AS FORMAS QUE A VIDA TOMA E O QUE SE COME

 

Banhava-me na lagoa, céu azul em riste e observava uma abelha presa na membrana d’água, que por descuido no voo, era agora presa fácil para uns pequenos peixes, alevinos de grandes espécies, que me beliscavam também, em uma limpeza gratuita de pele.

Abelha é bicho de respeito, pois não sei se por ferrão ou dissabores, nenhum peixe a ousou saborear. A operária rufou até a margem e em um pauzinho qualquer se sacudiu toda e partiu para outra busca nos ares.

Dessa cena de salvamento e cuidados apreendi que é preciso entender o que se come, escolher bem para não ferrar a língua. Como num divã de consultório, entendi o conselho dos peixes, e também da abelha, não bobear ao apetite e nos voos.

Apesar dessas e outras, sei que vale mesmo a vida e o que nela se come. Fogo de chão é importante também, descubro sempre nas aldeias que vejo.

Peixes de bocas grandes, pintados ou cacharas, caem na rede nesses dias de farta pescaria. Na roça vejo frutas cheias de rios dentro de si, tal melancia na terra seca. 

 

Tão importante quanto o alimento é o compartilhar. É boa atitude cuidar da boca de uma comunidade, um povo, diz cacique, diz pajé, diz médico.

 

*imagens por Helio Carlos Mello – ©Acervo Projeto Xingu / UNIFESP.

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