Sobre política, distração e destruição

Por Silvio Almeida - Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Presidente do Instituto Luís Gama

A distração e o poder que está oculto Foto: EPA/JOEDSON ALVES

O atual governo tem três núcleos:

1. O ideológico-diversionista. Serve apenas para manter a moral da “tropa” em alta, dando representatividade e acomodação psicológica a quem realmente acredita que o Brasil é socialista, que existe ideologia de gênero ou que a terra é plana. Serve também para causar indignação e tristeza nos “progressistas” e, assim, desviar a atenção das questões centrais manejadas pelos núcleos 2 e, especialmente, pelo 3. Pode também ser utilizado para criar bodes expiatórios: se algo der errado em qualquer setor dir-se-á que foi porque não houve “pulso” para combater a ameaça vermelha, os defensores dos direitos humanos ou os apologistas da ideologia de gênero. Basta trocar por outro mais moderado ou ainda mais alucinado, a depender das circunstâncias. Por mais que haja oportunismo, é importante que os recrutas desse núcleo acreditem nas coisas que dizem. É o exército de Brancaleone, mas causará muitos estragos.

2. O policial-jurídico-militar. Aqui não tem brincadeira e nem folclore. Acabou o circo. Gente profissional, que sabe operar a máquina repressiva. Vai garantir a materialidade das loucuras do núcleo 1 eliminando os críticos e dando corpo aos “inimigos da pátria”, provavelmente por meio do processo penal. Mas também irá este núcleo abrir espaço para a concretização das medidas no núcleo 3. Aqui não tem arminha com o dedo. É arma de verdade. É cadeia. É destruição física e moral.

3. Por fim, o núcleo econômico. Aqui está o nervo. Aqui a terra é redonda; não tem fala contra a globalização; ninguém acredita que exista socialismo no horizonte. Aqui a turma estuda, tem PHD e já leu Marx. Aqui “dinheiro não fede”, podendo vir dos EUA, da China ou da Rússia. Os direitos trabalhistas, a previdência, a assistência social, a saúde e a educação irão para o vinagre a partir daqui e não pelas mãos da turma do “menino veste azul e menina veste rosa” (que baita distração, hein?). Daqui vem a ordem para por agrotóxico na comida, retirar terra de índio e quilombola, afrouxar licenciamento ambiental e garantir o sequestro dos bens públicos e do orçamento. Para esta turma, o resto é tudo lateral. Depois de feito o trabalho, será até possível o núcleo 2 pegar mais leve. Até essa coisa de direitos humanos pode voltar. E assim o núcleo 1 se torna dispensável. Depois que tudo for (des)feito, pode vir uma pessoa “sensata”, um liberal, uma versão made in Brazil do francês Macron para reestabelecer a “racionalidade”, a “democracia” e o “estado de direito”.

P.S. Edit para evitar incompreensões: toda ideologia é “distração; é próprio da ideologia distrair. E são essas distrações que matam pessoas e destroem vidas. Nesse sentido, o racismo é a “distração” necessária do colonialismo e da desigualdade; a bobagem dita sobre a “ideologia de gênero” é a distração do patriarcado e do domínio masculino, que só o feminismo pode quebrar. O sem sentido do combate ao “marxismo cultural” e o “escola sem partido” são a distrações para desmoralizar a crítica e a apresentação de alternativas políticas. Para dominar a economia é fundamental que se exerça poder sobre os corpos, sobre as identidades, sobre o gênero e a sexualidade. É necessário que alguém diga o que você é para a economia funcionar. Isso implica que a ideologia mata e deve ser capaz de matar, e para tanto existe o núcleo 2. Esse texto, portanto, é simplesmente para chamar a atenção sobre o que NÃO está sendo dito e não sobre o que está sendo vocalizado.

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3 comentários:
  • João Mauro Uchôa
    4 janeiro 2019 at 19:32
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    Quem escreveu esse artigo? Foi o professor da FGV ou os dois repórteres / redatores do site? Do jeito que foi publicado está confuso.

  • Roberto
    5 janeiro 2019 at 9:52
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    É realmente necessário abrir bem os olhos. A chamada “grande mídia” – da tv principalmente, contribui para ampliar a distração causada pelas “frases de efeito”, um grande besteirol que esse povo do novo Governo fala. Mas é preciso ficar muito atento ao que virá da UDR no poder com apoio do superministro do “fim da Justiça”, do “dono da Constituição”, esse Moro que faz o que quer e deixará seus coleguinhas agirem como bem entenderem, eles não se adaptam a agir pela Lei, eles adaptaram a Lei a seu agir. Ingenuidade alguém imaginar que algum órgão do judiciário, irá intervir para frear esses caras. A última esperança, a mais realista, pelo que vejo, será a ida às ruas, sob forte repressão, teremos que ir às ruas, …

  • Arnaldo
    7 janeiro 2019 at 9:41
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    Bom texto. Muito bom. Um pecado apenas, digno de nota: O crédito para a foto. Acho que a vi n’O Globo. O Jornalistas Livres não pode se comportar como os sites de direita radical. Tem obrigação de citar a fonte ou de dizer, ao menos, que não a conhece.

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