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Vem aí o Bolsonarismo 2.0?

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ARTIGO

Mateus Pereira e Valdei Araujo, professores de História na Universidade Federal de Ouro Preto em Mariana*

 

Terça-feira, 9, o presidente realizou mais uma reunião ministerial, mas, dessa vez, aberta ao grande público. Quem assistiu a reunião e observou o presidente, talvez tenha percebido a sua expressão doentia. Qual seria o diagnóstico? Ao que todos dizem: psicopatia!

Os fatos e as análises dos últimos 15 dias têm mostrado que o bolsonarismo também está enfermo. Mas, infelizmente, pode ser que para essa doença já se tenha a cura. É sobre isso que vamos falar nesse texto, mas, antes disso, vamos tentar organizar a infodemia que nos assola.

Alguns fatos dos últimos 15 dias. 1) O vírus continua livre leve e solto e a COVID-19 mata sem freios no Brasil. Entramos em desconfinamento quando deveríamos estar em lockdown. 2) O governo federal quer reduzir o número de infectados e de mortos não cuidando das pessoas, mas fraudando os números. Não é preciso chamar os militares para matar dessa vez, o vírus já faz isso. Os militares estão “apenas” fraudando os números com sua celebrada fidelidade canina ao chefe. 3) O governo cancelou diversas anistias concedidas aos perseguidos políticos da Ditadura Militar. 4) Não é mais apenas a direita e extrema-direita que furam a quarentena e vão às ruas protestar. 5) Movimentos antirracistas explodem nos EUA e podem ajudar a definir os rumos da eleição americana.

Algumas hipóteses e especulações que circularam nos últimos 15 dias: 1) O bolsonarismo é a atualização do fascismo à brasileira com lastro no integralismo e na Ditadura. 2) Bolsonaro busca apoio nas Polícias Militares e na liberação das armas para dar um golpe, pois não teria forças suficientes nas Forças Armadas para bancar o golpe. 3) A possibilidade de impedimento de Bolsonaro ou mesmo de toda a chapa volta ao radar, seja por iniciativas no Congresso, STF ou STE. 4) A crise política, econômica e sanitária atingiu um limite e agora será administrada e o governo poderá ter certa estabilidade, já que se aliou ao Centrão. 5) O bolsonarismo é pior que o fascismo, pois representa um laboratório de novas formas de governança do capitalismo global na periferia, a exemplo da Hungria e da Turquia. Assim, esse novo inominável aponta para o aprofundamento da barbárie, da opressão e da destruição do país, provavelmente com Bolsonaro, ainda que esse projeto possa se aprofundar, mesmo sem ele.

Para muitos analistas, haveria uma brecha aberta, uma crise, uma possibilidade de derrotar essa real ameaça às nossas vidas e à democracia brasileira.

É possível que um dos equívocos dessas análises é continuar subestimando a força do bolsonarismo, o seu “parasitismo” e a sua possível “regeneração”, repetindo o mesmo erro de análise já ocorrido ao longo da maior parte da campanha eleitoral. É provável que o bolsonarismo, e, em especial, a energia ligada a ele, seja uma doença que, como a COVID-19, veio para ficar mais tempo do que imaginávamos! Negar esse fato pode ser similar a negar a pandemia. Mas, confessemos, esperamos estar enganados, apesar das evidências em contrário.

Como explicar que o apoio ao governo ainda se mantém entre 25 a 30%? Como explicar essa suposta estabilidade? Nossa hipótese é que, sem entender o fenômeno das fake news é impossível compreender a força do bolsonarismo.

Como afirmou Jorge William em uma reportagem de O Globo: “Muita ficção científica foi produzida no passado, especulando sobre robôs usurpando empregos e até postos de comando humanos, mas pouco se imaginou sobre robôs usurpando o debate público humano, o debate sobre a própria forma de uma sociedade humana se organizar e se deixar liderar.” Mas, não se trata apenas de robôs, trata-se de uma complexa engrenagem de simulação da verdade, como tentamos mostrar em diversos textos publicados aqui nos Jornalistas Livres.

Em livro que lançaremos em breve pela editora Milfontes intitulado “Almanaque da Covid-19, 150 dias para não esquecer: a história do encontro entre um presidente fake e um vírus real” argumentamos que para alguns líderes atualistas, como Bolsonaro e Trump, o passado e o futuro são mobilizados em discursos e prátic

Charge de Cláudio Duarte

as como dispositivos para a agitação política. O aspecto atualista desse fenômeno não significa uma ausência de remissões ao passado e ao futuro, mas que elas são subordinadas ao objetivo maior de garantir a agitação e a mobilização permanente de seus apoiadores, daí a aparente blindagem desses líderes. Antigas verdades que se revelaram mentiras podem ser apenas esquecidas e substituídas pela “verdade mais recente”, antigos aliados que pareciam cônjuges tornam-se do dia para a noite os mais ferozes inimigos. Como diz o mote de um canal de notícias, em 20 minutos tudo pode mudar.

O caos, a confusão e a distração assentada numa complicada manipulação de eventos e personagens históricos são apenas um ingrediente a mais na receita. Uma de suas consequências é a mobilização política em prol de presentes-passados, passados-presentes e presentes-futuros autoritários, na maioria das vezes sustentada pela negação, nostalgia e ressentimento. O principal projeto de futuro desses movimentos talvez seja a destruição ou, pelo menos, o enfraquecimento das bases da Democracia e do Estado Liberal para o aprofundamento de certas dimensões do capitalismo contemporâneo, que alguns poderiam chamar de anarco-capitalismo. Agora não basta reduzir o tamanho do Estado, não basta privatizar; o objetivo é destruir mesmo a função mediadora do Estado, desregulamentando e retirando qualquer tipo de proteção social construída nos estágios anteriores do capitalismo: passar a boiada, na infame expressão do titular que simula ser o ministro do Meio Ambiente.

A nossa hipótese, portanto, é a de que, em certas dimensões da temporalidade atualista em que vivemos, a verdade que mais importa é aquela que nos chega na forma de notícia, de news. A maior parte das pessoas tomam decisões orientadas por um ambiente de notícias em fluxo contínuo, consumido como entretenimento, embaladas pela crença de que quanto mais recente e atual é a notícia, mais relevante se torna para nossas vidas.

Controlar a produção incessante das news – pouco importa se verdadeiras ou simuladas (fakes) – tornou-se a mais importante fonte de poder político, até mais relevante do que partidos e outros sujeitos tradicionais. Esse universo paralelo, da simulação da notícia como arma política, com seus agentes e estruturas, é o fato mais relevante para compreendermos a história da COVID-19 no Brasil. Esses ambiente de universos simulados é o hospedeiro que o bolsonarismo, e também o trumpismo, parasitam em simbiose.

E, nesse sentido, uma das coisas mais interessantes da reunião ministerial pode ter sido uma possível atualização do discurso do Paulo Guedes. O projeto (agora apoiado por ele?) de expandir, renomear e ampliar o Bolsa Família pode apontar para o futuro do bolsonarismo. Uma atualização do Bolsa Família pode significar uma recomposição da base do bolsonarismo, a exemplo do que ocorreu no primeiro governo Lula, como mostra a tese do lulismo de André Singer?

Improvável de acontecer de novo? Tomara que não aconteça. Mas, em história o improvável vive acontecendo e os estrategistas militares do Planalto sabem disso muito bem.  Aliás, eles já devem ter acesso a diversas pesquisas indicando esse caminho de sobrevivência na base da sociedade. Uma delas, divulgada pelo jornalista José Roberto Toledo, apontava que Bolsonaro perdeu apoio entre a elite durante a pandemia e a queda de Moro.

Mas, que a avaliação em ótimo e bom do governo continuava na casa dos 25 a 30% divididos, mais ou menos, assim: 8-10% bolsonaristas raiz (olavistas, emprededores reais e ficcionais, armamentistas, policiais e militares); 6-8% religiosos, em especial, neopetencostais; 5-7% ultraliberais, guedistas; 5% pobres que receberam o auxílio emergencial de 600 reais. Ampliar ou não esses novos 5% passa a ser um das escolhas políticas do governo. Em política, por vezes, a sobrevivência é mais forte do que qualquer ideologia.

A pandemia possibilitaria conciliar a agenda anarco-liberal, o ataque ao Estado, ao funcionalismo, a qualquer tipo de garantia ou proteção social com um projeto de renda mínima ou básica? Ao que parece, sim. O governo aliou-se ao centrão para sobreviver e isso foi amortecido junto à sua base de forma relativamente eficiente, mesmo representando uma ruptura com o discurso de campanha.

O reagrupamento de boa parte da base de apoio pós-queda de Moro é um fenômeno que precisa ser visto com muita atenção. Foi muito rápido e parcialmente eficiente. Talvez haja uma atualização do discurso econômico tendo em vista a conjunção das crises que vivemos. A reunião de terça-feira aponta para isso. Em poucas palavras: pode estar sendo gestado o Bolsonarismo 2.0. Afinal, o projeto econômico de Guedes é não ter projeto algum, apostar no caos e na capacidade dos poderosos revertê-lo em benefício privado.

A máquina de fake news rapidamente pode contribuir para ajustar o discurso para a base já consolidada. E o novo grupo que poderá chegar pode ser, também, rapidamente introduzido no interior dessa verdadeira máquina de guerra de simulação da verdade. Mesmo que se perca uma parte do apoio ultra-liberal, ele poderá ser compensado com o ingresso de novos membros nessa torcida fanática e perigosa.

O número de avaliação regular está diminuído e migrando para o ruim e péssimo. Mas, tudo tem limite. Podemos supor uma unidade, que não existe, entre os 70%. Mas, não seria impossível que sejamos traídos, isto é, que a médio prazo, apesar de tudo, a avaliação de Bolsonaro aumente. Não significa que vai acontecer, mas é um cenário possível, ainda que improvável neste momento.

Talvez o cálculo seja que o Bolsonarismo 2.0 ajude a brecar a queda de popularidade e também mantenha a base. Impeachment sem grande insatisfação não passa. E Rodrigo Maia sabe. Ele pode dar um bote ainda? Aparentemente foi neutralizado.

Enfim, a ideia básica que pode fazer surgir o Bolsonarismo 2.0 é: não basta comprar o Centrão, é preciso comprar também base popular.

E a boa notícia? Quem é um dos maiores fiadores do bolsonarismo? Trump! Talvez a boa notícia que tanto esperamos esse ano possa vir não daqui de dentro, mas da eleição americana. A derrota de Trump seria como a tão esperada vacina. Não depende de nós.

Assim, o que podemos fazer nesse momento é contribuir para a desaprovação do governo continuar a crescer por meio da militância nas redes e nas ruas. As duas ações exigem de nós novas sabedorias práticas, o que significa novas atualizações em sentido positivo. Além disso, toda e qualquer ação de combate e controle das fake news são necessárias no plano micro e macro de nossa vida social.

 

(*) Autores do livro Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI e organizadores de Do Fake ao Fato: (des)atualizando Bolsonaro, com Bruna Klem.

Esse artigo contou com a colaboração de Mayra Marques, doutoranda em História pela UFOP

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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