Direita contra Lula tem contradições internas

Por Taciana Dutra e Florence Poznanski, para Jornalistas Livres

 

Nesta segunda 10 de julho, acontecia em Belo Horizonte o lançamento nacional da segunda fase do Memorial da Democracia, com presença do ex-presidente Lula, público de cerca 1900 pessoas acompanhando o evento no Grande Teatro do Palácio das Artes, enquanto aproximadamente cinquenta pessoas organizadas protestavam em frente ao local. Os manifestantes defendiam as palavras de ordem “Lula ladrão”, “Lula vagabundo”, “viva Lava Jato” e “eu vim de graça” e a candidatura de Bolsonaro em 2018, além de homenagear o nome do coronel Ustra, ex-chefe do DOI-CODI e acusado pela morte de dezenas de pessoas durante a ditadura. Lideranças de duas entidades envolvidas no ato foram entrevistadas sobre suas reivindicações e percepções sobre a conjuntura. Os depoimentos mostram heterogeneidade e contradições entre os diversos argumentos.

Coordenador do movimento Direita Minas, que tem mais de 100 000 seguidores no Facebook, Bruno Engler, estudante de direito, identifica-se como direita conservadora,que preza pelos valores da família tradicional, judaicos e cristãos e pede para penas mais severas para bandidos e porte de arma ao cidadão. Ele argumenta que o movimento da direita representa melhor a democracia que o Lula, afirmando que esse “apoia a ditadura venezuelana, cubana e apoiou a ditadura da união soviética” e defende ainda que “o regime militar brasileiro não foi uma ditadura”.

 

O movimento se posiciona a favor da queda do atual Presidente Michel Temer e avalia que há provas de que ele seja também corrupto : “todo corrupto tem que cair”, diz ele. No entanto, não parece preocupado à possibilidade de outro politico acusado de corrupção, Rodrigo Maia, assumir a Presidência em caso de queda de Temer. O movimento é contra a convocação de eleições diretas e a favor do respeito à Constituição pela vias de eleições indiretas. A principal razão da rejeição das diretas seria a convicção de que eleições diretas representam “um golpe no voto impresso” que só sera obrigatório a partir de 2018. Segundo Bruno Engler a esquerda quer eleições diretas para não ter voto impresso. Desta forma “quem ira decidir o novo Presidente seria o TSE, não vai ser nós”, acrescenta.

Apesar de ser contra a reforma da Previdência, que Bruno Engler avalia como necessária, porém inadequada no formato proposto, ele apoia a reforma trabalhista para desburocratizar a CLT, reduzir os encargos trabalhistas e assim favorecer a retomada da economia, mas reconhece não saber todos os pontos da reforma. “Eles [a esquerda] dizem que nos somos facistas, mas a CLT é uma copia da “carta del lavoro” do Mussolini que era um ditador facista italiano”. As origens da CLT são controversadas e podem não se inspirar no texto italiano, mas há grandes semelhanças entre o modelo da CLT brasileiro dessa carta, no que ambas fortalecem o papel do Estado na tutela dos direitos trabalhistas. (confira em: http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/83/mais-para-a-esquerda)

No mesmo ato, estava Hilda Araujo, diretora administrativa da associação Mulheres da Inconfidência, organização de cunho politico que defende a ideia de uma “faxina geral” para o pais, mediante o resgate dos valores morais e éticos, e o fomento ao civismo. Hilda se considera liberal, a favor de um Estado minimo e da meritocracia. Ela também participa de iniciativas de cunho caritativo para causas sociais

Diferentemente de Bruno, Hilda não vê a atual polarização politica com bons olhos, alegando que “vivemos no mesmo país e queremos todos a mesma coisa”. Para ela a possibilidade de cada cidadão brasileiro conseguir um trabalho digno é a maior prioridade. Mas ela não vê no Estado a legitimidade para cumprir esse papel. Ao mesmo tempo que define a Petrobras como “nosso orgulho”, ela defende a venda de todo patrimônio estatal e limitação da atuação pública às obrigações mínimas do Estado: saúde, educação e segurança. Mas seu raciocínio vai mas a fundo. Questionada sobre de onde viriam os recursos para prover essas politicas publicas, mesmo em um estado mínimo, ela menciona a demanda de maior descentralização dos recursos públicos entre a união e as demais entidades federativas com a possibilidade delas captar e gerirem maior volume de receitas. Um tema de gestão tributária pautado também por alguns setores progressistas que lamentam que o pacto federativo de 1988 descentralizou as competências mas não as receitas.

 

Hilda e as demais mulheres da associação protestaram a favor da prisão do Lula, mas ela ressalta que mesmo assim “temos que ser respeitosos ao tratar quem a gente nomeia”. Não se firma em orientação política-partidária, e seu posicionamento sobre o atual congresso, é sem pestanejar: “junta tudo e joga fora!”, mas ao mesmo tempo não defende troca de mandatos: “se chegamos onde estamos, vamos segurar até o fim do mandato”. À denúncia contra Lula, se junta também uma denúncia ao Temer (“ele não tem nenhuma vergonha na cara, nao deveria nem ter sido candidato a vice presidente e deveria hoje renunciar”) e ao Aécio Neves, que foi seu candidato em 2014, para quem ela escreveu pessoalmente uma carta manifestando sua revolta contra o comportamento que ela considera inaceitável : “foi uma facada para o povo mineiro”.

 

Embora tenha demonstrado maior abertura ao diálogo do que Bruno, no que diz respeito a projeto de futuro para o país, Hilda demonstra desconhecimento de taxas de mortalidade da população jovem e negra cometida pela polícia, associando essa população à propensão à criminalidade de maneira genérica, defendendo a ação policial como defesa prévia. Ela afirma: “prefiro ver dez suspeitos mortos a perder a vida de um policial”, desprezando o princípio de presunção de inocência. Acredita na eficiência do regime militar e afirma que “os militares de hoje estão melhores e não vão cometer os mesmos erros do passado”.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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