Discurso de Dilma Rousseff, em festa na Espanha, é ovacionado por milhares de pessoas presentes

Dilma em Madrid: “Lula é a luta antineoliberal e a luta contra o fascismo - é a síntese dessa dupla luta”.

Por Bruno Falci, de Madrid , especial para os Jornalistas Livres

A Festa do Partido Comunista de Espanha (PCE) aconteceu nos dias 27, 28 e 29 de setembro, em Madrid, envolvendo diversos debates e atrações culturais, seguindo o formato dos grandes festivais de partidos comunistas da Europa. Milhares de pessoas estavam presente na festa quando a ex-presidenta Dilma Rousseff fez um discurso ao lado do Secretário Geral do PCE, Enrique Santiago em um Palco montado no centro do festival.

Diversas barracas com artesanatos, comidas e bebidas de diversos países do mundo estavam espalhadas pela festa, cada uma representando um partido de esquerda de sua nação, o Brasil esteve representado pelo Núcleo do Partido dos Trabalhadores (PT) de Madrid, presente nos 3 dias de festa recolhendo assinaturas do abaixo assinado pela liberdade do Lula.

Dilma Rousseff em visita ao stand do PT na festa do PCE. Foto: Bruno Falci / Jornalistas Livres

Muitas lideranças políticas estiveram presentes como o Deputado do Congresso Espanhol pelo Podemos, Rafael Mayoral, que mandou sua saudação para o Jornalistas Livres e exigiu a liberdade do ex-presidente Lula.

Dilma foi saudade por milhares de jovens comunistas em um desfile em comemoração de sua presença, veja abaixo:

Dilma, em sua Fala, comentou o golpe de Estado de 2016, a perseguição ao ex-presidente Lula, a chegada do fascismo ao poder e a política neoliberal que está em vigor. Depois de França e Bélgica, Dilma prosseguiu com sua agenda na Espanha, discutindo o contexto brasileiro de aprofundamento do processo antidemocrático, veja a fala completa da Dilma :

Inicialmente, Dilma ressalta que os conflitos que estão sendo vividos na América Latina e no Brasil são  caracterizados pelo que alguns chamam de guerras híbridas e que outros chamam de manipulação dos princípios jurídicos, para fazer guerra, ou seja, lawfare:

           “Nesses momentos, a primeira vítima é a verdade, e a verdade tem que ser reafirmada sempre porque é um instrumento de transformação. No caso do Brasil, nós estamos vivendo um momento muito grave. Temos um governo neofascista, porque nem fascista é, uma vez que o fascismo sempre se caracterizou por alguns aspectos nacionais e o governo de Bolsonaro está submetido de forma humilhante aos Estados Unidos. Nunca um governo do Brasil teve esta postura em algum momento de nossa história”

Dilma observa que a característica do fascismo de Bolsonaro é ter uma agenda ultra moralista, discriminatória  contra as mulheres, contra as populações negras e contra os  indígenas:

“O fascismo se caracteriza também pela defesa de uma visão de nossa história que pretende mudar a compreensão do passado, enfatizando que não houve ditadura militar no Brasil, como sabemos que houve. Além disso, defendem a tortura e o assassinato político. Defendem uma violência  cruel para os mais pobres do país, contra os negros, pune com a morte a vereadora Marielle Franco porque sabemos perfeitamente que foram os grupos paramilitares, que são próximos, que a mataram. Eles defendem o uso dos policias como arma de matar cidadãos e deixam impunes também aqueles que matam crianças de oito anos”.

“Esse fascismo – prossegue Dilma – foi a única forma que no Brasil pode implantar a agenda neoliberal porque com nossas quatro eleições – duas do Lula e duas minhas – nós barramos a perda de direitos dos trabalhadores. Não permitimos reformas trabalhistas e laborais que tornassem o trabalho desprotegido, precário, intermitente. Não permitimos reformas da Previdência que acabassem com acesso dos mais pobres às aposentadorias, porque se o trabalho for intermitente nenhum trabalhador brasileiro continuará sem trabalhar continuamente até conseguir uma aposentadoria. Nós não deixamos que se destruíssem os sindicatos e, sobretudo, fizemos os programas sociais que, pela primeira vez, tiraram o Brasil do mapa da fome da ONU. Superamos a miséria extrema que é diferente da pobreza. A miséria extrema são as pessoas que vivem com recursos quase impossíveis de superar a subsistência”.
Dilma esclarece:

“Isso significou 36 milhões que saíram da miséria extrema, significou 42 milhões que chegaram às classes médias. Fizemos programas de habitações, fizemos programas de saúde, e, sobretudo, demos total importância às nossas empresas públicas. Tínhamos um Banco de Desenvolvimento maior que o Banco Mundial e uma empresa de petróleo que era a sétima maior do mundo. É isso que todos neoliberais queriam se apropriar como forma supostamente de fazer uma melhoria no país. Como não conseguiram por eleições, na última eleiç&atilde ;o, mudaram sua estratégia. Passaram a construir as condições para que assumissem o poder. Para isso, precisaram fazer várias coisas, uma delas era nos destruir politicamente, destruir o Partido dos Trabalhadores, destruir a mim e, sobretudo, destruir Luís Inácio Lula da Silva”

Acrescentando que a chegada do neoliberalismo ao poder passa por diversas etapas, Dilma Rousseff menciona o impeachment sem crime de responsabilidade, fraudulento e a operação Lava Jato, que persegue implacavelmente Lula:

“Como isso não impactava seu apoio popular foi ao julgamento, à  condenação, depois à prisão e, por último, à interdição, sendo que ele era o que tinha mais apoio da população brasileira em todas as pesquisas. Foi impedido de candidatar-se. Até aquele momento, muitos diziam que Lula estava preso por corrupção, até aquele momento utilizaram de todas as armas para desmoralizá-lo sem conseguir”.

Segundo a ex-presidente, um acontecimento inesperado que vai abalar a  narrativa dominante é o papel desempenhado pelo jornalista Glenn Greenwald no site The Intercept  Brasil, que revela diálogos entre aqueles que julgaram Lula, principalmente o juiz Moro, e  os procuradores, que visavam uma operação específica cujo objetivo era destruir o Partido dos Trabalhadores:

“Essas revelações mostram um juiz parcial, político, uma investigação que tem interesses obscuros e escusos e que foram responsáveis por condenar Lula sem provas. Essa é uma das  consequências da campanha contra Lula, a outra é que o sistema de justiça brasileiro, por causa disso, foi corroído porque se a justiça fundamentalmente em nossa sociedade queira manter um caráter imparcial, tem que respeitar o devido processo legal, a presunção de inocência, sobretudo essa senhora que é a justiça tem os seus olhos vendados e uma balança na mão porque não pode ser política e parcial e com Lula,  se sabe hoje, com  ricos  detalhes que foram  parciais, como foram políticos ao condenarem sem a menor prova, sabendo que ele era inocente. O que acontece contra Lula é um complô, é uma perseguição política porque eles sabiam perfeitamente que jamais permitiríamos que derrubassem  a democracia e se implantassem determinadas agendas neoliberais”. Para Dilma, o que está em questão hoje é a soberania nacional, primeiro pela Amazônia:

“A soberania brasileira está em questão quando Bolsonaro quer abrir a Amazônia a qualquer custo, destrói a fiscalização, a acaba com o controle por satélites dos desmatamentos, manipula dados que se referem às queimadas e os incêndios involuntários que estimulam todos os métodos  ilegais de devastação da Amazônia. Ele faz isso porque querem explorar as grandes reservas minerais que estão no solo amazônico, porque querem explorar as madeiras, querem usá-las para produzir carvão vegetal.  E isso é muito grave porque a Amazônia é o coração do Brasil. É bom que todos saibam que em todos os anos do governo de Lula e do meu reduzimos o desmatamento de forma sustentável e sistemática.  A ONU reconheceu isso em 2014 porque levávamos o melhor programa de combate ao desmatamento e proteção da Amazônia”. Dilma enfatiza a política predatória de Bolsonaro, inteiramente voltada para a destruição do patrimônio público brasileiro:

“Nós temos uma quantidade de território que é onze vezes o Reino Unido e sete vezes a Espanha. Só se faz isso através de monitoramento de satélites e Bolsonaro demite o cientista, físico e engenheiro, que dirigia o Instituto e que denunciava as queimadas como forma de dar acesso às explorações minerais. Por isso, é muito grave o que faz Bolsonaro porque tem coisas que poderão ser revertidas, outras que não poderão, e Amazônia é uma delas. A outra é a venda das estatais e a privatização das escolas superiores, das universidades e dos institutos, porque no Brasil, sem educação, não se pode tirar as pessoas da pobreza e, ao mesmo tempo, não se consegue acessar as riquezas do solo e a economia do conhecimento. Lula representava tudo isso – a luta antineoliberal e a luta contra o fascismo. Lula representa a junção, a síntese dessa dupla luta.  Lula está preso e todos sabem que ele é um prisioneiro político e um inocente”.

Em suas conclusões, Dilma assegura que “no Brasil estamos resistindo e iremos resistir  e que só a resistência de todas as pessoas do mundo do trabalho, da cultura, da produção, o mundo que defende o direito das mulheres, que luta pelo meio-ambiente, será o que poderá  transformar novamente o Brasil em uma grande democracia e em um país desenvolvido”.

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