Sem rumo na estação

Por Rogério Marcondes, dos Jornalistas Livres

Por Rogério Marcondes

Se parado na plataforma do metrô você, como eu, fica inquieto com o atraso do trem e com a evolução histórica do nosso pais, uma boa leitura talvez seja o livro Rumo à Estação Finlândia, escrito por Edmund Wilson.

Publicado em 1940, nos EUA – quando esse pais ainda observava a II Guerra Mundial à distância – o livro descreve a evolução do socialismo revolucionário desde os escritos sobre a Revolução Francesa até 1917, quando Lenin chega de trem em Moscou, na Estação Finlândia, e é ovacionado pelos companheiros revolucionários na sala de espera que era exclusiva da família do czar.

Durante a leitura encontramos incômodas semelhanças com a nossa realidade. O autor conta que o pai do Lenin era trabalhador dedicado e eficiente – como responsável pela rede escolar de uma província russa ele abriu mais de 450 escolas -, mas isso não o impediu de ser precocemente aposentado pelo novo czar, ultra reacionário, Alexandre III, cujo ministro da educação despediu “professores liberais e excluiu estudantes suspeitos” e “proibiu que fossem instruídos os filhos de cozinheiras”. Ao ler isso, é impossível deixarmos de lembrar as falas do nosso atual ministro da educação, que afirmou ser um absurdo que o filhos de agricultores entrem na faculdade “e, quatro anos depois, voltem com o título de antropólogo!” – oxalá que um desses filhos venha, no futuro, a se transformar num líder revolucionário!

Outra semelhança, agora com o nosso passado recente de ampliação do consumo popular, é quando Wilson observa que, numa sociedade industrial, quando o povo oprimido melhora seu padrão de vida, suas ambições mudam, elas se “aburguesam”, e esse povo “se transforma em algo muito diferente da concepção que Marx tinha do proletariado”. Isso daria origem a uma sociedade “mais homogênea” e “mais anárquica” porque “a capacidade de tomar decisões, é distribuída de modo bem mais homogêneo”. O modelo desse tipo de sociedade, para Wilson, era a “democracia americana” que ele conheceu no pós guerra.

Wilson, acredito, seria sensível ao aspecto falacioso que essa democracia revelou possuir ao longo do século, a ponto de se tornar uma justificativa doutrinária para expansão imperialista – sendo Nagasaki e Hiroshima suas primeiras manifestação e a Venezuela, a última. Ele criticava aqueles que tinham demasiada fé no mecanismo histórico, que acreditavam que bastaria colocá-lo nos trilhos corretos para que os privilégios de classes fossem abolidos. “Para realizar essa tarefa”, ele escreve, “precisamos exercitar ao mesmo tempo – constantemente nos adaptando às diferentes circunstâncias – nossa razão e nossos instintos”.

Voltando à plataforma do metrô, é bom mesmo ficarmos inquietos, pois nada garante que o trem da história vá passar por ali, para nos servir.

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