ALVORADA EXILADA

os ocos do corpo

Araquém Alcantara© – MÉDICO CUBANO SAEL CASTELO CABALLERO EM SERRA DA GUIA, SERTÃO DE SERGIPE.

O fotógrafo Araquém Alcantara lançou, em 2015, lindo olhar sobre o Programa Mais Médicos. Sobre essa obra, o fotógrafo disse, em entrevista à época, que a edição era um “manifesto humanista”, para mostrar às pessoas a importância da presença do Estado em todo o território nacional, ainda mais tendo o Brasil dimensões continentais. Araquém visitou 17 Estados da federação, disse ter chegado a locais onde nunca haviam estado médicos. As pessoas estavam extremamente felizes.

Araquém Alcantara© – MÉDICO HAITIANO JEAN GARDY MERCEUS EM IGAPÓ-DA-COMUNIDADE BELA VISTA, EM MANACAPURU, AM.

Conheci vários médicos cubanos também,  em experiências sensacionais em anos recentes, entre rincões desse Brasil, principalmente nos Encontros Presenciais de Especialização em Saúde Indígena para o Programa Mais Médicos. Cada um fazia a atenção primária à população local, invisível aos grandes centros, ocos da atenção básica à saúde. Atendia-se o que era possível ou permitido, em parcas condições dos recônditos. Estavam onde nenhum médico queria estar.

Dr. Jorge degusta charuto cubano entre aprendizados, aperfeiçoamento e entendimento da realidade da saúde pública no Brasil. – helio carlos mello©

Temo, nos novos ares, que agora irão fazer de conta o cuidar de quem não tem nenhum cuidado, pois mandatários querem romper relações com a ilha. Eles vociferam alto: vai pra Cuba.  No entanto, alimento desejo, lamento engano, que tempos melhores virão e todos devidos porão a mão na massa, cuidando de tantos que longe vigiam e carecem. Descobri nas andanças que, embaixo das árvores, nas beiras de rios, entre tanta vila, assentamentos e vielas, reinam outras carências, faculdades e planos. Plano de saúde lá é entidade abstrata. Apenas peço, não insistam em assombrações.

Tantos profissionais aqui se interpõem, de Cuba ou não, da Bolívia, Venezuela, Angola, ou, quem sabe, até França, Reino Unido ou da América deveras. Médicos são médicos, e pela vida devem se por aos cuidados, mesmo onde doutor brasileiro não há ou professa. Doença é questão de amparar, cuidar e dar procedimentos.

Dor que não se confere ou se partidariza, são questões de respirar e pulsar.

Não vota-se em saúde ou excluí-se tal razão de política de governos: viver bem há de ser uma causa pétrea, direito de todos.

Dr. Ariel Navarro, em atendimento na aldeia Tanguro, Alto Xingu. – helio carlos mello©

Até hoje não sabemos se queremos trem, carro, bicicleta ou um foguete para o espaço. Locomotivas viraram relíquias e nossos foguetes nem saíram do chão. Vamos seguindo a pé mesmo. Pés são o que temos. E muita vontade, é fato.

*imagens por Araquém Alcantara© e Helio Carlos Mello©

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