Agravando a crise política do Brasil

A presidente Dilma Rousseff do Brasil na quinta-feira. Crédito Felipe Dana / Associated Press

Algumas horas após os senadores terem votado esmagadoramente para colocá-la  em julgamento,  por suposta manobra financeira, a presidente Dilma Rousseff do Brasil denunciou a tentativa de impedi-la como um golpe.

“Eu posso ter cometido erros, mas eu não cometi crimes”, disse Dilma.

Isso é discutível, mas Dilma está certa ao questionar os motivos e autoridade moral dos políticos que buscam derrubá-la. A presidente brasileira, que foi reeleita em 2014 para um mandato de quatro anos, tem sido uma personagem política ruim e uma líder sem expressão. Mas não há nenhuma evidência de que ela tenha abusado de seu poder para obter ganhos pessoais, enquanto muitos dos políticos que orquestram sua expulsão foram implicados em um esquema enorme de propinas e outros escândalos.

O Supremo Tribunal do Brasil determinou, na semana passada, que Eduardo Cunha, o veterano legislador que liderou o esforço para expulsar Rousseff, deve deixar o cargo para ser julgado por acusações de corrupção. O vice-presidente Michel Temer, que assumiu o comando do país na quinta-feira, poderia ser inelegível para concorrer a um cargo por oito anos, porque as autoridades eleitorais o puniram recentemente por violar os limites de financiamento de campanhas.

Dilma é acusada de usar dinheiro dos bancos nacionais para encobrir déficits orçamentários, uma tática que outros líderes brasileiros utilizaram no passado sem serem questionados. Muitos suspeitam, no entanto, que o esforço para remover Dilma tem mais a ver com sua decisão de permitir que promotores avancem com uma investigação de corrupção na Petrobras, a companhia estatal de petróleo. O escândalo abalou mais de 40 políticos, incluindo altos líderes do Partido dos Trabalhadores de Dilma.

Se o Senado condenar Dilma de má conduta financeira – o que é provável, já que 55 dos 81 senadores do Brasil votaram por colocá-la em julgamento – os líderes brasileiros podem achar mais fácil voltar à política de propinas, como de costume. Isso seria inaceitável.

O Brasil está se recuperando da sua pior recessão desde 1930, e agora essa crise política está minando a fé na saúde da sua jovem democracia. Para agravar esses problemas, o governo está lutando contra o surto do Zika vírus, pouco antes do início dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.

As recentes investigações de corrupção, que expuseram a elite governante podre, têm indignado os brasileiros. Se o mandato de Dilma for interrompido, deveria ser permitido aos brasileiros eleger um novo líder prontamente. Uma nova eleição poderia ser realizada em breve, se um tribunal eleitoral, que vem investigando alegações de que o dinheiro do escândalo Petrobras teria se infiltrado na campanha de Dilma em 2014, invalidar sua última vitória. Alternativamente, o Congresso poderia aprovar uma lei chamando para uma eleição antecipada.

Embora Dilma não tenha conseguido governar o país de forma eficaz, os senadores saboreando sua saída devem se lembrar que a presidente foi eleita duas vezes. O Partido dos Trabalhadores ainda tem apoio considerável, particularmente entre os milhões que foram retirados da pobreza ao longo das últimas duas décadas.

A confiança em Dilma e seu partido pode ter declinado acentuadamente nos últimos meses. Mas Dilma está prestes a pagar um preço desproporcionalmente alto para um erro administrativo, enquanto vários de seus detratores mais ardentes são acusados de crimes mais odiosos. Eles podem vir a perceber que grande parte da ira que tem sido focada em Dilma, em breve será redirecionada para eles.

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