Texto lido por Gregório Duvivier no sarau contra a censura no ensino

Veja trechos em vídeos desta fala e leitura da carta contra censura.

Texto lido por Gregório Duvivier no Sarau Contra a Censura no Ensino, realizado hoje na Praça Duque de Caxias, no bairro Santa Tereza.

“Esse protesto era por causa do cancelamento de uma prova. Uma professora que escolheu um texto meu, e foi cancelada e hoje que todos vocês conhecem a história. Mas nos tempos de hoje é impossível protestar contra uma coisa só. Os motivos vão se acumulando na nossa mesa. É impossível não falar deles. Desde a proibição absurda daquela prova, aprovaram o Escola Sem Partido, que não tem nada a ver mas tem tudo a ver. Eles tem muito medo da liberdade. E chama de partido a liberdade do professor de ensinar, e do aluno de aprender. Eles não querem criar gente, eles querem criar gado. Mas não vão conseguir. Já não estão conseguindo. Graças a gente como Manoela e Beatriz, que organizaram um movimento de reação mil vezes maior do que o dos poucos pais incomodados com um palavrão, ou com uma crítica a um governo que, ao que parece, só mesmo eles ainda não entenderam que já naufragou.

Alguns justificaram que Minas era careta. E isso eu não aceito, porque Minas que eu conheço é tudo menos careta. Pra começar, aqui nasceu a inconfidência, foi aqui o primeiro lugar em que se sonhou com um país mais justo, antes mesmo de existir um país. Antes da vontade de Brasil, nasceu a vontade de liberdade, e ela nasceu em Minas Gerais. Toda revolução que se fizer nesse país vai ser filha da inconfidência. Toda revolução será mineira, ou ela não será.
Eles falam da tradicional família mineira, mas a tradicional família mineira pra mim é a família Souza, de Betinho, Henfil, Chico Mario, Glorinha, Filó, Wanda, Tanda e Ziláh.

Ah, mas aqui elegeram Aécio Neves, e eu digo que foi aqui que fizeram a Revolta de Carrancas, o Levante de Bella Cruz, a revolta de Vila Rica, o . Foi desse Estado que saiu Carolina de Jesus, foi essa cidade que pariu Conceição Evaristo. Nunca em nenhum lugar do mundo a língua portuguesa foi tratada com tanto carinho quanto aqui. Guimarães Rosa, Drummond, Cacaso, Ricardo Aleixo, Adelia Prado, Ana Maria Martins, Grace Passô.

Toda vez que falarem de alguma vocação conservadora de Minas, ou do Brasil, eu vou lembrar dos alunos do Loyola, que não se curvaram e fizeram um levante que tornou ridícula a vontade de censura.

A crônica em questão falava exatamente disso, da necessidade de converter a tristeza em ação, e não se deixar paralisar pelo medo. O medo é a arma do fascismo. E pra citar um mineiro, que certamente seria proibido nesse governo, porque conta em sua obra-prima, Grande Sertão Veredas, a história de um amor transsexual, “O que a vida quer da gente é coragem!”

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