As trombas da bauxita

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez, dizia o poeta Manoel de Barros.

Eletrólise de palavras corroem a Amazônia, tudo vira rejeitos: aço, água mineral, alumínio, areia, barita, bentonita, berílio, cal, calcário bruto, carvão mineral, caulim, chumbo, cimento, cobre, crisotila, cromo, diamante, diatomita, enxofre, estanho, feldspato, ferro, fluorita, fosfato, gás natural, gipsita, grafita natural, granitos e mármores, lítio, magnesita, manganês, metais do grupo platina, mica, molibdênio, nióbio, níquel, ouro, pedra britada, petróleo, potássio, prata, quartzo, rochas ornamentais, sal, sal-gema, talco e pirofilita, tantalita, terras raras, titânio, tungstênio, vanádio, vermiculita, zinco e zircônio.

Querem desembarcar na Amazônia palavras estranhas, arrebentar a boca do balão, implantar um pacote de práticas predatórias. Ontem os áudios do presidente ressoaram em todo canto, era no boteco, na padaria, na venda da esquina. Fui comprar laranjas e ouvi aquela voz dizendo:

“Ô Bebianno, essa missão não vai ser realizada. Eu não quero que vocês viajem, por quê? Vocês criam a expectativa de uma obra, aí vai ficar o povo todo me cobrando. Isso pode ser feito quando nós acharmos que vai ter recurso, que vai ser aprovado etc. Então essa viagem não se realizará, tá ok?”

 

 

 

 

 

Voltei meio encabulado para casa e fui entendendo que o presidente da república desautorizou a viagem de seus ministros que desembarcariam na Amazônia, no rio Trombetas, na semana passada.

Curioso, fui dar uma volta de satélite, ver o rio Trombetas e a região em questão. Como são tempos de palavras novas no léxico popular,  barragens a montante, diques, logo encontrei entre o verde tão limpo, sangrando as águas. 

 

Através da MRN (Mineração Rio do Norte) está implantado um grande projeto de mineração de bauxita, matéria prima do alumínio, na vila de Porto Trombetas, povoado de 6000 habitantes, próximo ao município de Oriximiná.  O Brasil possui grandes reservas de bauxita, ocupando a sexta posição no ranking dos produtores mundiais de alumínio primário, é o quinto maior em exportação desse metal não ferroso.

De meu satélite imaginário, fiquei vendo aquelas chagas na terra, o rio Trombetas, a bauxita guardada sob a floresta, rocha de cor avermelhada, em seu subsolo. A bauxita é formada por processos de laterização (transformação de minerais pela ação do clima, em ambiente tropical) e composta por óxidos de alumínio (gibbsita), ferro (goethita e hematita), titânio (anatásio) e minerais de argila (caolinita).

Tudo vira faca, carro, latinhas de cerveja, embalagem de remédios, foguetes, bombas no Oriente.

E querem construir uma hidrelétrica no rio Trombetas, mais uma nos rios amazônicos. A produção de alumínio exige o consumo de uma elevada quantidade de energia elétrica. O consumo de energia representa aproximadamente 30% do custo da produção de alumínio primário. É o principal insumo da produção. A indústria do alumínio é responsável por 6,4% do total de energia elétrica consumida no país, incluindo a proveniente de autogeração.

Após o desmatamento grandes máquinas reviram a terra, escavam o solo. Tudo fica virado ao avesso, tudo torna-se cenário de guerra, onde grandes navios levam nossos mortos, nossos nutrientes, nosso desabrigo. Se é alumínio, se é ouro, se é nióbio, não é no bolso do povo que reside, nem entre o homem do rio fica. 

Algo está fora da ordem.

 

 

 

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