Diário do Bolso, dessa vez até que começou bem. Mas depois…

Por José Roberto Torero* com Ilustração de Rafael Terpins

Pô, Diário, eu preciso parar com esses remédios. Os sonhos estão cada vez mais doidos. Será que estão me dando LSD em vez de Rivotril?

 

Dessa vez até que começou bem. Mas depois…

 

Era uma vista bonita, com grama verdinha e belas árvores. Então, de repente, apareceu uma pastora segurando um cajado e, atrás dela, ovelhas e carneirinhos. Só que as ovelhas estavam todas pintadas de rosa, e os carneiros, de azul.

 

Até aí, tudo bem. Os carneiros e as ovelhas ficavam pulando sobre uma cerquinha e isso até deixava o meu sono mais gostoso.

 

Então apareceram uns cordeirinhos vestindo a camisa da seleção da Holanda. E depois eu reparei que a pastora segurava embaixo do braço uma ovelhinha enfeitada com umas penas.

 

Mas o mais estranho é que tinha um cara barbado numa goiabeira. Depois de morder uma das frutas, ele falou para a pastora:

 – Tudo em cima, minha mestra?

 

– Tudo, meu Senhor!

– Epa! Essa ovelha não é de outro rebanho?

– Só existe o rebanho de Deus. E eu vou levá-lo para o paraíso.

– Então descansa. O paraíso é aqui.

– Aqui?

– Claro. Não está vendo a árvore do conhecimento? – disse ele apontando para a goiabeira.

– Puxa! Eu pensei que fosse uma macieira.

– Prefiro goiaba. Mas da vermelha.

Todos os animais começaram a comer as goiabas que estavam no chão. E aí, Diário, aconteceu uma coisa doida: os bichos começaram a transar feito… animais. Era azul com azul, rosa com rosa, rosa com azul, azul com cordeiro com a camisa da seleção da Holanda e ficou a maior suruba.

 

A pastora corria de um lado para o outro sem saber o que fazer.

 

– Relaxa. Prova uma goiabinha – dizia o barbudo.

 

Para piorar, apareceu um monte de índios perguntando: “Cadê a nossa ovelha, cadê a nossa ovelha?”

 

A pastora escondeu a ovelhinha índia debaixo da roupa e começou a bater em todo mundo com seu cajado, gritando “Pecadores, pecadores!”

 

Puxa, foi um sonho terrível! Eu estava até suando. A sorte foi que nessa hora tocou o meu celular secreto e eu acordei.

 

– Presidente, sou eu, o Rodrigo Maia. Ganhamos a presidência da Câmara!

– Grande notícia! Você é tricampeão, hein? Tamo junto!

– Sabe que, no meu discurso de vitória, eu disse que o Brasil vive um momento de renovação?

– Com você sendo rerreeleito? E pelo DEM? Você é muito cara de pau, Rodrigo!

– As pessoas acreditam em tudo, presidente. São umas ovelhas.

– Uma ovelhas, Rodrigo, umas ovelhas!

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*José Roberto Torero é autor de livros, como “O Chalaça”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Além disso, escreveu roteiros para cinema e tevê, como em Retrato Falado para Rede Globo do Brasil. Também foi colunista de Esportes da Folha de S. Paulo entre 1998 e 2012.

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