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25 anos do Carandiru: o massacre que não terminou

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Texto originalmente publicado no blog da Maria Carolina Trevisan

Massacre do Carandiru: detentos monstram pano sujo de sangue da Casa de Detenção de São Paulo, após a intervenção da Polícia Militar. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

A chaga deixada pelo Massacre do Carandiru se aprofundou nesses 25 anos. Agravada pela falta de responsabilização de autoridades e agentes do Estado pelas 111 mortes sob sua custódia, a ferida do Carandiru se aprofunda hoje no encarceramento em massa e na violência policial – dois dos principais elementos que permitiram o massacre. Agrega-se a isso o crescente poder das facções e a desestruturação do Estado dando espaço a vertentes fascistas, um barril de pólvora constante.

Toda vez que um comandante geral da Polícia Militar de São Paulo assume a corporação e repete que “não houve massacre, a ferida supura e põe em risco a população mais sujeita à violência policial: negros e pobres. A afirmação que geralmente se segue tenta explicar que a invasão ao Carandiru foi “legítima e necessária”, e é dita sempre que há uma oportunidade.

Foram exatamente essas palavras que o ex-governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho, responsável pela atuação da polícia naquele 2 de outubro de 1992, usou em seu testemunho em 2013, para justificar a entrada violenta no Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo. Acrescentou ainda uma outra justificativa: “quem não reagiu está vivo”, supondo o uso da legítima defesa, apesar de apenas 15 policiais terem se ferido durante a intervenção. Fleury emprestou a expressão do atual governador paulista, Geraldo Alckmin, pronunciada quando a Rota (grupo de elite da PM-SP) matou nove suspeitos, em 2012.

As condições que possibilitaram que o Massacre do Carandiru ocorresse continuam firmes. “Acho até que pioraram”, afirma Deborah Duprat, procuradora federal dos Direitos do Cidadão e ex vice-procuradora geral da República. “Nós vivemos na atualidade a cultura do medo. E o medo torna todas essas práticas efetivas mais violentas.”

VEJA TAMBÉM: Três visões do Carandiru – Relatos de agentes, sobreviventes e PMs

Em janeiro deste ano, 120 pessoas foram mortas em presídios da Amazônia, Roraima e Rio Grande do Norte. Em reação, o Ministério da Justiça e Cidadania criou o Grupo Nacional de Intervenção Penitenciária, a princípio para controlar situações pontuais. Porém, de acordo com Deborah, esse grupo permaneceu dois meses em um presídio no Rio Grande do Norte.

“É um grupo que atua suprimindo todo e qualquer direito dos presos numa situação de rebelião”, alerta a procuradora. “Na hora em que essa força sai, a revolta acumulada pode gerar uma reação ainda muito maior do que a que provocou a primeira rebelião. Acho que estamos num cenário muito preocupante em que se naturalizou a presença de policiais dentro das prisões sem quaisquer protocolos prévios, sem controle do Ministério Público sobre essa força que está dentro das prisões e nas ruas. Isso me preocupa bastante.”

Pelo menos 111 cidadãos aprisionados foram mortos, 85 dentro das celas. Desses, 89 ainda não haviam sido julgados. A polícia disparou 515 vezes. Grande parte foram tiros fatais.

Laudo mostra que preso estava rendido e com as mãos na cabeça ao ser executado no Massacre.

Um estudo sobre os laudos do IML acerca dos mortos no Massacre constatou: a ação da polícia teve características de operações táticas de “incapacitação imediata”, cujo objetivo é produzir a morte do adversário, atingindo alvos específicos do corpo como cabeça, pescoço e tronco. “Durante a observação dos 111 laudos necroscópicos a situação de rendição e impotência à qual se encontravam os detentos foi especialmente evidenciada pela presença de sinais de defesa em membros superiores dos cadáveres conforme relataram os laudos”, escreveu a enfermeira Nanci Tortoreto Christovão em sua tese de mestrado na DireitoGV.

Não há legítima defesa contra quem está rendido.

A importância da memória

A invasão ao Carandiru ocorreu em um momento em que a democracia estava se estabelecendo no país. A Constituição de 1988 acabara de ser promulgada e buscava ratificar direitos. A brutalidade do Massacre apenas quatro anos depois desse pacto social revelou a negação aos apelos em relação aos direitos humanos e demonstrou a fragilidade da democracia.

Pior que isso, a reação àquela violência mostrou o desejo da sociedade de que aniquilar as vidas encarceradas, a sanha por punição e vingança, o medo e a insegurança.

“A aplicação da justiça penal pode ser identificada como o último reduto do autoritarismo digno da ditadura militar. Mais que resquício, ela é a base desse autoritarismo”, afirma Luciana Zaffalon, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas e ex-ouvidora externa da Defensoria Pública de São Paulo. “O Poder Judiciário foi o único dos poderes da República que nem sequer se aproximou da ideia da transição.”

A história do Massacre do Carandiru diz muito sobre o funcionamento da Justiça até hoje. Talvez por isso, o empenho em apagar a sua memória. Um dos principais atores na tentativa de silenciar o Massacre é o Tribunal de Justiça de São Paulo. Em 2006, declarou a absolvição do coronel Ubiratan Guimarães, condenado a mais de 600 anos de prisão em júri popular por chefiar a ação policial. Dez anos depois, o desembargador Ivan Sartori afirmou que “não houve massacre” e pediu o anulamento e absolvição do júri popular que condenou os policiais que participaram do Massacre, em um dos mais longos e complexos julgamentos da história brasileira. Nesses 25 anos, o TJSP vem também diminuindo sistematicamente o valor das indenizações das famílias das vítimas, como demonstram as professoras Maíra Rocha Machado e Marta Machado, no livro Carandiru não é coisa do passado.

“O ciclo de violências, autoritarismos e silenciamentos se renova a cada dia e a responsabilidade da Justiça precisa estar no centro dos debates”, alerta Luciana. “Apagar a história de um Massacre da magnitude do vivenciado no Carandiru permite que sigamos naturalizando a barbárie e é mesmo muito difícil refutar qualquer conclusão que aponte que governo e Justiça se empenham para isso.”

Corredor alagado de sangue no pavilhão da Casa de Detenção. (Foto: Niels Andreas/Folhapress)

O apagamento da memória é perigoso porque demonstra, de certa forma, que aquilo é um exemplo a ser seguido. A falta de reconhecimento por parte do Estado de que houve um Massacre reforça a tentativa de emudecer o que ocorreu.

As iniciativas para esquecer o Massacre acontecem desde o primeiro minuto em que cerca de 350 policiais entraram na Casa de Detenção naquela tarde de 2 de outubro de 1992. O relatório enviado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em 2000, com a investigação feita por parlamentares da Assembleia Legislativa de São Paulo, revela uma série de ações de encobrimento dos fatos: os juízes presentes (que hoje aparecem como testemunhas de defesa dos policiais no voto de Sartori) foram impedidos de entrar nos pavilhões no momento da rendição, enquanto presos que testemunharam o início do Massacre continuavam a ser executados (a maioria das vítimas foi alvejada nos primeiros 30 minutos de ação); o sangue foi lavado do cenário das mortes; fotógrafos tiveram o acesso bloqueado; informações oficiais sobre policiais feridos foram exageradas; não foram feitas as provas balísticas; 13 armas de fogo foram plantadas e atribuídas aos detentos; os primeiros oito feridos leves encaminhados ao hospital foram, aparentemente, executados no trajeto.

Também demorou muito para que o Massacre fosse oficialmente divulgado. Na manhã seguinte, os jornais informaram a morte de oito presos em consequência de uma “rebelião”. O número real de mortos só foi comunicado à imprensa e aos familiares no dia 3 de outubro, às 16h30, meia hora depois de cerradas as urnas da eleição municipal realizada naquela data. Só em 4 de outubro as capas dos periódicos trouxeram a notícia correta.

Eleitores paulistanos escolheram Paulo Maluf (PDS) e Eduardo Suplicy (PT) para disputar o segundo turno da Prefeitura de São Paulo. Suplicy foi um dos primeiros a entrar no presídio após o Massacre. Maluf declarou ser admirador da Rota, tropa que mais matou na intervenção que levou ao Massacre. Em 15 de novembro, Maluf foi eleito prefeito da capital paulista com 58% dos votos contra 41,9% de Suplicy.

As tentativas de silenciamento continuam acontecendo. Em 2002, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) implodiu a Casa de Detenção e no lugar ergueu o Parque da Juventude, que não faz nenhuma menção aos mortos no Massacre. Um Projeto de Lei que tramita na Assembleia Legislativa propõe trocar o nome da estação de Metrô Carandiru para Parque da Juventude.

“No Museu Penitenciário de São Paulo não há referência ao Massacre, a sala ‘Memória do Carandiru’ continua vazia”, alerta o professor de Direitos Humanos Guilherme de Almeida, da Faculdade de Direito da USP. “É fundamental o Estado brasileiro reconhecer a ocorrência de graves violações de direitos humanos por parte dos agentes estatais, como o caso do Carandiru. Enquanto isso não acontecer, não conseguiremos aprofundar a democracia no País”, completa.

O ciclo da injustiça

Fernanda Vicentina da Silva, filha de uma das vítimas

Fernanda Vicentina da Silva tinha 9 anos quando seu pai, Antonio Querino da Silva, foi assassinado no Massacre. Naquele 2 de outubro, ela esperava no portão da Casa de Detenção para o dia de visita junto com dezenas de famílias.

Como grande parte dos familiares dos presos do Carandiru, Fernanda vivia em condição de extrema vulnerabilidade. A mãe abandonou Fernanda e o irmão. Moraram na rua até que uma tia apareceu para tomar conta deles.

Fernanda tem breves lembrança do pai. Diz que ele costurava bonecas para dar de presente a ela no dia de visita. O laço afetivo que ela construiu com Antonio é o enorme desejo de ter tido um pai, ainda que ele tivesse cometido crimes. “O mais difícil é que não consigo mais enxergar o rosto dele. Eu sonho com ele e tenho muito amor por ele”, diz. Fernanda tem três filhos e renda familiar de 700 reais, que tira da venda de material reciclado.

Ela não sabia que tinha direito a indenização. Por isso, foi uma das últimas a pedir a reparação porque por acaso o advogado Carlos Klomfahs ouviu falar da precariedade de sua situação e decidiu ajudar. A indenização estabelecida pela Justiça para Fernanda, em torno de 20 mil reais, é uma das mais baixas dos cerca de 73 casos julgados procedentes. A procuradora do Estado de São Paulo Mirna Cianci, na defesa do Estado, alegou que Antonio “não era um exemplo de pai” e que o fato ocorreu quando seu pai estava recolhido ao cárcere “portanto, despido de laços familiares, a ponto de a mãe abandoná-los à própria sorte, provavelmente esgotada por uma condição que lhe foi imposta em seu prejuízo, de ter que criar sem qualquer auxílio dois filhos menores, de pai criminoso”.

A procuradora afirma que estava cumprindo o papel de defender o Estado ao argumentar pelo baixo valor de uma indenização por dano moral. “É diferente um pai que você convive de um pai que leva uma vida criminosa e fica longe”, explica. O advogado está recorrendo.

A vulnerabilidade se agrava a cada dia.


Reatualização do Massacre

Os presos mortos no IML (Instituto Médico Legal), no dia 4 de outubro. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

“O Massacre do Carandiru em nenhuma medida serviu de baliza moral para a sociedade”, afirma o sociólogo Matheus Gato de Jesus, pós doutorando na Universidade de Harvard. “Poderia ter sido um ponto de inflexão social para que esse tipo de prática violenta e uma noção de segurança e desenvolvimento, não fosse consumida com tamanha criminalização dos pretos e pobres.”

O caminho foi oposto. O genocídio da população negra continua ocorrendo de maneira naturalizada, sem causar comoção ou mudanças na sociedade. São mais de 40 mil jovens negros assassinados por ano no Brasil, cerca de 70% do total das vítimas de homicídio. Há uma enorme tolerância ao sofrimento negro. O caso de Rafael Braga, agora tuberculoso pelas condições de vida no presídio, é emblemático nesse sentido.

O encarceramento mira esse grupo populacional: duas a cada três pessoas privadas de liberdade é negra. “O que torna o acontecimento no Carandiru um Massacre não é só o fato em si, mas toda a gama de violência que se vê chancelada em um ato daquele”, afirma Matheus.

No primeiro semestre de 2017, a letalidade da Polícia Militar de São Paulo foi a maior dos últimos 14 anos. Tirou a vida de 459 pessoas, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

O Massacre do Carandiru também representa a ideia de que “bandido bom é bandido morto”. “A experiência da prisão é a morte em vida. Nos presídios brasileiros a chance de morrer é 10 vezes maior do que fora. Quando o Estado decide liquidar a vida dos presos, no fundo, o que estamos colocando em prática é essa política criminal violadora de direitos humanos, autoritária”, alerta Cristiano Maronna, presidente do Instituto Brasileiros de Ciências Criminais.

Há mais de 620 mil presos no sistema em que cabem 400 mil. “São campos de concentração onde a tortura é sistemática”, afirma Maronna. O Massacre do Carandiru é o símbolo da violação de direitos dos presos.

É a gestão penal da miséria em que o sistema de justiça criminal atua como protagonista da manutenção dessa situação violadora sistemática. “Tudo isso é uma opção que tem no hiperpunitivismo as ferramentas que permitem esse tipo de gestão. O sistema de justiça criminal precisa ser repensado e orientado segundo outros critérios.”

De acordo com Maronna, a prisão é o monumento ao fracasso do processo civilizatório. Por isso a urgente necessidade de diversificar as formas de punir e evitar a prisão como regra. “Os excluídos têm a prisão como destino”, conclui.

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  1. Senhor da Paz!

    02/11/17 at 16:38

    achei foi pouco! Se tava la é porque boa gente não era!

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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