Debate “As mulheres nas instituições de segurança e o seu atendimento”, veja como foi

na sede do PSOL em São Paulo, um debate organizado pelo “Santa Cecília Sem Medo” com participação do Movimento Policiais Antifascismo, que contou com a presença de integrantes da Policia Civil e ex-integrantes da Policia Militar

Por Bárbara Louzada

Na última terça feira, 5 de fevereiro, aconteceu, na sede do PSOL em São Paulo, um debate organizado pelo “Santa Cecília Sem Medo” com participação do Movimento Policiais Antifascismo, que contou com a presença de integrantes da Policia Civil e ex-integrantes da Policia Militar, sobre o tema “As mulheres nas instituições de segurança e o seu atendimento”. Como integrantes da mesa estavam Gisele, advogada e ex-policial militar, e Lola, policial civil. A roda se deu com grande participação do público, que contava com militantes, simpatizantes e outros policiais. Nas falas, uma policial civil preferiu não dizer o nome.

A conversa se desenrolou em várias frentes, fazendo também uma análise da conjuntura atual, com temas levantados com inquietações dos ouvintes.

Confira abaixo algumas falas dos principais temas debatidos:

ENTRADA DE MULHERES NAS FORÇAS POLICIAS

Gisele: “Por que que a mulher, a ideia do gênero feminino, é mal vista? Porque eles ainda vinculam a atividade policial, a uma coisa necessariamente violenta, agressiva e letal. E aí você tem dois erros: achar que a polícia tem que ter necessariamente esse viés e segundo achar que a mulher não é capaz de precisar ser firme, agressiva ou qualquer coisa. E você ainda coloca o homem dentro do problema do machismo, que é você falar que por ser homem você é obrigado a ser violento, truculento e não pode chorar também.”

MACHISMO NA POLÍCIA

Integrante da polícia civil: “Mulher não é chamada pra operação. Você só é considerada uma “puta polícia” se você matou alguém. Piadas constantes. Tem a história dos fetiches, dentro e fora.”

Gisele: “Na PM, as mulheres precisam marchar de saia, tem padrão pra cor de esmalte, cor de batom, cor de cabelo… Existe uma norma de padrão a ser seguido.”

Lola: “Tem piada, assédio, “brincadeirinha”. é difícil. A polícia civil é centenária, e em 113 anos nós estamos na segunda delegada geral adjunta. Ou seja, depois de mais de 100 anos, nós só tivemos duas mulheres no segundo cargo mais alto.”

ASSÉDIO DENTRO DA POLÍCIA

Lola: “Teoricamente é pôr no papel. Na prática,22 é só em situações muito graves. Porquê da mesma maneira que em qualquer lugar da sociedade, se eu disser que alguém pôs a mão no meu ombro de maneira inadequada, me segurou pela cintura, ou alguma coisa assim, vão dizer que foi só uma brincadeira e que eu sou exagerada. Não é diferente lá dentro.”

Gisele: “Tem muito caso de mulher que já foi assedia por Coronel, por exemplo. É muito difícil. Só se ela tem uma relação muito boa com a chefia dela, ela consegue ser ‘protegida’ de alguma maneira. As vezes eles até recomendam não ir pro papel e desloca pra um outro lugar, pra tentar proteger… Porque até mesmo os homens, que se sentem mal, se revoltam com essa situação, sabem que é bem difícil ir pra frente. Só casos muito graves.”

ATENDIMENTO OCORRÊNCIA DE MULHERES

Gisele: “Chamamos na polícia de ‘ocorrência de desinteligência”, pode ser qualquer briga, brigada de vizinho, mas 80% são problemas de marido e mulher, e é o tipo de ocorrência que dificilmente policial quer pegar. Principalmente aquele policial matador, que quer pegar tráfico. Ele não quer pegar ‘problema de família’. Eles tem um estereótipo de que chegando na ocorrência, ou é tiroteio e eles não estão preparados, porque acontece de chamar ocorrência de desinteligência e chegar lá e ser tiroteio entre vizinhos, ou chega lá e eles reportam que levam horas no atendimento da ocorrência, leva pra delegacia, porem depois de duas semanas, a mulher voltou pro marido. Então, no meu ver, o que falta trabalhar com os policiais, é o porquê que aquela mulher de periferia volta pra casa? Será que ela tem opção de não voltar? Quantos filhos ela tem? Quantos lugares ela tem de possibilidade para ir? Às vezes, com medida cautelar e tudo contra o marido… Será que ela tem muita opção de estar em outro lugar?”

DDM’s (Delegacia de Defesa da Mulher)

Integrante da Policia Civil: “Os policiais não querem ir para as DDMs. Normalmente quem vai, é ‘chutado’ pra lá. Uma delegacia da mulher não é assim: ‘ah eu quero ir pra lá’. Não existe um banco de talentos na polícia. Então gente que de repente poderia estar fazendo um trabalho legal, está escondida num canto. E pra você conseguir ir pra um lugar que você tem facilidade, você tem que fazer politicagem, ficar pedindo permuta… E a nós, toda hora que troca os dirigentes, também troca também os nossos chefes. No meio do ano entrou o Marcio França, então trocaram todos os delegados gerais, ai eles trocaram os delegados diretores, os titulares, trocou todo mundo. Tem muito pouco dialogo pra você escolher onde você quer trabalhar. Você é colocado ali. Sobre o atendimento a vítima, quando chega na delegacia, não tem o menor cuidado e preparo pra lidar com as situações. Se você começa a fazer diferente, talvez você contamine os outros. Ou vire piada, ou um incomodo, que são mais comuns. Estamos com menos policiais, em todos os lugares. Não tem gente pra colocar em DDM’s 24 horas. Vão deslocar pessoas que não querem estar ali, sem preparo e vai ser um péssimo atendimento.”

MANIFESTAÇÕES

Gisele: “Quem faz as manifestações de rua é o CHOQUE. O CHOQUE é doutrinado pra ser assim. Precisa a consciência de que a polícia é usada muito como manobra política, como cão de guarda do Estado, e o policial precisa levantar a bandeira de que ele é trabalhador e sai dos mesmos estratos sociais de grande parte da população. E de que hoje em dia, 80% do trabalho da polícia militar, você não precisa de força bruta.”

Lola: ‘Quando você está em confronto, você percebe o policial que tem pensamento diferente, porque ele vai cumprir a obrigação dele. Ele vai fazer a segurança, ele vai fazer a contenção. E ele não vai passar disso. Ele vai estar ali, vai cumprir a ordem do que ele tem que fazer, mas ele não vai extrapolar o que ele tem que fazer. E aí você percebe qual é o policial que pensa diferente. Na atitude.”

Gisele: “Você tem ali as normas que punem os policiais por não estarem dentro dos parâmetros. Eu sinceramente não sei por que meios isso (falta de identificação dos policias) corre.”

BOLSONARO E A SEGURANÇA PÚBLICA

Lola: “Já me perguntaram se eu acho que o Bolsonaro vai resolver o problema de segurança pública. Eu digo que não, porque se não ele teria resolvido o problema no Rio de Janeiro, onde ele foi deputado por quase 30 anos. Me perguntam se o fato dele ser um militar não tem a ver, eu digo que não porque exército é uma coisa e segurança pública é outra. Então assim, não tem argumentos ao presidente que digam que ele vá melhorar a segurança, há não ser que ele componha alguma coisa no plano de governo dele. Que não teve até hoje. “

As falas das palestrantes não representam um posicionamento oficial das organizações.

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