Arma, mata-leão e algemas: o que o espancamento de Mestre Nenê, com o filho no colo, diz sobre o Brasil
Baluarte dos conhecimentos tradicionais, Mestre Nenê sabe que além da violência física e psicológica, sofreu a fúria de um Estado racista e escravocrata acostumado a subjugar e matar pessoas negras. Basta!
Mestre Nenê só usa roupas brancas. Quando não está jogando capoeira, o chapéu na cabeça – que deixa à mostra longos dreadlocks – é praticamente sua marca registrada. Se for necessário identificá-lo por outra característica marcante basta encarar seus olhos. Verde-acinzentados, são inconfundíveis.
Fotos: Lina Marinelli / Jornalistas Livres
Na quarta-feira, 19 de agosto, por volta das 19 horas, ele estava com o filho de cinco anos no colo, na calçada da comunidade onde mora, o Mangue, encravado no famoso da bairro da Vila Madalena, quando cinco policiais de uma viatura o abordaram. Mestre Nenê não sabia, mas a diligência, que ele já havia visto passar na rua, estava à procura de um suspeito por roubo. O suposto autor do crime estaria em roupas escuras de motoqueiro, com cabelo curto e seria jovem.
Aos 45 anos, as mechas grisalhas na barba ou cabelo denunciam a maturidade do Mestre. A única possível semelhança com o suspeito era ser negro. E foi o bastante para que a Polícia Militar de São Paulo valesse de seus protocolos de morte contra o capoeirista.
Revólver engatilhado, golpe mata-leão, a ida a um hospital para receber sedação e à delegacia para ser fichado foram os procedimentos destinados ao Mestre pelos agentes do Estado. Proteger o filho teria sido sua desobediência e desacato.
Os Jornalistas Livres acompanharam Mestre Nenê ainda no 14ºDP de Pinheiros, descalço, naquela quarta-feira de frio. Alunos e seguidores do professor, que é discípulo do saudoso Mestre Ananias (1924-2016), um dos maiores porta-vozes da cultura popular do Brasil, também estavam na porta do local.
“Fico imaginando o meu povo quando não tinha ninguém para dar apoio. E quem não pode fazer isso? É essa situação do nosso país, né? Nunca mudou nem vai mudar… E está piorando”, disse ao sair do DP, exausto e com a voz falha, depois de sofrer por quatro horas diferentes manifestações de racismo institucional.
Mata-leão está proibido desde 31/07
A chegada da polícia na porta da comunidade do Mangue não foi diferente de outras vezes; com a ordem típica, aos berros, do “mão na cabeça”. Mestre Nenê não se espantou. “São 520 anos de perseguição ao povo negro. Ninguém seria alvo de um revólver engatilhado em nenhum outro lugar da Vila Madalena”, diz o capoeirista. “Mas o Mangue é diferente; é o único local de negros na região.”
Dessa vez, porém, Mestre Nenê estava com seu filho. “Meu menino brincava na calçada e veio correndo pro meu colo, com medo”, explica. “Como eu ia colocar mão para o alto com ele no braço?” E ainda tinha arma apontada para os dois. “É muito fácil o poder se aproveitar de circunstâncias para atacar lideranças negras. É muito fácil saber do meu papel naquela comunidade. Enxergo uma perseguição a mim e ao que eu represento. A capoeira atinge a todos, de maneira consciente e inconsciente. Muda o sistema.”
Mestre Nenê mostra os pulsos, ainda inchados por causa das algemas, na porta da delegacia. Seu crime? Levar o filho para dentro de casa para que ele não presenciasse, aos cinco anos de idade, uma arma na cabeça durante abordagem policial
“Vi o revólver na minha direção e, por consequência, diante do rostinho do meu menino! Foi por isso que eu avisei aos policiais, de maneira muito tranquila, que ia colocar a criança pra dentro da vila.”
Não deu tempo de poupar o filho do desrespeito. Ao virar as costas, o capoeirista foi pego pelo mata-leão do policial. “Teve amigo capoeirista que depois me perguntou porque não me defendi. Sabe por quê? Eles queriam que eu reagisse. A nossa luta não é de hoje e sei que a saída é pela voz, é gritar, falar, chamar a comunidade, os jornalistas. E educar nossas crianças.”
A cena foi vista por várias pessoas. “O Mestre caiu no chão, na escadinha da viela, e ainda protegeu a criança com o próprio corpo”, diz Dhemerson Francisco Soares, de 20 anos, uma das testemunhas. A técnica de imobilização, a mesma que matou por sufocamento o norte-americano George Floyd em 25 de maio e mobilizou protestos em todo o mundo, foi proibida pelo subcomandante da Polícia Militar de São Paulo desde o dia 31/07.
“Queriam que eu reagisse”
Mestre Nenê conta que sentiu tontura, o princípio de um desmaio e rapidamente as algemas foram apertadas em seu pulso. “Puxaram forte, mesmo, prendendo a circulação, pra machucar. E aí lembro de pedir por socorro e só querer saber do meu menino.” A criança foi amparada por moradores e pela mãe. As cenas com os gritos apreensivos do capoeirista foram registradas pela comunidade. (Vídeo acima).
Na confusão, o casaco do capoeirista foi rasgado e ele perdeu os sapatos. Fazia menos de 10 graus na cidade naquela noite. Sua calça – branca, vale lembrar – ficou sem o botão que a prendia na cintura. Ao ser levado para o camburão, o capoeirista passou pelo constrangimento de ficar de cuecas na rua. Foi também nessas condições que chegou ao hospital público da Lapa.
Frio, pés descalços, calça sem o botão que a prendia na cintura: enquanto estava algemado, o professor passou pelo constrangimento de ficar de cuecas no hospital e na delegacia
Ele achou que iriam cuidar de seus pulsos na emergência. Mas Mestre Nenê não foi atendido por clínico geral. Os policiais o deixaram na viatura, ainda com a algema apertada, e uma psiquiatra apareceu ali, pronta para medicá-lo. “Eu gritei que não queria tomar nada, era a única coisa que eu poderia fazer.” E, de fato, só por causa de seus gritos os alunos e amigos, que haviam seguido a viatura da polícia, conseguiram testemunhar o momento em que o capoeirista manifesta sua recusa em receber sedativos.
Um dos discípulos da capoeira contou que, antes de ouvir a voz do mestre, havia perguntado à polícia sobre o andamento da consulta. “Eles mentiram, disseram que ele estava em atendimento quando nem tinham tirado o mestre do camburão. Não é uma mentira menor, é uma prática de rotina, de ocultação de vítimas”, analisou o aluno que não quis se identificar.
Sem curativos ou qualquer intervenção médica, o professor foi obrigado a assinar um papel afirmando que se recusou a receber socorro. E assim, com as mãos presas, agora inchadas pelas algemas, calças pendentes, em cuecas à mostra, foi levado para ser ouvido pelo Delegado. “Eu fiz nada”, repetia.
“Foi racismo e o mestre reagiu a uma ilegalidade”, diz a advogada Vivian Mendes
“‘É preciso dar nome ao que ocorreu: racismo. Diferentes manifestações de racismo institucional foram praticadas pela polícia e até mesmo pelo hospital público”, disse a advogada criminalista Vivan Mendes, na porta do DP, antes de acompanhar Mestre Nenê ao exame de corpo de delito que vai embasar um processo de abuso de autoridade policial. “O que ele viveu são exemplos concretos de práticas escravistas que permanecem no âmago do Estado brasileiro.”
Em depoimento, apenas dois policiais responderam pela abordagem. Afirmaram que o Mestre “desobedeceu a ordem legal”. O argumento foi contestado pela criminalista. “Não há cabimento em falar de desobediência pois não houve indícios de que os oficiais estavam diante de um suspeito. As roupas claras, o cabelo longo já o isentariam de um procedimento daquela maneira, ainda mais com uma criança no colo”, pontuou a especialista. “Apenas o fato de ser negro o incriminou? O mestre, na realidade, então reagiu a uma ilegalidade.”
Além da criminalista Vivian, atuam no caso as advogadas Ana Paula Freitas e Priscila Pamela, da Rede Liberdade, que atua em casos de violação de direitos e liberdade.
Comunidade é famosa pela resistência
Mestre Nenê ressalta a importância de contextualizar ainda mais o episódio. “Para começar, a escravidão nunca acabou e nem temos democracia. É a partir disso que temos que analisar todo o ocorrido”, pontua o capoeirista. “A polícia chega desse jeito, e de maneira natural, porque somos negros e isso precisa ser levado à sério de uma vez”, ressalta o morador do Mangue, comunidade famosa por sua resistência.
Imagem do Google Maps mostra o contraste da rua Fidalga, onde fica a comunidade do Mangue, com os edifícios de luxo ao fundo. A “diversidade” da Vila Madalena aumenta o preço do metro quadrado mas não evita a violência da polícia no único local negro do bairro
Remanescentes de uma favela maior que instalou em terrenos ociosos no começo do século passado, cerca de 200 famílias negras ocupam dois terrenos no coração do bairro nobre. A principal viela de acesso às casas simples fica na rua (curiosamente) chamada Fidalga. Ali, o metro quadrado vale, em média, R$ 11.000. Em média, pois os novos estúdios moderninhos de 25m2 podem custar tanto quanto os apartamentos de alto padrão que tomaram conta do entorno nos anos 1990.
Mercado imobiliário de alto luxo avança sobre a comunidade do Mangue que resiste desde o começo do século passado. (Foto: Google Maps 2020)
Vizinho dos espigões assinados por renomados arquitetos e construtoras, na casa de Mestre Nenê fica o ilê Flor d’Aroeira – Tambor de Crioula, Samba e Capoeira. Ali, ele treina quem é do Mangue, da Vila ou da roda de capoeira da Praça da República, indiscriminadamente. O ilê promove o ensino da música e o som do berimbau percorre as praças do bairro e de outras centenas, não só na cidade, mas mundo afora. Um grupo de dança acompanha os tambores, que são aquecidos em fogueiras.
Flor D’Aroeira: celebrações fortalecem a união já existente entre as rodas de capoeira e as rodas de tambor de crioula e dão vida ao bairro (Reprodução Facebook)
Mestre Nenê é também um líder comunitário, voz de respeito e exemplo de conduta. São afazeres intrínsecos ao seu papel e de todos mestres e mestras da cultura popular brasileira. Se reconhecem e são reconhecidos como patrimônios vivos, são herdeiros da memória e de saberes ancestrais transmitidos pela oralidade, geração após geração. Fazem o Brasil mais brasileiro. E, obviamente, faz a Vila Madalena ser única também.
Palavras como “diversidade,”arte”,”cultura” e “boemia” são atrativos vendidos em qualquer panfleto imobiliário sobre o bairro. Não por acaso, a Vila Madalena virou reduto de bares, agências de publicidade, grupos de teatro e escolas com propostas mais libertárias. Desde que a vila é vila há tambor e a comunidade do Mangue.
É um grande absurdo o que vem acontecendo desde tempos ancestrais c a população negra e indígena no Brasil e no mundo.
Não podemos aceitar tais barbáries !
Justiça já p o Mestre Nenê !!!
Meus respeitos Mestre Nenê. Nomes como o seu haverão de ser lembrados pela luta por direitos iguais para todos. Infelizmente esse covardes não pagarão por suas canalhices. Também não é vingança nem violência que desejamos. Continuemos essa luta gloriosa.
Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa. Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta. O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.
Irã Mall Foto: Eduardo Campos
A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream. Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.
Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.
Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos
A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.
O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra. Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental. Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões. A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida. Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele. Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa. Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens. A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas. A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos. O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás. O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.
Assassinato de 168 meninas, além do aiatolá Ali Khamenei, no primeiro dia dos bombardeios americanos-sionistas contra o Irã, mobiliza o país persa e engaja as crianças
O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.
Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.
A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.
O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.
Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.
Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé. Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.
Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres
Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.
Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.
Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.
Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.
Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.
Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.
Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.
*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina
Rita de Cássia Souza
25/08/20 at 16:53
É um grande absurdo o que vem acontecendo desde tempos ancestrais c a população negra e indígena no Brasil e no mundo.
Não podemos aceitar tais barbáries !
Justiça já p o Mestre Nenê !!!
pe de cabra
26/08/20 at 10:57
eita Brasil, que tristeza… vai passar em 2022 se Deus quiser.
Edmir Simões Moita
26/08/20 at 15:21
Mais uma manifestação de racismo de uma polícia mal dirigida, mal treinada e violenta!
Gilson Luz
26/08/20 at 19:17
Meus respeitos Mestre Nenê. Nomes como o seu haverão de ser lembrados pela luta por direitos iguais para todos. Infelizmente esse covardes não pagarão por suas canalhices. Também não é vingança nem violência que desejamos. Continuemos essa luta gloriosa.
Maria
27/08/20 at 8:59
Solidariedade ao mestre Nenê e à comunidade preta e indígena neste país e no mundo. Muita luta ainda pela frente.