresa. Foto: Gustavo Ferreira

Paulo Ananias de Souza, de 62 anos, é um deles. Levantando uma obra em Nova Soberbo para tentar recuperar as perdas financeiras causadas pela lama, Paulo conversou conosco. Disse-nos que desde 1982 está à procura das pequenas pepitas de ouro que ainda sobravam no rio.

“A gente usa o rio desde que o rio é rio e desde que há moradores por aqui. Veio esse incidente para completar a dor do coração da gente. A gente está bem ressentido. Eu tirava meia [sic] grama de ouro por dia. Uma grama em um dia bom. Vivemos dessa pequena extração. O ouro do rio aqui já era pouco, mas é o trabalho que vínhamos fazendo para o sustento. Agora não tem como. O que a gente fica ressentido é que as oportunidades são tiradas da gente para passar para uma grande empresa. Às vezes, tentam nos impedir de fazer a extração pequena, mas quando uma grande empresa chega, com as propostas delas, o governo facilita para eles”.

Mesmo diante da desgraça, a esperança luta para se renovar. Jogado entre árvores de troncos despedaçados, um singelo troféu quebrado sobressaía à tragédia. A inscrição nele registrava: “4º Torneio de Truco do Bar da Sandra — vice-campeão”. Não havia dúvidas, o prêmio resistira à caótica viagem de mais de 70 quilômetros e agora servia de memória de um tempo de alegria.

Foto: Gustavo Ferreira.

ERA DOCE E SE ACABOU

Ao encontrar o Rio Doce, a lama iniciou uma torturante viagem a nordeste em direção a Ipatinga e Governador Valadares. O rio, que já era matado há tempo por lá, agora é morto de vez.

Em direção ao Vale do Aço, o Rio Doce margeia o Parque Estadual do Rio Doce, um dos últimos redutos de Mata Atlântica numa região onde a palavra “floresta” tornou-se sinônimo de plantação de eucalipto. O reduto foi objeto de pesquisa de naturalistas europeus no século XIX, em expedições promovidas pelo próprio dom Pedro II. A viagem da lama pelo parque fica longe dos olhos da maioria, uma vez que o rio corre justamente do lado de mais difícil acesso ao Parque. Mais do que apenas peixes, a direção da unidade mostrou preocupação com a perda da vegetação aquática, uma biodiversidade que pode demorar séculos para ser reconquistada.

Em vídeo desolador, moradores da região do município de Pingo Dágua, logo no começo do parque, mostram o tamanho do desastre ambiental.

Matança de peixes no município de Pingo Dágua.
Matança de peixes no município de Governador Valadares.

Como indica seu nome, há intensa atividade siderúrgica no Vale do Aço, às margens do Rio Doce, como no caso da ArcelorMittal Inox Brasil, no município de Timóteo, ou da própria Usiminas, em Ipatinga, cidade de 255 mil habitantes. A pouco menos de um quilômetro de distância do robusto leito do Rio Doce, a Usiminas despeja fumaça preta no ar. A poluição mata o rio há tempos. Desde a década de 80, o Rio Doce não é usado para banho em Governador Valadares, próxima parada de nossa jornada.

Centro urbano de 275 mil habitantes, Governador Valadares é a mais populosa entre as cidades no caminho da lama. Moradores dos bairros que margeiam o RioGovernador Valadares, com 275 mil habitantes, é a mais populosa entre todas as cidades no caminho da lama. A população que vive nos bairros que margeiam o Rio Doce admite que nem sabia que tantos peixes grandes resistiam à poluição do local. Ficaram sabendo quando, mortos, eles começaram a boiar. No entanto, mais do que lamentar a fauna perdida, a população de Valadares está preocupada com o abastecimento de água. Foi tanta sujeira no rio que o Serviço Autônomo de Água e Esgoto da Prefeitura interrompeu a captação de água na única fonte da cidade, logo que a lama chegou ao local, cinco dias após o desastre.

Nos dias em que estivemos em Governador Valadares, a jornada em busca do líquido vital nos mostrou como é a vida de brasileiros que vivem a seco, e ainda como será o futuro de um país cada vez mais aflito pela escassez de água. Em poucas palavras, o rico irá pagar, e o pobre irá sofrer para carregar a saciedade da sede de sua família. Foi essa a inequação que presenciamos por lá. As fotos são de Gustavo Ferreira.

A falta dágua, aos 80 anos. Fotos: Gustavo Ferreira
Maria Eunice e Enildo de Jesus Santos. Foto Gustavo Ferreira

Na casa de uma numerosa família baiana, conhecemos o casal Maria Eunice, de 52 anos, e Enildo de Jesus Santos, de 55. Para tomar banho e lavar a roupa de toda a semana, que ainda seria batida no leito de um outro rio, eles estocavam água em baldes e tinas. O maior problema, no entanto, era para o serviço profissional de Maria, a faxina. Naquela semana que passara, quatro das cinco patroas que a contratavam para uma limpeza diária, cancelaram a limpeza. Assim, a diarista ganhou apenas 1/5 do que calculava em sua semana.

Com um português enfático, que vamos transcrever para tentar reportar o vigor de suas palavras, ela reclamava, aflita: “Na hora de dar água, a prefeita [Elisa Costa, do PT] só dá água para alguns. Só para os hospitais. E a população fica cuma? Meu trabalho é à moda água! Nós é faxineira! Veve do suor, tem que ter água para trabalhar.”

Outro que suava para conseguir água era o vendedor Alex Júnior de Souza, de 24 anos e com quatro filhos em casa. Encontramos Alex à beira de uma imensa caixa d’água de 20 mil litros, equilibrando dois baldes em seu guidão da bicicleta: “Já é a décima vez que venho hoje. Quero aproveitar hoje que é sábado, porque trabalho durante a semana. Já deu para lavar roupa e agora acho que vai dar para tomar banho.”

Já na décima viagem até a caixa dágua, Alex Júnior de Souza disse que aproveitou o fim de semana de folga para estocar a água para toda a semana “que não poderei vir aqui porque terei que trabalhar”. Foto Gustavo Ferreira

Enchendo a caixa d’água a partir da doação de um vizinho que possuía um poço artesiano, o piscicultor Esdras Rulon, de 32 anos, engoliu o choro:“Irresponsabilidade muito grande da Samarco. Pessoal tá visando só lucro, lucro, lucro. Esquece de todo o resto. Irreparável! Não vai ter como! O transtorno é muito grande. Eu tenho uma fazenda de criatório de peixes, quase 400 mil peixes. Eu quase não tô dormindo de medo que a lama invada minha fazenda ali. E aqui tô preocupado com esses mil litros de agora já preocupado com os próximos mil litros de depois. E se o poço dele secar? E se a bomba parar de funcionar? Hoje é sábado, eu queria estar na cama descansando, tô aqui procurando água. Pelo amor de Deus, me ajuda, ô”.

Esdras Rulon preocupado com sua produção de peixes. Foto Gustavo Ferreira

A batalha pela água para quem tem dinheiro é bem mais fácil. Não era raro ver gigantecas camionetes carregando caixas d’água inteiras em suas caçambas. Caminhões-pipa abasteciam hotéis e prédios confortáveis. Por R$ 50, era possível encher uma caixa d’água de 800 litros. Em rodas de classe média, jovens falavam com naturalidade sobre a necessidade de usar pratos e talheres plásticos nestes dias. Sabemos que não são todos que têm dinheiro disponível assim.

Prova disso é a fila que se formou na distribuição de garrafas de água mineral, oferecidas pela própria Samarco, e distribuídas com o auxílio do Tiro de Guerra, instituição ligada ao Exército. Na manhã de domingo, quinto dia sem água em Valadares, três mil pessoas amanheceram na maior das dez filas dispostas pela cidade. E olha que cada pessoa poderia pegar apenas seis garrafas de um litro e meio. Algumas senhoras já velhinhas choravam por não conseguirem carregar os 9 quilos de água em seus braços.


A MAIS COMPLEXA DAS MORTES, A MORTE KRENAK

Em Resplendor, os indígenas Krenak perderam aquilo que as palavras ainda não dão conta de contar

Fotos: Gustavo Ferreira

Nenhuma experiência de nossa viagem foi tão impactante quanto visitar a tribo dos índios Krenak, no município de Resplendor, já bem próximo da divisa entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. O caminho impõe a travessia de pontes que davam a dimensão da imensa largura do rio — mais de 500 metros em alguns trechos. A trilha de chão batido até a tribo ladeava a Estrada de Ferro Vitória-Minas, mais uma personagem desta triste história, passagem para o minério extraído em Minas rumo aos portos do Espírito Santo. Chegamos à tribo apenas dois dias depois de a lama ter destruído o Watu, nome dado pelos indígenas ao seu querido rio. Chegamos na tribo em pleno velório e fomos recebidos por Batik Krenak, pintado de preto desde a barriga até os lábios inferiores.

O Watu é fonte para tudo na vida dos Krenak. Desde o banho, a caça, a pesca, principalmente a questão religiosa. A gente tem uma relação forte com o rio, o rio Watu, a gente tem a consideração de que o rio é uma mãe nossa. Com tudo isso que aconteceu, a comunidade Krenak decidiu tomar uma decisão [de sentar sobre os trilhos do trem da Vale]. A gente não pode ficar nesta situação. Os responsáveis têm que vir aqui e têm que conversar, para saber como nós vamos viver daqui para frente. Nós estamos aqui velando o rio, já que ele está morto. Eles acharam que mataram só o rio, mas nos mataram também.”

Fotos de Gustavo Ferreira

A violência sobre o Rio Doce não foi a primeira imposta pelas grandes empresas ao povo krenak. A ferrovia, mais de um século atrás, já havia matado parte da cultura krenak. Segue Batik: “Essa ferrovia é antiga aqui no nosso território. Ela corta o nosso território há mais de cem anos. Mas antes disso os krenak já estavam aqui e não havia esse problema. Aqui era mata e nosso povo, até então, sempre viveu em paz. Logo após a construção desta estrada de ferro, veio o problema todo, acabou com nossa floresta, não tem mais mata. Hoje, mais uma vez, nós fomos afetados. Levaram nossa floresta e agora nosso rio também. A gente precisa da água para beber, para nos alimentar, para tudo” .

Djanira Krenak, a matriarca da tribo, nos recebeu com um ramo de erva nas mãos e o olhar perdido. Liderança moral e religiosa na comunidade, é ela, por exemplo, quem batiza todas as crianças nascidas na aldeia.

“É como quem mata gente. É a mesma coisa. Matou o rio, matou o peixe, matou a cobra da água, que é a sucuri. O rio é tudo para nós. Ele é sagrado, faz parte do tudo, da nossa religião, onde a gente ensinava a criança nadar de um lado a outro. Os parentes que já morreram também fazem parte do rio. Acabaram com o nosso povo”.

Antes de deixarmos a tribo, o povo krenak quis mostrar sua força sobre os trilhos do trem e, para isso, entoou uma canção de luta. Comovidos, nos despedimos a tempo de ver de frente a força do protesto. Parada perto do centro de Resplendor, uma imensa locomotiva da Vale, com vagões a perder de vista, recheados de riquezas da terra, somava dias de prejuízo — um prejuízo milionário, mas certamente muito menor do que aquele provocado pela Vale na tribo krenak. Afinal, o quanto vale aquilo que não tem preço?


A LAMA DEIXA A SECA AINDA MAIS SECA

Na divisa com o Espírito Santo, no município de Aimorés, acompanhamos a chegada da lama à cidade. Depois de ensinar tantas formas de morte, agora a lama se preparava para matar o gado de sede e as sucuris de desespero.

Em Aimorés, novamente encontramos brasileiros descontentes com o destino do Rio Doce. Motivo: construída há uma década, a hidrelétrica de Aimorés afugentou peixes e separou comunidades próximas. Vizinhos viraram amigos distantes, famílias foram divididas ao meio por um imensa represa criada ali. Seu Antônio, de 82 anos, é uma dessas pessoas. Filho de um soldado alemão que lutou na II Guerra, há seis décadas vive no local. No caminho da represa a ser inundada, negociou sua antiga propriedade com a Companhia Energética de Minas Gerais, a CEMIG, e com o dinheiro pôde comprar um terreno maior morro acima, perto da antiga casa.

A propriedade rural que visitamos, bem no fim de uma estrada de chão, já viveu uma época próspera, repleta de plantações e, principalmente, de gado leiteiro. Hoje, a mais dura seca de toda uma vida perturba quem muito bem poderia descansar em paz, ao lado da esposa Elci. Com o pasto ressecado, só no último mês, 20 cabeças de gado morreram de fome ou foram sacrificadas. A alternativa que restava para saciar o gado, a água do Rio Doce, agora está virada em lama, e as expectativas são as piores possíveis.

E pensar que a Samarco confessa em seu “Relatório Anual de Sustentabilidade”, que usou em 2014 nada menos do que 29,5 bilhões de litros de água, 74% acima do registrado no ano anterior. O volume daria para encher 12 mil piscinas olímpicas e, obviamente, saciar a sede da gente e dos bichos.

Fotos de Gustavo Ferreira.

A vegetação seca, o rio morto e as tantas lamúrias que ouvimos ao longo da jornada não tinham fim. Tristes, ainda tivemos tempo de ouvir uma nova história, digna de tempos apocalípticos. Fomos alertados para termos cuidados com ataques de sucuris, a cobra d’água, que frequentemente supera os 4 metros de comprimento. A lama havia provocado a falta de oxigenação adequada na represa e, assim, as tantas sucuris da região estavam fugindo da água, lutando pela vida, subindo os morros em fuga.

Sem respeitar as fronteiras que o humano criou, a lama mineira, que é brasileira e internacional, vence os limites de Minas Gerais, estado-Pai da mineração nacional, e agora desgraça um outro Filho, o Espírito Santo.


O DESASTRE CRUZA A DIVISA

Demorou quase duas semanas a agonia dos capixabas. Quando a lama chegou, tudo o que de pior se previa, se confirmou.

O primeiro município capixaba a receber a lama foi Baixo Guandu, na tarde da segunda-feira, dia 16. Cinco dias antes, o prefeito da cidade, Neto Barros (PC do B) encheu as mineradoras de críticas e ameaçou utilizar as máquinas do município para bloquear outra estrada de ferro da Vale em protesto com o desastre. Não se viu nem em Dilma Roussef (PT), nem no prefeito de Mariana Duarte Júnior (PPS), nem nos governadores de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT) ou do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB), uma posição de estadista como a de Neto Barros.

“A Samarco, ou seja, a Vale e a BHP precisam se mostrar mais interessadas em resolver esse problema. É o maior desastre ambiental da história do nosso rio, há elementos na água, já em Valadares, que está descendo o rio e vai nos encontrar e ir para o oceano. Elementos químicos como manganês, arsênio e alumínio, coisas que não são absorvidas pelo organismo humano estão nos rejeitos. Não se tinha um plano de contenção para esse tipo de desastre”, declarou o prefeito.

Quando a lama chegou em Baixo Guandu, Neto subiu sobre os trilhos, com a ajuda das máquinas. A Justiça conseguiu liberar a estrada em menos de duas horas. O desastre matou peixes gigantescos e interrompeu o abastecimento de água, assim como na vizinha Colatina, onde o rio é cenário fundamental da cidade.

Foto: Jander da Silva/ Secretaria de Comunicação de Baixo Guandu

E o caos tomou conta de Colatina

Por Egle Bartoli, especial para os Jornalistas Livres e Greenpeace Brasil

Em Colatina, cidade capixaba de 122 mil habitantes que depende exclusivamente do Rio Doce para o abastecimento de água, o cenário era de corrida desesperada por água mineral

Em 21 de novembro, sob o sol de mais de 30 graus, chegamos à cidade e nos deparamos com o Rio Doce já imundo e com a falta de água em todas as torneiras da cidade. Nos locais públicos, os banheiros encontravam-se interditados, porque não havia água para a descarga.

A Samarco foi obrigada a garantir o abastecimento da água potável e mineral na cidade por ordem judicial. Para acatar a decisão, a mineradora espalhou pelos bairros da cidade reservatórios com capacidade de 10 mil litros, que deveriam ser abastecidos duas vezes por dia com água potável. Na prática, o que se viu foi algo bem diferente disso. Pessoas relatavam que a água servida cheirava mal e causava alergias na pele.

“A água das caixas é suja, tem um cheiro de cloro e esgoto, causa coceira para tomar banho e está empretejando as roupas brancas. Para piorar, tem muito cisco na água e ela tem de ser peneirada para ser usada. Não tem condições de beber aquela água”, relatou-nos Muriel, moradora do bairro Perpétuo Socorro, que liderava um protesto na sua comunidade, reivindicando a entrega de água mineral que havia dois dias não ocorria.

Apesar da presença do Exército para garantir a distribuição de água mineral de forma organizada, o que vimos é que não existia um plano, alguns bairros eram mais beneficiados do que outros; não existia controle de quantidade de litros de água entregues a cada pessoa; os horários de entrega não eram respeitados e não havia organização das filas. Era só o caminhão com a água potável chegar para distribuir as garrafas, e começava um tumulto, guerra de todos contra todos.

“Era uma baderna. Na quinta-feira (18), só metade das pessoas que estavam presentes, cerca de 2.500, conseguiu pegar água, porque não mandaram caminhões suficientes”, relatou Wilson, vendedor ambulante de galões para armazenagem de água.

“Muitos idosos e pessoas com problemas físicos não conseguem carregar a água. Eles não podem descer até o lugar onde é feita a entrega e, assim, ficam sem nada para beber. O pior é que eles [os responsáveis pela entrega] falaram para a gente que quem não tiver carro ou moto que arrume um jeito de pegar a água porque é assim que vai ser feita a entrega”, alerta Muriel.

“Meu pai está na cadeira de roda, em cima de uma cama, não tem água pra nada, não tem água na torneira. Ontem distribuíram água mineral e deram uma garrafinha só, tá uma crise feia lá no bairro Ayrton Senna. Não tem dinheiro pra comprar água mineral”, desabafa uma senhora que estava retirando água potável de uma das caixas d’água espalhadas pela cidade.

Neste mesmo dia foi marcada a entrega de água mineral no cais do rio às 15h, onde uma fila gigantesca com cerca de 2.000 pessoas foi se formando. Famílias inteiras juntas, para conseguir carregar o máximo de água possível. Eram mães com bebês de colo, idosos, jovens, todos aguardando a distribuição.

Sem a água do Rio Doce, as autoridades de Colatina foram buscar água nas lagoas dos municípios vizinhos. Tratada, essa água foi distribuída à população. Na cidade de Marilândia, cerca de 150 caminhões-pipa eram carregados por dia com a água da Lagoa Batista. O mesmo ocorreu em outras lagoas da região, ameaçando-as de esgotamento, com mais prejuízos ainda para a fauna aquática da região. Na terça-feira (24) a situação em Colatina ainda era tensa, moradores do bairro de Columbia protestaram contra a falta de água fechando a BR-259 por cerca de duas horas. Para coibir a manifestação foi chamada a tropa de Choque da polícia que atirou balas de borracha contra a população e prendeu oito pessoas, que foram liberadas.

Fotos de Eviton Araújo

Enquanto a situação não estiver normalizada a Samarco é obrigada a manter a entrega de água mineral e água potável por caminhões-pipa como determina o Termo de Compromisso Socioambiental (TCSA) preliminar assinado pelo Ministério Público do Espírito Santo, o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Trabalho e a mineradora.

O governo local informou que o resultado da análise da água do rio Doce, depois de passar por tratamento, encontra-se dentro dos padrões estabelecidos pelo Ministério da Saúde e que a captação já foi retomada. Para clarificar a água, está sendo usado um floculante natural, que força a precipitação da lama dissolvida.

O Velório do Rio Doce em sua foz

Por Egle Bartoli, especial para os Jornalistas Livres e Greenpeace Brasil

O menino com seu olhar doce se despedia do rio que, também Doce, aguardava a lama que escureceu suas águas e decretou sua morte. Assim como Lucas, que tocou a água com suas mãos e pés, talvez pela última vez, a população de Linhares velou e se despediu do Rio Doce no dia 18 de novembro, um dia antes de a lama tóxica da mineradora Samarco invadir as águas da região, santuário de reprodução de tartarugas e outros tantos seres vivos.

Neste mesmo dia, no cais de Linhares, uma antiga placa já parecia antecipar a tragédia: “Sou vida, gero vida. Deixe-me viver.” Assina: Rio Doce. Em torno da placa, curiosos, pescadores, jornalistas, biólogos, mulheres, crianças, todos observavam os pequenos barcos de pescadores que chegavam com caixas de isopor repletas de exemplares de peixes típicos da região, como o charuto, a moreia preta e o pitu, entre outras.

Chamada de operação “Arca de Noé”, a iniciativa do Ministério Público Federal do Espírito Santo e do Ministério Público Estadual em parceria com associações de pescadores e com entidades ambientais demonstrava o carinho pelo rio que atravessa e faz parte da história da cidade. Como no antecedente bíblico, tratava-se de salvar espécimes nativas de um dilúvio (agora, um dilúvio de lama), a fim de que elas repovoem o mundo quando a bonança voltar. O que se quer é evitar a possível extinção de tantas espécies endêmicas no rio.

Depois de serem pescadas no rio Doce, as amostras foram recolhidas pelos representantes do IFES (Instituto Federal do Espírito Santo), que trouxeram em seu carro os equipamentos necessários e um tanque com água preparada para receber os peixes. Os espécimes foram então despejados sob os olhares atentos das pessoas que cercavam o carro oficial.

Em seguida, as amostras dos animais foram encaminhadas à sede do órgão que as classificou e separou, na esperança de que um dia o Rio Doce renasça e estes peixes possam voltar a viver em suas águas. Esta mesma medida foi realizada em toda a região.

É incrível o silêncio que se alastra pelas cidades, agora que o rio está prestes a atingir o mar. Se a tragédia do rio Doce começou com um imenso estrondo, o estrondo da ruptura das barragens, agora o que incomoda é o silêncio opressivo. Em silêncio, como em um velório, a vila de Regência, no município de Linhares, onde as águas do rio Doce se encontram com o mar, é só tristeza. Todos os cantos deste pedaço idílico da terra lamentam a perda do rio.

Foto de Leonardo Sá
Foto de Eviton Araújo

O local, que vive da pesca e do turismo, esperava a lama como quem espera pelo desenlace final. Como nos relatou Wesley do Nascimento, pescador local: “É como se estivéssemos na UTI, só esperando a morte chegar”.

Os pescadores da vila estavam desolados e desesperados diante da situação, sem apoio de nenhuma autoridade para criar um plano que pudesse garantir sua sobrevivência, já que desde o dia 9 de novembro foram proibidos de pescar, tanto no rio como no mar, sob a ameaça de serem presos caso descumprissem a medida. “Não sei se vou estar vivo para voltar a pescar neste lugar um dia”, disse Wesley.

“Desde o dia 9 deste mês estamos proibidos de sair tanto para o rio quanto para o mar. Então, tudo vai dificultando, porque as contas chegam, conta de água de energia e não tem como a gente pagar porque não temos mais de onde tirar o sustento. Fomos proibidos mesmo, o que foi passado pra nós pescadores foi que se nós saíssemos a gente ia ser preso tanto no mar pela Marinha tanto no rio pelo IBAMA. Estamos sendo tratados como bandidos. Estamos vivendo de cesta básica, doações, mas chega só o básico, arroz, feijão uma lata de óleo e mais nada.”

Diante da situação, muitos pescadores se viram obrigados a trabalhar temporariamente para seus algozes, contratados que foram pela própria Samarco para colocarem boias de contenção na água. Segundo a mineradora, a providência impediria o avanço da lama.

Ainda que descrentes, por uma questão de sobrevivência os pescadores aceitaram colocar em prática o plano da mineradora para tentar minimizar o impacto ambiental na vila. Um deles deixou clara a falta de confiança nas medidas da Samarco: “Eles querem colocar esta boia — que é pra conter petróleo derramado — para conter lama, e é óbvio que não vai resolver nada. A gente é pescador e eles acham que a gente é ignorante, mas na verdade a gente não é. Essa medida não tem lógica, se uma coisa é pra conter petróleo — que fica por cima, na superfície — eu acho que não resolve nada para segurar a lama que está em toda a água”.

Ele tinha razão.

A prática da pesca e a sobrevivência por intermédio deste tipo de trabalho estão ameaçadas. Ninguém tem ideia de quando será possível pescar e consumir o peixe do Rio Doce ou do mar que recebeu a lama tóxica.

Um colega faz um apelo e pede atitude das autoridades: “Tomem uma providência, apareçam pra ver a real situação da coisa, porque eles já colocam milhões no bolso enquanto isso os mais prejudicados somos nós que somos os mais fracos, a classe fraca, o pescador, o ribeirinho, não só na área de pesca, mas tem muitos outros que tiram o sustento do rio de outras formas, que eles tomem uma atitude, porque nós vamos viver de quê? E nossos filhos?”

Neste mesmo dia, enquanto estávamos entrevistando os homens da pesca, a lama chegou em Linhares. Era o começo da tarde do dia 19 de novembro. Sobre a ponte, dava para ver o rio, agora massiçamente marrom.

No cais, um aglomerado de gente acotovelava-se para ver de perto a tragédia. Agora, ninguém estava nos barcos, nenhum voluntário salvava peixes, só havia uma mulher lavando roupa nas águas sujas como quem não quer aceitar que a rotina será outra a partir de agora.

E agora, o que esperar? A morte dos peixes, a contaminação das águas da região, da vegetação, a fuga dos animais que se alimentavam das águas do Rio Doce? No céu, bandos de milhares de gaivotas atiçavam-se em sobrevôo frenético, sem saber que não haverá amanhã.

No domingo, dia 22, a mais de 700 quilômetros de distância de onde tudo aconteceu, o rio Doce, vermelho de lama e ferro, sem vida, lançou sua imundície no mar verde. A diferença de densidade e temperatura entre os dois fluidos fez com que eles se não se misturassem por um bom tempo. E formou-se um desenho sinistro, que lembrava uma imensa bandeira com a logomarca da Companhia Vale, sócia com a BHP Billiton do maior acidente ambiental da história do Brasil.

Foto Leonardo Sá

Por último, Vale lembrar os versos de João Cabral de Melo Neto em “Morte e Vida Severina”.

E foi morrida esta morte,
irmãos de almas,
essa foi morte morrida
ou foi morte matada?

Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta morte foi matada,
numa emboscada”.

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