COTAS SIM! Traços da luta antirracista dentro da Universidade Estadual de Campinas.

Em parceria com o Coletivo Mídia Livre Vai Jão

Ao longo deste grande momento de mobilização dentro da Universidade Estadual de Campinas, que uniu (e ainda une) um número significativo de estudantes, professores e funcionários na luta por uma universidade pública mais democrática, igualitária e de qualidade, a pauta da igualdade racial e da implementação de políticas afirmativas de acesso à universidade pública obteve avanços marcantes.

Além de importantes atividades realizadas dentro da programação de greve de cada segmento, por exemplo, o debate “Cotas Sim! Construindo uma sociedade igualitária através do pleno acesso à educação”, realizado pelo coletivo de [email protected] Independentes de Campinas e que compôs da programação da greve dos docentes, a luta por políticas de inclusão obteve vitórias concretas que fortaleceram o movimento. No dia 29 de junho, A Faculdade de Educação aprovou em sua congregação a implementação de cotas étnico-raciais e para pessoas com deficiência em seu programa de Pós-Graduação. Além da Faculdade de Educação, seis programas de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Sociologia, História, Ciências, Antropologia, Ciências Políticas e Demografia) também aderiram às cotas.

No que tange à graduação, a Unicamp não possui políticas de inclusão por meio de cotas. Ela faz uso de dois modelos de ação afirmativa para acesso ao ensino superior: O PROFIS (Programa de Formação Interdisciplinar Superior), que seleciona um a dois candidatos de cada uma das escolas públicas do município de Campinas os quais tenham obtido melhor desempenho no ENEM e o PAAIS (Programa de Ação Afirmativa de Inclusão Social) que bonifica candidatos que estudaram o ensino médio integralmente em escolas públicas e para autodeclarados PPI (pretos, pardos ou indígenas), consistindo na principal política de inclusão alternativa às cotas.

Segundo um manifesto publicado pela Frente Pró-Cotas da Unicamp: “O PAAIS, em seus 12 anos de existência, falhou categoricamente em atingir seu objetivo de promoção da inclusão social e étnico-racial da universidade. De 2005 a 2016, o programa não promoveu a inclusão étnico-racial de alunos oriundos da rede publica de educação – ao longo desse período, 67% dos matriculados estudaram em algum momento em escolas particulares e 52% fizeram cursinhos comerciais – e, com relação à entrada das populações PPI, estas foram apenas 15% do total de ingressantes entre 2005 a 2016. Além disso, por não fazer em nenhum momento recorte de renda, o Programa permite que estudantes que não pertencem ao perfil visado sejam beneficiados – em 2015, 75 dos matriculados beneficiados pelo PAAIS possuíam renda familiar entre dez a 15 salários mínimos; 16 dos matriculados tinham renda entre 15 a 20 salários mínimos; e 17 renda superior a 20 salários mínimos. Em 11 anos de PAAIS, apenas sete alunos pretos ingressaram no curso de Medicina e apenas dois no curso de Arquitetura e Urbanismo. Os resultados de 12 anos de PAAIS só reafirmam o que qualquer um, ao passar o dia na universidade, prontamente percebe: a Unicamp continua sendo um projeto de universidade privada, elitista e branca.

Casos de racismo dentro do campus

No dia 22 de Junho, o Núcleo de Consciência Negra da Unicamp, com apoio do Conselho Municipal de Direitos Humanos e Cidadania e outros coletivos, realizou uma Marcha Antirracista pelo campus com o objetivo de denunciar os recentes casos de racismo que ocorreram dentro da universidade, com ênfase nas atitudes racistas cometidas pelos docentes José Maria Ferreira Jardim da Silveira (Instituto de Economia) e Márcia Aparecida Gomes Ruggiero (Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica).

Segundo o Manifesto Antirracista redigido pelo Núcleo de Consciência Negra da Unicamp, Silveira”hostilizou os alunos presentes em assembleia no Instituto de Economia em que discutiam, entre outros pontos, a adoção de cotas étnico-raciais na pós-graduação. Não satisfeito com as ofensas verbais, que incluiu chamar os estudantes de primatas, o docente em questão prosseguiu com ofensas por meio de sua conta no Facebook. Já a docente Márcia Ruggiero se referiu a um ato conjunto organizado pelos setores em greve na Unicamp da seguinte forma: ‘Sobre o ato unificado dos grevistas da Unicamp: digamos que o que pretendia ser uma representação da Via Crucis terminou por se assemelhar a um bando de pomba gira num terreiro de macumba'”.

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Antes destes casos, nos dias 08 de março e 05 de abril, pichações extremamente racistas, com dizeres como “Aqui não é senzala! Tirem os pretos da Unicamp já!”, foram vistas nas dependências do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

Otávio Catelano
Foto de Otávio Catelano

Enfim, a luta é árdua, mas vale a máxima: RACISTAS! FASCISTAS! NÃO PASSARÃO!

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