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Bérgamo, a cidade na Itália devastada pelo coronavírus por uma decisão dos patrões

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Caixão de vítima do coronavírus é retirado pelo exército italiano. A região da Lombardia é o epicentro da pandemia, com mais de 60 mil casos - Piero Cruciatti/AFP
Existem imagens que marcam uma época, que ficam gravadas no imaginário coletivo de um país. A imagem que a Itália não poderá esquecer por muitos anos é aquela que os vizinhos de Bérgamo fotografaram de suas janelas na noite do 18 de março. Setenta caminhões militares atravessaram a cidade em meio a um silêncio fúnebre, um atrás do outro, numa lenta marcha em sinal de respeito: transportavam cadáveres.
Por Alba Sidera, da Revista Contexto

Eram levados para outras cidades, fora da Lombardia, porque o cemitério, o necrotério, a igreja transformada em necrotério emergencial e o crematório funcionando 24 horas por dia não davam conta. A imagem eternizava a magnitude da tragédia em curso na região italiana mais afetada pelo coronavírus. No dia seguinte, o país amanheceu com a notícia de ser o primeiro da lista mundial por mortes oficiais por covid-19. A maior parte, na Lombardia. Porém, o que torna a situação tão dramática especificamente em Bérgamo? O que aconteceu nessa região para que em março de 2020 o número de mortos tenha sido 400% acima do que no mesmo mês do ano anterior?

No dia 23 de fevereiro existiam apenas dois casos positivos de coronavírus na província de Bérgamo. Em uma semana, o número subiu para 220 — quase todos no vale do rio Serio. Em Codogno, outra cidade lombarda, onde o primeiro caso de coronavírus foi detectado no dia 21 de fevereiro, bastaram 50 casos positivos para fechar a cidade e decretá-la uma área vermelha (de máximo risco). Por que não agiram da mesma forma no vale? É porque lá concentra-se um dos pólos industriais mais importantes da Itália e os empresários industriais pressionaram todas as instituições para evitar o fechamento das fábricas e a perda de dinheiro.

Por incrível que pareça, a região campeã em mortes por coronavírus por habitante da Itália inteira — e da Europa — nunca foi declarada área vermelha, apesar do espanto dos prefeitos que pediam tal medida, e dos cidadãos, que agora exigem que haja pessoas responsabilizadas por isso. Os médicos do Val Seriana são os primeiros a jogar a real: se a região tivesse sido declarada área vermelha — como todos os especialistas aconselhavam — centenas de vidas teriam sido salvas, garantem, impotentes.

A história é bem obscura: aqueles interessados em manter suas fábricas abertas são também, em alguns casos, acionistas ou sócios de hospitais particulares. A Lombardia é a região italiana que melhor representa o modelo de mercantilização da saúde e tem sido vítima de um sistema de corrupção em larga escala, comandado pelo seu ex-governador Roberto Formigoni (que governou de 1995 a 2013) e que é membro destacado do partido Comunhão e Libertação (CeL). Ele pertencia ao mesmo partido de Berlusconi, que o defendia como o “governador vitalício da Lombardia”, mas contou sempre com o apoio da Liga, que governa na região desde que Formigoni saiu, acusado e condenado por corrupção na área da saúde. Seu sucessor, Roberto Maroni, iniciou em 2017 uma reforma da Saúde que trouxe ainda mais cortes nos investimentos públicos e que praticamente aboliu os médicos de família, substituindo-os por “gestores”. É verdade que nos próximos 5 anos cerca de 45 mil clínicos gerais irão desaparecer, mas “quem ainda vai ao seu médico de família?”, disse, inabalável, em agosto do ano passado, o político da Liga Giancarlo Giorgetti, então vice-secretário de Estado do Governo Conte-Salvini.

A epidemia na região de Bérgamo, a chamada Bergamasca, teve início oficialmente na tarde do domingo 23 de fevereiro, embora os médicos de família e clínicos gerais — na linha de frente da denúncia da situação — garantam que desde o final de dezembro já vinham atendendo muitos casos de pneumonias anômalas, inclusive em pessoas de 40 anos. No hospital Pesenti Fenaroli, de Alzano Lombardo, um município com 13.670 habitantes a poucos quilômetros de Bérgamo, o resultado dos testes de coronavírus de dois pacientes internados, chegaram: eram positivos.

Como eles já tinham estado em contato com outros pacientes, médicos e enfermeiros, a direção do hospital decidiu fechar as portas. Mas, sem explicação alguma, reabriram horas depois, sem desinfetar as instalações nem isolar os pacientes com Covid-19. Pior ainda: todos os trabalhadores (médicos, enfermeiros, etc) continuaram trabalhando sem proteção durante uma semana inteira; grande parte deles foi contagiada e acabou disseminando o vírus entre a população. O número de contágios multiplicou-se por todo o vale. O hospital foi, assim, o primeiro grande foco da infecção: pacientes que ingressaram por uma simples dor no quadril, acabaram morrendo por coronavírus.

Os prefeitos dos dois municípios mais afetados do Vale do Serio, Nembro e Alzano Lombardo, esperavam todo dia às 19h que chegasse a ordem de fechar a cidade, que era o que tinham combinado. Tudo estava pronto: os regulamentos escritos, o exército mobilizado, o chefe da polícia tinha organizados os turnos de cada guarda e as tendas já estavam montadas. Mas a ordem nunca chegou, e ninguém soube explicar a eles o porquê. Em vez disso, chegavam muitas e muitas ligações dos empresários e donos de fábricas da região, preocupadíssimos em evitar a qualquer custo o fechamento de suas atividades. Nem disfarçavam.

Sem nenhum remorso, no dia 28 de fevereiro, em plena emergência por causa do coronavírus (que em 5 dias tinha atingido 110 infectados na região, saindo totalmente de controle), a Confindustria, associação de empresários industriais italianos, deu início a uma campanha nas redes com a hashtag #YesWeWork (“Sim, nós trabalhamos”). O presidente da Confindustria da Lombardia, Marco Bonometti, declarou à mídia: “Precisamos abaixar o tom, fazer a opinião pública entender que a situação está sendo normalizada, que as pessoas podem voltar a viver como antes”.

No mesmo dia, a Confindustria Bergamo lançou sua própria campanha direcionada aos investidores estrangeiros para convencê-los de que ali não estava acontecendo nada e que não fechariam nem de brincadeira. O slogan não deixava dúvidas: “Bergamo non si ferma / Bergamo is running” (Bérgamo não pára).

A mensagem do vídeo promocional para os sócios internacionais era um despropósito: “Foram diagnosticados casos de coronavírus na Itália, mas do mesmo jeito que em outros países”, minimizando a situação. Também, mentiam: “o risco de infecção é baixo”. Colocavam a culpa nos meios de comunicação por um suposto alarmismo injustificado e, enquanto mostravam operários trabalhando em suas fábricas, gabavam-se do fato de que todas as fábricas iriam continuar “abertas e a todo vapor, como sempre”.

Apenas cinco dias depois, estourou o enorme surto de contágios e mortes que acabou sendo o mais importante da Itália e da Europa. Mas nem assim retiraram a campanha, e nem pensariam em fechar as fábricas. A Confindustria Bergamo reúne 1.200 empresas, que empregam mais de 80 mil trabalhadores. Todos foram expostos ao vírus, foram obrigados a ter de trabalhar, em grande parte, sem as medidas adequadas — aglomerados, sem distâncias de segurança nem materiais de proteção — colocando em risco suas vidas e a de todas as pessoas ao seu redor.

O prefeito de Bérgamo, Giorgio Gori, do Partido Democrático, também tinha se unido ao clamor contra o fechamento da cidade e, no dia 1º de março, convidava as pessoas a encherem as lojas do centro com o slogan “Bérgamo não para”. Pouco depois, diante da evidência da catástrofe, se arrependeu e reconheceu que tinha tomado medidas muito fracas com a intenção de não afetar a atividade econômica das grandes empresas da região.

No dia 8 de março, os contágios oficiais na região bergamasca passaram, em uma semana, de 220 para 997. Pela tarde, vazou a informação de que o governo pretendia isolar a Lombardia. Depois de horas de caos, no qual muitos abandonaram Milão numa grande debandada, o primeiro ministro Giuseppe Conte surgiu, já de madrugada, numa confusa coletiva de imprensa por meio do Facebook, anunciando o decreto. Não era o que os prefeitos de Vale do Serio esperavam: nada de área vermelha, senão, laranja. Ou seja, ficariam restritas as entradas e saídas dos municípios, mas todo mundo podia continuar indo aos seus respectivos trabalhos.

Após dois dias, o confinamento estendeu-se a toda a Itália. E nada mudou na região bergamasca, na qual os contágios continuavam a crescer, no mesmo ritmo imparável de suas fábricas funcionando a todo vapor. “Quando todos na região, principalmente em Nembro e Alzano Lombardo, tinham certeza que seria decretada área vermelha, algumas importantes empresas pressionaram para atrasá-la o máximo possível”, conta Andrea Agazzi, secretário-geral do sindicato FIOM Bérgamo, no programa Report do canal RAI. E acrescenta: “A Confindustria deu as cartas e o governo escolheu de que lado ia ficar”.

Os contágios e as mortes aumentaram, incessantes, especialmente nas regiões industriais da Lombardia, localizadas entre Bérgamo e Brescia. Exatamente um mês após o primeiro caso oficial de coronavírus na Itália, no sábado 21 de março foi atingido o triste recorde de quase 800 mortos por dia. Os governadores da Lombardia e do Piemonte — outro grande pólo industrial — declararam que a situação era insustentável e que era necessário deter a atividade produtiva. Conte, que até então tinha se mostrado contra as medidas, apareceu na mesma noite, bastante perturbado, para afirmar que agora sim, seriam encerradas “todas as atividades econômicas produtivas não-essenciais”.

A Confindustria reagiu imediatamente e começou uma ofensiva ação para pressionar o governo. “Não podem ser fechadas todas as atividades não essenciais”, escreveram numa carta ao premiê, detalhando suas exigências. Os industriais fizeram com que o decreto demorasse 24 horas em ser aprovado e que Conte aceitasse suas condições. De fato, o governo tinha escolhido o seu lado — e não seria o lado dos trabalhadores.

Os sindicatos, em bloco, opuseram-se em pé de guerra e ameaçaram com uma greve geral se não fosse cumprido o encerramento real das atividades produtivas não-essenciais. A Confindustria tinha conseguido colocar na lista de atividades que poderiam continuar funcionando muitas que não eram de primeira necessidade, como as da indústria de armas e munições. Além disso, incluíram uma espécie de cláusula que permitia que qualquer empresa que se declarasse “funcional” para uma atividade econômica essencial, pudesse permanecer aberta na prática. Isso fez com que em Brescia, a outra província lombarda destruída pelo coronavírus, mais de 600 empresas excluídas da lista das essenciais, iniciassem os procedimentos para poder continuar funcionando.

“Não entendo os motivos pelos quais os sindicatos iriam querer uma greve. O decreto já é bem restrito: o que mais precisaríamos fazer?”, disse o pouco empático presidente da Confindustria, Vincenzo Boccia. E acrescentou: “Já vamos perder 100 bilhões de euros por mês. Não parar a economia é bom para o país inteiro”. Annamaria Furlan, secretária geral do sindicato CISL, tentou explicar a ele: “Sou sindicalista há 40 anos e nunca pedi o fechamento de fábrica, mas é que agora é a vida das pessoas que está em risco “.

Os trabalhadores das fábricas começaram protestos e greves enquanto os sindicatos negociavam com o governo, que, no fim, reconsiderou. Foram eliminadas algumas atividades da lista das mais de oitenta “essenciais”, como a indústria armamentícia ou os call-centers que vendem por telefone ofertas que não foram solicitadas. Também houve uma restrição às indústrias petroquímicas. Também, foi combinado que não bastava a autocertificação de uma empresa para considerá-la funcional para outra essencial, e foi estabelecido o compromisso de proteger o direito à saúde dos trabalhadores que continuassem nas fábricas. Apesar disso, ainda restaram alguns pontos ambíguos no decreto, e existe uma zona cinza que permite que muitas fábricas continuem abertas. Do mesmo modo, muitos operários continuam trabalhando sem distância de segurança e sem o material de proteção adequado.

As fábricas da região bergamasca continuaram praticamente todas abertas até o dia 23 de março, quando os contágios oficiais na região já chegavam na cifra de 6.500. Uma semana depois, no dia 30 de março, apesar do decreto de fechamento de “todas as atividades produtivas não essenciais”, ainda restavam 1.800 fábricas abertas e 8.670 infectados na região.

Apresentemos os nomes às fábricas que não quiseram fechar. Uma das empresas da região é Tenaris, líder mundial na fabricação de tubos e serviços para a exploração e produção de petróleo e gás, com faturamento de 7,3 milhões de dólares e sede legal em Luxemburgo. Emprega 1,7 mil trabalhadores em sua fábrica da região bergamasca e pertence à família Rocca, com Gianfelice Rocca, o oitavo homem mais rico da Itália.

Na província de Bérgamo, como em toda a Lombardía, os planos de saúde privados são muito poderosos. Comprovadamente, a metade dos serviços de saúde passa por mãos privadas. Os dois hospitais particulares mais importantes da região, que faturam, cada um, mais de 15 milhões de euros anuais, pertencem ao grupo San Donato — cujo presidente é nada mais nada menos que o vice-primeiro-ministro italiano, Angelino Alfano, ex-sucessor de Berlusconi — e ao grupo Humanitas. O presidente de Humanitas é Gianfelice Rocca, também proprietário de Tenaris, indústria que também não quis mandar seus trabalhadores para casa. A saúde privada bergamasca não foi ativada para a emergência do coronavírus até o dia 8 de março, quando, por decreto, todos os serviços não urgentes tiveram que ser adiados. Só então começaram a abrir espaço para os pacientes com covid-19.

A Brembo é outra grande empresa com fábricas na região de Bérgamo Pertence a poderosa família Bombassei, também envolvida em política: Alberto, o filho do fundador, foi deputado por Scelta Civica, o partido de Mario Monti. Tem 3 mil trabalhadores em suas fábricas na zona de Bérgamo, que produzem freios para automóveis. Fatura 2, 6 milhões de euros. Não quiseram fechar.

O Vale do Serio foi industrializado em grande parte por empresas suíças há mais de 100 anos. Por isso a presença de fábricas ligadas à Suíça ainda é importante. Outra grande empresa que tem mais de 6 mil trabalhadores na Itália, mais de 850 na região é a ABB, com capital suíço e sueco. Líder em robótica, fatura 2 milhões de euros. No dia 30 de março seguia aberta, em total normalidade.

A Persico, empresa italiana que produz componentes automotivos, com 400 trabalhadores e 159 milhões de faturamento, tem sede em Nembro, o município com mais mortes por covid-19 por habitante na Itália. Pierino Persico, o proprietário, foi um dos que mais se opôs a declarar a cidade zona vermelha.

Em Nembro, em março de 2019, morreram 14 pessoas. No mesmo mês deste ano foram 123 (um aumento de 750%). E ainda assim, os infectados oficiais são apenas 200. Em Alzano Lombardo, em março de 2019, morreram 9 pessoas; em março agora, 101. Na cidade de Bérgamo (de 120 mil habitantes) o número de mortos em março foi de 553, enquanto que, em março de 2019, foram 125. Os dados sobre os infectados não são confiáveis porque não fazem testes e a Proteção Civil italiana — que realiza a recontagem — adverte que os números devem se multiplicar por pelo menos dez.

Segundo um estudo publicado pelo Giornale di Brescia, na província lombarda a cifra de infectados seria 20 vezes maior que a oficial, cerca de 15% da população. E o mesmo com o número de mortes. Segundo esse estudo, seria o dobro das oficiais, ou seja, três mil só na província de Brescia. A falta de testes — em vivos e mortos — torna impossível efetuar uma contagem confiável. O que sabemos é que a Itália é o país com mais mortos por covid-19 no mundo, em torno de 18 mil, e a maioria são da zona norte industrial.

Agora, diante de milhares de cadáveres e uma população que começa a converter sua dor em raiva, todos querem fugir de suas responsabilidades. O governador de Lombardía, o leghista Attilio Fontana, culpa o governo federal e assegura que não foi mais rigoroso porque não deixaram. Na verdade, se ele quisesse poderia ter sido, como foram os governadores de Emiliana Romaña, Lacio e Campania, que decretaram área vermelha em suas regiões.

A verdade é que nenhuma autoridade esteve à altura, exceto os prefeitos de pequenas cidades, que são os únicos que reconheceram — e denunciaram publicamente — as pressões dos industriais, que os assediavam com ligações para tentar de todas as formas evitar ou adiar o fechamento das fábricas. A partir de uma Bérgamo ferida e ainda em choque, os cidadãos começam a se organizar para pedir que os fatos sejam esclarecidos e que alguém assuma, ao menos, a responsabilidade de ter permitido que os interesses econômicos fossem sobrepostos à saúde — ou melhor, à vida — dos trabalhadores de Bergamasca. Muitos deles, inclusive, precários.

*Alba Sidera é jornalista ítalo-catalã, correspondente do jornal catalão El Punt Avui na Itália e colaboradora da Revista Contexto, onde a crônica foi publicada originalmente.

**A tradução para o português é de Simone Paz Hernández e Rôney Rodrigues para o Outras Palavras.

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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Geral

O show de Trump: renovação ou cancelamento?

A eleição nos EUA e o destino da democracia na condição atualista

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Nos EUA voto popular não significa vitória. Biden terá mais votos do que Trump e ainda assim o resultado da eleição continuará indefinido por algum tempo. Apesar dos descalabros que marcaram a gestão Trump antes e durante a pandemia, o seu desempenho na atual corrida eleitoral será muito forte.

Mateus Pereira, Valdei Araujo e Walderez Ramalho, professores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em Mariana, MG

A disputa está sendo muito mais acirrada do que era inicialmente previsto pela maior parte dos institutos de pesquisa e da mídia americana, embora a cautela e o medo nunca deixaram de estar presentes. Sob esse ponto de vista, as eleições deste ano são como uma repetição do que vimos em 2016, ainda que o resultado possa ser a derrota eleitoral para Trump. Em 2016 foram os democratas que denunciaram a interferência russa, agora é o presidente-agitador que se apressa em questionar a legitimidade do pleito, sem mostrar nenhuma prova. Sabemos que no ambiente do atualismo provas têm como base apenas convicções.

Um sistema eleitoral que sobreviveu por séculos, sem grandes mudanças, pode ter se tornado obsoleto desde a eleição de Bush, em 2000. Um lembrete do possível declínio da democracia americana: das últimas oito eleições presidenciais desde 1992, os democratas venceram no voto popular as últimas sete, mas em apenas quatro ocasiões ganharam o colégio eleitoral e fizeram o presidente.

Acreditamos que as eleições nos EUA são um exemplo do confronto entre duas estratégias e duas concepções sobre fazer política: de um lado, Trump e sua promessa de eterna atualização da atualidade em modo nostálgico; e Biden, com sua aposta moderada no cansaço na agitação atualista que seu adversário republicano encarna e radicaliza, e a retomada da política em moldes liberais. Essa retomada é feita sem uma crítica efetiva ao modelo neoliberal abraçado pela cúpula do partido democrata. Uma aposta radical, como Sanders, teria se saído melhor? É difícil dizer, mas tudo leva a crer que não, tendo em vista o complicado xadrez do voto estado a estado.

A escolha entre as duas estratégias/concepções se mostrou muito mais difícil e apertada do que se imaginava. A tal “onda azul” anunciada por parte da imprensa estadunidense esteve longe de acontecer. De fato, Trump se mostrou eleitoralmente muito mais forte do que os analistas supunham. Considerando que esta não é a primeira vez que os institutos de pesquisa falharam em captar esse movimento no eleitorado americano, e considerando também que fenômeno semelhante ocorreu no Brasil em 2018, coloca-se a questão de saber se as tradicionais pesquisas de opinião tornaram-se de alguma forma obsoletas em um mundo atualista. Esse quadro muda pouco, mesmo com uma  eventual vitória de Biden ou pior, com uma inconveniente reeleição de Trump.

São vários fatores que devem ser considerados para avaliar essa questão. Os próprios institutos se apressaram a ensaiar algumas explicações ao público. O diretor da Trafalgar Group, Robert Cahaly, afirmou que muitos eleitores “esconderam”, como já havia acontecido, sua preferência por Trump por algum receio ou constrangimento social.[1] Não podemos desconsiderar algum tipo de boicote/sabotagem dos eleitores republicanos, já que na retórica do trumpismo as pesquisas de opinião fazem parte da mídia vendida. Outros recorreram à justificativa de que as pesquisas anteriores representavam apenas fotografias do momento específico em que as entrevistas foram feitas, e não o que se poderia esperar na eleição propriamente dita. Isso poderia ter sido de fato observado pela tendência de redução da vantagem de Biden nos últimos 15 dias. Afinal, o episódio da contaminação de Trump e sua rápida recuperação pode ter tido um saldo positivo, ao menos na mobilização de sua base, como já havíamos especulado em coluna anterior.

Aceite-se ou não essas justificativas, fato é que os institutos de pesquisa sairão dessas eleições com sua credibilidade e imagem pública mais arranhadas, sobretudo diante das especificidades do sistema eleitoral americano. Como afirmamos, muitos fatores concorrem para esse desgaste. Um deles está relacionado à condição atualista que caracteriza o nosso presente e como cada um dos candidatos se coloca frente a tal condição.

Trump é um político bastante sintonizado com o ambiente da comunicação atualista onde as provas dispensam comprovação factual. Seja nas redes sociais, seja em seus concorridos comícios, o presidente se revela um comunicador difícil de ser batido. Dentre os aspectos associados à condição atualista, destacamos a intensidade e velocidade sem precedentes do fluxo de notícias, em detrimento dos protocolos de verificação e checagem da informação veiculada. Esse ambiente infodêmico[2] é particularmente fértil para a produção de desinformação e sua disseminação como misinformação.[3] Além das informações imprecisas, para não dizer apenas falsas, que a infodemia trumpista ajuda a difundir, é preciso levar em consideração a agitação/ativação que produz. É como se a oposição se agitasse confusamente e a base trumpista se ativasse a cada um de seus comentários polêmicos. Assim, o uso constante das redes sociais para disseminar fake news ou comentários faz com que, seja de modo positivo ou negativo, o presidente esteja sempre no foco da mídia. O acúmulo de notícias sobre suas falas ou atos inconsequentes faz com que seja difícil recuperar qual foi o absurdo dito ou feito na semana anterior. Na condição atualista há um valor excepcional em estar mais atualizado (e exposto) que o seu adversário. 

Ainda assim, a manipulação das fake news como ferramenta política supõe uma linguagem organizada para se tornar eficaz. Essa afirmação pode soar chocante à primeira vista: como podemos atribuir coerência a um discurso fundamentado em desinformação e que frequentemente e sem o menor pudor afirma hoje o contrário do que disse ontem, como o exemplo do uso de máscaras na pandemia?[4] O ponto aqui é que a condição atualista coloca muitos obstáculos para que o passado, mesmo o mais recente, seja trazido à reflexão. Assim, quando confrontados com suas próprias contradições, políticos atualistas como Trump e Bolsonaro simplesmente atualizam suas narrativas e afirmações quando as anteriores se tornam insustentáveis. Com muita frequência, os seus discursos mudam em função da conveniência da atualidade, sem a mínima necessidade de se prestar conta da contradição com o que eles mesmos diziam no dia anterior.

Essa estrutura atualista do discurso político só se torna eficaz, porém, no interior de uma linguagem organizada e facilmente identificável pelo público que a compartilha, no interior de uma condição material de reorganização do mundo do trabalho e do capital. A crise de 2008, concentração de renda, neoliberalismo, capitalismo de vigilância e a formação do atual “precariado” são elementos, dentre outros, fundamentais para entender a emergência de líderes que governam e são eleitos por pequenas maiorias mobilizadas pela historicidade e ideologia atualista. Só assim podemos entender a força de Trump na eleição independente do resultado final, ainda que sua derrota  interesse a todos os democratas do mundo.

Trump lança mão de artifícios retóricos quando confrontado com suas afirmações evidentemente baseadas em mentiras e contradições, de tal maneira que ele consegue, mesmo em tais situações, transmitir e reforçar o código entre o seu público. O código se estrutura em uma lógica antagonista, na qual o portador é sempre vítima de perseguição por parte do establishment e da imprensa vendida para a “esquerda corrupta” ou as corporações globalistas.

O ponto principal a ser considerado é que para ser politicamente eficaz não é necessário que o código seja compartilhado por todos; mas que seja continuamente ativado junto aqueles que já o compartilham. Por mais que esteja sustentado em desinformações, o fato é que o código é bastante poderoso na ativação de afetos políticos centrais como o medo, ódio e ansiedade, vetores de forte engajamento e agitação política que Trump e Bolsonaro sabem tão bem promover.

O sucesso dessa estratégia se coaduna com a popularização das redes sociais e dos smartphones, bem como das novas tecnologias de processamento de dados manipulados para fins políticos. Nesse contexto, tornou-se possível criar e difundir mensagens sob medida para cada tipo de público, cada indivíduo ou grupo formula suas próprias percepções sobre o mundo a partir de narrativas (códigos) que não mais precisam ser expostos publicamente a todos para serem eficazes. Após alguns reconhecimentos iniciais, os algoritmos se encarregam de abastecer-nos das notícias que nos mobilizam, sempre com o mesmo teor e formato. Reforça-se, assim, o fenômeno das “bolhas”.[5] Esses códigos podem circular de forma subterrânea, de tal modo que o que parece absurdo e chocante para uns, é perfeitamente aceitável e normalizado para outros.

Esse ambiente de circulação de notícias e códigos é condizente com a ordem atualista de nosso tempo e, ao nosso ver, é um fator importante a ser considerado no desempenho surpreendente de Trump nestas eleições. E um dos preços a se pagar para tal sucesso é a radicalização do clima de agitação que tem marcado a nossa época. Esse quadro tem resultado inclusive em distúrbios psicológicos cada vez mais comuns, como o “transtorno do estresse eleitoral”, que segundo estimativas afeta sete em cada dez cidadãos estadunidenses.[6]

Os políticos atualistas claramente não se importam em pagar esse preço, na verdade eles têm lucrado com isso. Mas, ao fim e ao cabo, eles não podem evitar completamente os efeitos colaterais de suas apostas. Agitação e dispersão geram também cansaço no eleitorado. Biden e os democratas tomaram esse efeito como vetor de suas estratégias para estas eleições. Frente à irrefreável agitação de Trump, Biden se vendeu como a opção mais “centrista”, de moderação e convergência. A divergência entre as duas estratégias foi mais uma vez demonstrada logo após o fechamento da votação: enquanto Trump se apressou em declarar-se vencedor e dizer que irá judicializar a eleição em caso de derrota, Biden classificou tal postura como “ultrajante” e pregou calma aos seus apoiadores[7].

Mesmo que a vitória do democrata seja confirmada, é inegável que o preço desse lance foi bastante alto. A imprensa americana noticiou como parcelas importantes do eleitorado negro, que o próprio Biden afirmou ser “a chave para a vitória”, relataram estarem pouco motivados a votarem no candidato democrata.[8] O mesmo ocorreu entre parte do eleitorado hispânico, em especial na Flórida e no Texas. O conservadorismo nos costumes, a adesão a denominações evangélicas que tem crescido entre hispânicos e a tradição anticomunista dos cubanos, e agora também venezuelanos, na Flórida, são fenômenos a serem considerados. Enquanto fechamos essa coluna Trump ainda lidera na Pensilvânia, estado no qual o operariado branco migrou dos democratas para o trumpismo. No último debate, Biden acabou por reconhecer que teria que acabar com a exploração do altamente poluente gás de xisto, o que foi imediatamente explorado por Trump: “Eis uma declaração importante”, ironizou o presidente. Caso perca por margem apertada na Pensilvânia, onde os trabalhadores dessa indústria são amplamente sensíveis ao tema, talvez essa declaração tenha custado a eleição.

Para entender melhor essas flutuações teríamos que fazer algo pouco praticado durante a campanha, uma avaliação retrospectiva fundada em boa informação acerca das políticas públicas implementadas por democratas e republicanos, em especial nos governos Obama e Trump. O apoio ao republicano não é apenas resultado da mágica da comunicação, deriva também da tibieza das políticas democratas e dos acertos de Trump. Reforma do sistema criminal, política externa menos intervencionista, foco na economia e na criação de empregos, com bons resultados, ao menos até a pandemia.

A decisão das eleições primárias do Partido Democrata em nomear um candidato “centrista” para concorrer nessas eleições – ao contrário de uma opção mais radical do populismo de esquerda como Bernie Sanders – foi importante para unificar o partido (em especial o seu establishment) e angariar o apoio do eleitorado “cansado” da agitação radicalizada. Por outro lado, a figura moderada de Biden não se mostrou capaz de promover um grau de engajamento e mobilização do público à altura do seu adversário agitador, nem está claro ainda se seu discurso de união nacional conseguiu atrair eleitores de Trump. Essa diferença é importante em um contexto onde o voto não é obrigatório e, no caso particular das eleições deste ano, ainda mais desencorajado pela pandemia do coronavírus.

Mesmo assim, a moderação pode ter sido eficaz para para derrotar a agitação, mas não para desativá-la. E ainda não podemos assegurar como os EUA sairá dessas eleições, pois Trump continua sendo quem é. Há ainda o risco de o agitador perder e não aceitar sair, e as consequências disso poderão ser catastróficas. E mesmo que ele saia, o trumpismo – o negacionismo, o anti-esquerdismo, o desejo de retorno a um passado glorioso e mítico – ainda permanecerá em parcelas consideráveis da população.

O que tudo isso ensina para o campo democrático brasileiro, que tem de enfrentar a sua própria versão de agitador atualista? Desde o início da votação nos EUA, Bolsonaro disparou freneticamente uma série de tweets ressoando as alegações infundadas de seu ídolo sobre as eleições serem “fraudadas” a favor dos democratas, o que seria um risco para a “liberdade” e para o Brasil. Afinal, nosso agitador atualista tupiniquim sabe bem que a permanência de Trump é uma força de sustentação fundamental para ele. As relações entre EUA e Brasil deixaram de ser uma relação entre Estados, mas sim uma relação de “amizade” (leia-se emulação e, do nosso ponto de vista, subserviência) entre os chefes de turno da Casa Branca e do Palácio do Planalto.

Assim, e seguindo o estilo atualista de fazer política, Bolsonaro ressoa as afirmações sem fundamento de Trump, sem se preocupar com a veracidade e desprezando o princípio diplomático básico da impessoalidade. Mas Bolsonaro também tem seu próprio código “alternativo”, cujo enfrentamento é a tarefa prioritária das forças democráticas no Brasil, que deverá avaliar e tomar suas próprias escolhas para vencer o confronto. Assim como o trumpismo, nos Estados Unidos, o bolsonarismo é um fenômeno que não necessariamente depende da permanência de Bolsonaro no poder: ele mobiliza parcelas consideráveis da população através de seus discursos, que defendem o conservadorismo nos costumes, o liberalismo na economia, a luta contra “o sistema”, a religião e a admiração pelo militarismo.

Será que a aposta moderada e centrista será suficiente para derrotar o bolsonarismo aqui? Mesmo que por pouco? Ou, em nosso contexto particular, faz-se necessário redobrar a aposta na radicalização pela via da esquerda? Mesmo que a vitória de Biden seja confirmada, ainda não está claro qual das duas vias parece a mais indicada para o Brasil. Enfim, tudo indica um destino trágico da democracia liberal de “pequenas maiorias” em tempos de agitação atualista. Sem negar a nossa atual realidade, cabe a nós pensar e imaginar alternativas, por mais difícil que pareça ser em nosso atual nevoeiro e impregnados por uma sensação de asfixia. Além disso, a lentidão com que a apuração avança em alguns estados decisivos promete nos deixar hipnotizados pelos mapas eleitorais na expectativa da atualização decisiva.

(*) Mateus Pereira e Valdei Araujo escreveram o Almanaque da Covid-19: 150 dias para não esquecer ou o encontro do presidente fake e um vírus real com Mayra Marques. Ambos são professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto, em Mariana (MG). Também são autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando Bolsonaro, com Bruna Klem. Walderez Ramalho é doutorando em História na mesma instituição. Agradecemos à Márcia Motta e ao grupo Proprietas pelo apoio e interlocução nesse projeto.


[1] https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2020/11/04/o-eleitor-oculto-de-trump-e-o-novo-erro-dos-institutos-de-pesquisa.htm

[2] PEREIRA, Mateus; MARQUES, Mayra; ARAUJO, Valdei. Almanaque da COVID-19: 150 dias para não esquecer, ou a história do encontro entre um presidente fake e um vírus real. Vitória: Editora Milfontes, 2020.

[3] Usamos aqui um neologismo para dar conta da diferença que em inglês é mais clara entre a produção deliberada de notícias falsas (disinformation) e sua disseminação involuntária (misinformation).

[4] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/07/20/trump-muda-discurso-e-agora-diz-que-usar-mascara-e-patriotico.htm

[5] EMPOLI, Giuliano Da. Os engenheiros do caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algorítimos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. São Paulo: Vestígio, 2019.

[6] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/10/quase-sete-em-cada-dez-americanos-relatam-transtorno-do-estresse-eleitoral.shtml

[7] https://br.noticias.yahoo.com/em-pronunciamentos-biden-prega-calma-e-trump-faz-acusacao-de-roubo-065922289.html

[8] https://www.aljazeera.com/news/2020/9/12/biden-battles-trump-lack-of-enthusiasm-among-black-voters

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