Um Bem Viver

A bioconstrução e seu impacto sócio-ambiental

Voluntários do primeiro mutirão e a dona Alzira, comemorando que a casa estava sendo finalizada

No final de 2017, após muita luta, na maior comunidade da América Latina (Sol Nascente), o Movimento de Trabalhadores Sem Terra (MTST) recebeu 109 lotes do governo estadual do Distrito Federal. Mas a justiça decidiu que eles construíssem em 90 dias alguma edificação no território.

Thiago Ávila, militante do PSOL, era próximo do MTST, assim como de movimentos ecológicos, especialmente de bioconstrução. Assim, ele chamou seu amigo João Ninguém, especialista em bioconstrução, para ajudar. Para que houvesse mão de obra suficiente, já que não tinham dinheiro, criaram um evento pelo Facebook, convidando pessoas, mesmo sem conhecimento prévio para a a iniciativa. Eles ensinariam ali a bioconstrução.

Então começaram a construir a casa para uma senhora chamada Alzira, de 60 anos que não tinha dinheiro. A casa ficou pronta em 90 dias, com o trabalho voluntário das pessoas que se organizaram a partir da chamada nas redes sociais.

Pintura do mural no Recanto dos Encantados, território indígena. Crédito: @CarolinaBruzzoneFotografia

Os participantes do mutirão inicial se organizaram em um grupo chamado Bem Viver, que atualmente faz as chamadas para outras bioconstruções realizadas em grupo.

O objetivo do projeto, segundo o grupo:

‘(…)É construir uma sociedade do Bem Viver, livre de todas as opressões, exploração e destruição do Planeta (…) A mudança climática deriva essencialmente da grande produção de gases efeito estuda e do desequilíbrio do ciclo hidrológico. Nesse sentido, podemos dizer que o uso indevido de matérias primas e recursos naturais, o uso excessivo de água, uso excessivo de derivados do petróleo, produção exponencial de resíduos orgânicos são fatores que influenciam essas mudanças. A permacultura tem entre seus princípios o uso de materiais comuns no local da construção, e utilizar soluções baseadas na natureza.’

Até agora foram realizados três mutirões: o primeiro, no Sol Nascente (com o MTST), outro em Planaltina (com o MTST) e um em Sobradinho (Recanto dos Encantados/território indígena).

Eles explicaram que cada projeto tem seus objetivos específicos.

O primeiro projeto visa mostrar as famílias do MTST que é possível construir uma casa de forma ecológica, por um preço muito mais viável do que construída na forma tradicional. O investimento foi de cerca de 3 mil reais, em uma casa com sala, cozinha, banheiro e um quarto. A verba para a construção foi arrecada por meio de um financiamento coletivo virtual.

Já no segundo mutirão, em Planaltina (DF), a verba era das famílias, já que seria impossível arrecadar dinheiro suficiente para construir as 59 casas.

Ainda assim, um financiamento coletivo foi criado, para a compra de ferramentas e construção de um centro comunitário.

O projeto do Centro Comunitário do MTST, no entanto, está recebendo recursos do Fundo Sócio Ambiental Casa, graças ao apoio de uma ONG que cedeu o CNPJ para que o grupo pudesse participar do edital. O projeto segue  em desenvolvimento. Em nenhum dos dois mutirões havia um local para que pudessem cozinhar refeições aos colaboradores, ou, para que pudessem dormir. Como em qualquer construção, o trabalho começava cedo.

O último mutirão ocorreu entre dezembro de 2018 e janeiro deste ano, no Recanto dos Encantados (Sobradinho/DF), território indígena e apresentou uma nova dinâmica, já que tinha um local de apoio, mas sem banheiros e água encanada, por isso fizeram banheiros secos e uma base em bambu para a caixa d’água. A questão de gênero nesse trabalho foi mais explorada: aconteceu a divisão de tarefas igualitárias entre homens e mulheres,  ambos cozinhavam e cuidavam das crianças. Os participantes disseram que o acúmulo de experiência com esse último mutirão foi maior.

Foto do primeiro mutirão, ainda no estágio inicial

Para Cecília Sampaio, participante de todos os eventos, ‘foi uma nova percepção de construção, visto que sou engenheira e tinha vasta experiência em construções convencionais de grande porte, a construção coletiva, baseada em soluções da natureza é mais atraente e tem forte apelo ambiental. Fora as várias amizades e experiências de trabalhos manuais.’

Na bioconstrução a produção desses gases é menor, graças ao uso de materiais encontrados in loco, diminuindo não apenas o custo em produção e transporte como a emissão de poluentes e produção de gases de efeito estufa. ‘ A popularização dessas técnicas e a reprodução delas em outros locais pode contribuir para redução na produção de entulhos de obras, dado o baixo consumo de cimento nesse tipo de edificação, bem como no fomento da utilização de materiais sustentáveis nas construções’, relatou o grupo.  

Ou seja, a valorização de técnicas de bioconstrução e permacultura junto à população, o resgate de técnicas tradicionais e a apresentação de técnicas novas é uma parte importante do projeto Bem Viver, que também visa à conscientização ambiental, a luta contra a mudança climática. Outro fato que se destaca é a independência que o mutirão cria em relação ao Estado e mesmo as indústrias de construção.

Apenas na União Europeia, em 2013, a construção era responsável por 11.3% dos gases efeito estufa.

Vida longa à bioconstrução!

Foto dos voluntários no último mutirão

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