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A ERA DA BESTIALIDADE

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Publicado originalmente na Piuaí.

Por Fernando de Barros E Silva 

Alguém falou, com razão, que o discurso de Jair Bolsonaro transmitido ao vivo para seus seguidores na avenida Paulista, no último domingo, é uma versão atualizada do “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o bordão ufanista criado no período mais sinistro da ditadura a fim de promover o regime e esconder seus crimes. É muito provável que o próprio capitão-candidato se orgulhe da comparação. Recolho algumas frases dessa peça histórica:

“Nós somos a maioria.”

“Nós somos o Brasil de verdade.”

“A faxina agora será muito mais ampla” (se comparada as que foram feitas pela ditadura e pelo impeachment de Dilma).

“Esses marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria.”

“Você vai apodrecer na cadeia” (a “seu Lula da Silva”, como ele se refere ao ex-presidente).

“O Haddad vai chegar aí também. Mas não será pra visitá-lo, não. Será para ficar alguns anos ao teu lado.”

“Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil.”

“Vocês, petralhada, verão a polícia civil e militar com retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês.”

“Bandidos do MST, bandidos do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Ou vocês se enquadram ou vão fazer companhia ao cachaceiro lá em Curitiba.”

“Sem mentiras, sem fake news, sem Folha de S. Paulo. Nós ganharemos essa guerra”

 

Limpeza, faxina, marginais, bandidos, petralhada, cachaceiro, lombo, apodrecer na cadeia – o vocabulário de Jair Bolsonaro espelha de modo transparente suas intenções e sua personalidade. Ele fala a língua da tortura, a língua do extermínio, a língua da porrada. Exagero se disser que a palavra “lombo” nos remete aos suplícios contra os negros na época da escravidão?

Fiz questão de apresentar um pot-pourri desse discurso porque seu alcance foi de certa forma menosprezado. Em parte, isso ocorreu porque, no livre mercado das atrocidades em curso, no último final de semana Bolsonaro perdeu a concorrência para o filho Eduardo – o deputado federal mais votado do país –, que numa palestra falou que bastaria para fechar o Supremo “um soldado e um cabo” Gravado meses atrás, o vídeo veio a público quase ao mesmo tempo em que seu pai saciava os instintos mais primitivos das pessoas de bem em festa na Paulista.

Se tudo ocorrer conforme o previsto, daqui a quatro dias o homem cujo ídolo é o torturador Brilhante Ustra estará eleito. A partir de 2019, se tornará a autoridade máxima da República. Será o comandante supremo das Forças Armadas, o novo chefe da Polícia Federal. Devemos esperar uma conversão súbita da bestialidade em sabedoria? Devemos acreditar que depois da posse seu extremismo cederá terreno à moderação? Que o terrorismo retórico e as recorrentes ameaças à imprensa, às instituições e à democracia são só arroubos de candidato? Não será mais realista supor que as palavras – parte delas, pelo menos – irão se materializar em ações? Não é isso que as pessoas vestidas de verde e amarelo estão pedindo quando gritam “mito, mito”? As evidências recomendam que não se deve subestimar a riqueza escondida no subsolo da alma do brasileiro. Bolsonaro representa o desrecalque do pior de nós como nação.

 

Ele será eleito sem fazer nenhuma concessão, nenhum movimento em direção ao centro. Pelo contrário, está onde sempre esteve, muito à vontade na extrema direita, representante genuíno do obscurantismo raiz. Não participará de nenhum debate, só concedeu e concederá as entrevistas que bem entender, nas condições que ele mesmo estabelece. São, invariavelmente, fake interviews. Quase sempre, Bolsonaro discorre em detalhes sobre a bolsinha que armazena seu cocô. É uma fixação.

A facada o liberou de fazer qualquer aceno à civilização. Liberou também as falanges que o circundam a partir antes mesmo da eleição da retórica para a prática. Afinal, “a vítima foi o nosso capitão”, “a violência não partiu de nós”.

No dia seguinte ao atentado de Juiz de Fora, um amigo manifestou seu temor de que o país mergulhasse numa espiral ensandecida de vinganças, com guerra campal, violência descontrolada, mortes em série. No primeiro momento isso não aconteceu, pelo menos não dessa forma. Assim que se definiu que o adversário a abater seria Fernando Haddad, no entanto, a truculência logo recrudesceu.

Houve o assassinato – tão simbólico – de Moa do Katendê, na Bahia, e começaram a pipocar pelo país, na internet e nas ruas, as intimidações, as agressões físicas, os espancamentos, as ameaças de morte. Negros, gays, travestis, nordestinos, petistas, portadores do adesivo #elenão, artistas, intelectuais, ativistas dos direitos humanos – o espectro de pessoas insultadas, agredidas ou aterrorizadas é imenso. Ele inclui, como se sabe, jornalistas.

 

Patrícia Campos Mello, da Folha, se tornou alvo preferencial desses grupos depois da reportagem sobre a confecção e distribuição em massa de notícias falsas, via WhatsApp, financiadas por empresários apoiadores de Bolsonaro. Recebeu telefonemas anônimos intimidadores, teve seu WhatsApp invadido, se viu obrigada a desmarcar um compromisso profissional do qual seria moderadora depois que grupos bolsonaristas convocaram sua militância pelas redes sociais para constrangê-la.

Ela não é a única. O diretor executivo do Datafolha, Mauro Paulino, também foi ameaçado de morte. Eis o teor de uma mensagem que lhe foi endereçada na semana passada:

“Discutir e pesquisar democracia, tortura e etc nessa semana é muita putaria sua seu filho da puta. Merece uma navalha na garganta! Comunista ordinário e sem vergonha!!! Te dar tiro é desperdício! Você não vale a bala! Mas só esperar! Bolsonaro vai te foder tanto quanto merece!

VAGABUNDO!

SUJO!

COVARDE E FACCIOSO!

Eu teria um orgasmo se te desse um belo soco na cara!”

A Polícia Federal, ao que consta, está investigando o caso. É desse tipo de coisas que estamos falando. Está se esboçando com nitidez no país uma espécie de novo CCC, o Comando de Caça aos Comunistas que agiu na ditadura.

É óbvio que num ambiente como esse o exercício do jornalismo independente está ameaçado. É preciso, ainda assim, evitar a tentação da  estridência – uma reportagem apurada e escrita com zelo técnico e sem paixão vale mais do que as reações exaltadas. Mas também é preciso ter discernimento e coragem para chamar as coisas pelo nome.

Folha, por exemplo, deveria fazer circular um Erramos pela Redação: “Ao contrário do que dissemos outro dia, Bolsonaro é, sim, de extrema-direita. Ele nos obrigou a reconhecer isso. Antes tarde do que nunca. Foi mal.” O secretário de Redação Vinicius Mota, autor do memorando interno que proíbe os profissionais da casa a identificar o capitão no extremo do espectro político (ele seria apenas “de direita”), prestaria um serviço ao jornalismo se adotasse para si a autocrítica que, com carradas de razão, cobra do PT.

Mas a Folha, a despeito dessa que é, mais do que um erro conceitual, uma cegueira histórica, continua sendo o jornal mais arejado e relevante do país. Isso se deve ao legado de Otavio Frias Filho. Está encarnado na atuação da ombudsman, se manifesta na publicação de um texto como o de Nuno Ramos (na seção Tendências/Debates do último dia 23), está vivo quando Marcelo Coelho escreve uma coluna questionando a posição editorial do jornal.

“Nunca tivemos um defensor explícito da tortura como candidato – e disposto a cumprir a promessa. Será romper com o apartidarismo dizer simplesmente ‘ele não’? E o que significa dizer ‘ele não e o outro também não’? Será que significa ‘tortura pode ser?’”, perguntou Coelho na Ilustrada do último dia 17. Está claro que ele reagia, sem que precisasse dizê-lo explicitamente, ao editorial publicado na primeira página da Folha em 29 de setembro, uma semana antes do primeiro turno.

Intitulado “A hora do compromisso”, o editorial se esforçava para manter uma posição de equidistância entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, cobrando de ambos “manifestações de submissão ao enquadramento democrático”, como se representassem ameaças equivalentes ao estado de direito. O texto, que já nasceu torcido, envelheceu rápido e mal. Não foram necessários nem trinta dias para que caísse numa espécie de ridículo – o exercício algo escolar e formalista do apartidarismo ali vocalizado foi triturado pela escalada da violência nas últimas semanas, culminando com as palavras de inspiração claramente fascista – chamemos as coisas pelo nome – proferidas no último domingo pelo provável futuro presidente do Brasil.

Dizer com todas as letras que ele representa um retrocesso intolerável não significa condescender com os erros e os crimes praticados pelo PT. Para que isso ocorra é preciso desviar um pouco os olhos dos manuais e observar a realidade a fim de ter mais clareza do que está em jogo. De preferência antes que a bestialidade em gestação se transforme no nosso novo normal, como aliás não cansa de repetir a imprensa estrangeira, estupefata com o que estamos conseguindo fazer de nós mesmos.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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