Último grito de alerta: o amor antes do fascismo

Não há dor maior do que a de ver a vida da Mátria escorrer pelos dedos. É como carregar no peito uma pesada ampulheta de areia, a avisar que o tempo se esvai...

FOTOS: TAMIRES DUTRA

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

(Vinícius de Moraes)

“Aproveite, esta pode ser a sua última manifestação de rua antes do fascismo”. Enquanto eu mantinha as mãos e o olhar concentrados na transmissão de um ao vivo para os Jornalistas Livres, um companheiro sussurrou essa profecia nos meus ouvidos. Com o tom grave dos que compreendem a política pela intuição, ele se foi antes que eu pudesse reconhecê-lo. Num misto de dor e alegria cívica, a festa democrática no espaço histórico de lutas do Largo da Catedral parecia cumprir essa profecia. No pesar de uma tragédia iminente e a esperança fortalecida pelo reencontro nas ruas, o povo celebrou o amor pela Mátria e respirou a liberdade como se fosse pela última vez. As cenas se alternavam entre a confiança na virada, a quase catarse, e a melancolia de quem adivinha a sobrevivência rara da democracia. De um lado, um sorriso de conforto do abraço amigo, do outro, as lágrimas, até o pranto sacudido, de quem teme a despedida do amor.

No sábado foi o culto ecumênico da infinita diversidade humana, o axé em roda gigante, o cordão colorido de mãos dadas no largo da matriz, recebendo as bênçãos do canto sagrado dos escravos negros. Ondas de paz, de alegria e de esperança vibraram nas praças brasileiras em cada canto do país. No domingo, o peito afrontado de dor, compungido de ofensas, barbarizado pelas ameaças do homem, pela covardia dos que têm o dever de defendê-la. Pelas redes sociais, a Mátria assistiu a reencarnação do ódio mobilizar à distância uma multidão de adoradores da violência na avenida Paulista, em São Paulo, ou na avenida Beira-mar, em Florianópolis.

Não há dor maior do que a dor pela Pátria. A aflição de ver a vida da Mátria escorrer pelos dedos. É como dormir em pesadelo. É como carregar no peito uma pesada ampulheta de areia, a gritar que o tempo se esvai…  Um imperativo com a ordem de consciência: o que mais você pode fazer pra salvar o seu amigo, o seu parente, o seu vizinho, a sua mátria? É como caminhar com um despertador gritando por dentro: acorda teu povo, antes que seja tarde, acorda, acorda! O que fazer para remover a parede de vidro para que ele ouça os gritos dos irmãos e irmãs que ainda ecoam no calabouço, para que ele ouça o clamor da história, o chamado de amor da democracia? 

Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar

(Sophia de Mello Andresen)

* * *

Um mar de gente fez as ruas de Florianópolis a sua praia neste sábado de sol de 26°: 10, 15 mil pessoas no momento de ápice. “Só conhece a derrota aqueles que não lutam, aqueles que desistem”. Fortalecendo a confiança na virada, sem tirar a gravidade histórica do momento, o presidente do Partido dos Trabalhadores, Décio Lima, repetiu as palavras do líder uruguaio Francisco Mujica para acolher a multidão que crescia ao redor do Largo da Catedral e da Praça XV sob o sol do meio-dia. O ato Mulheres Com Haddad Pela Democracia, organizado pelos coletivos feministas com o apoio de vários outros movimentos sociais, formou na Praça uma grande roda da diversidade, com negros, grupos LGBTI, artistas populares, indígenas, mulheres, crianças, idosos, trabalhadores e estudantes de mãos dadas, dando um axé para salvar o país da forte ameaça de retrocesso aos piores tempos do autoritarismo com um candidato de discurso neonazista.

A presença massiva da juventude estudantil marcou a manifestação, que levantou a bandeira da Ditadura Nunca Mais, da educação pública, dos direitos humanos e trabalhistas, da proteção às riquezas nacionais e ambientais, do verdadeiro patriotismo, enfim. Os jovens empunharam com fervor a defesa da Amazônia e do petróleo. Foi um movimento de quantidade, mas sobretudo de qualidade de vibração.Nas ruas, ninguém esqueceu a denúncia de fraude e lavagem eleitoral pelo caixa 2 da campanha de Bolsonaro: a farsa dos algorítimos pelo Caixa 2 patrocinado por empresários catarinenses envolvidos em inúmeras contravenções, como o bilionário Luciano Hang, dono da Havan, foi escancarada nos cartazes, faixas, refrões. Nove cidades de Santa Catarina realizaram atos contra a ameaça neonazista do candidato que usa Fake News nas redes sociais para disseminar o ódio, a mentira e roubar a democracia e as riquezas nacionais: Florianópolis, Balneário Camboriú, Blumenau, Joinville, Jaraguá do Sul, Itajaí, Criciúma, Araranguá e Caçador.

A concentração iniciou às 10 horas, com apresentação de esquetes teatrais, bandas musicais, e ritmos africanos, discursos emocionados se alternando no palco em frente a Praça XV e animando o grito do Ele Não. Já eram 15 horas quando o último grito pela democracia culminou com uma marcha gigantesca, alegre, pacífica e colorida pelas avenidas Paulo Fontes, Hercílio Luz, Mauro Ramos e Praça Tancredo Neves. O som dos tambores de maracatu e dos grupos de cultura popular ecoou pela cidade, fazendo redobrar o ânimo pela virada. Mas o coração de cada militante da democracia alimentava a certeza de que diante da derrota ou da vitória, não poderão mais deixar as ruas. Elas, e não as galerias virtuais, serão o espaço de reconstrução da vida política brasileira nos próximos anos.

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Um comentário
  • LUIZ HORTENCIO FERREIRA
    22 outubro 2018 at 11:35
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    Se tivesse ocorrido uma união das esquerdas (todas com super-ego), não estariamos nessa situação incomoda de estarmos correndo o risco de eleger um projeto fascista.
    Mas é dificil congregar as mesmas idéias num povo tão dividido e com dúvidas sobre o que ele mesmo é.
    Tem pobre se achando rico. Tem mulher achando que o machismo não existe e que não vai existir. Tem negro achando que no Brasil não tem racismo e que o candidato do militarismo vai respeitá-los. Tem muita gente votando no fascismo, contra o comunismo, sem nem saber o significa comunismo. Tem jornalistas por aí, alguns que até já foram perseguidos e até torturados pelo regime militar dos anos 70 e mesmo assim está defendendo esta candidatura absurda do tal Bolsonaro. Enfim, tá dificil de reverter essa situação caótica que se criou em nosso país e se valer pesquisas, estamos prestes a entrar numa escuridão que achávamos ue nunca mais veríamos.
    É triste ver nosso país nesta situação, enquanto deveríamos estar falando e discutindo o futuro , com assuntos de cultura, tecnologia e melhorias e não perdendo nosso tempo falando e tentando desfazer uma coisa que com certeza vai nos levar a um imenso retrocesso de anos.

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