População na Irlanda aprova casamento igualitário e coloca em xeque o poder da Igreja

por Acássia Deliê, Júnior Milério, Patrícia Diotto e Wenner Tito, especial para #JornalistasLivres

Foto: Pedro Machado

62% dos irlandeses disseram sim em uma decisão inédita tomada por decisão popular

Quem andou pelas ruas da Irlanda nos últimos meses se deparou com uma disputa de espaço entre placas de Sim e Não. Isso porque o dia 22 de maio de 2015 já entrou para a história do país. Um referendo inédito no mundo colocou nas mãos da população o poder de decidir pela aprovação, ou não, do casamento civil igualitário, o famoso casamento gay.

Foto: Caio Bibiano

Com 62%, a vitória do Sim foi chamada de “esmagadora” por jornais irlandeses e também em um comunicado do tradicional partido de esquerda, o Sinn Féin.

A Irlanda, que até 1993 criminalizava a homossexualidade, acaba de entrar para o grupo de apenas 20 países, que desde 2010 inclui o Brasil, onde pessoas do mesmo sexo estão asseguradas perante a lei para se casar.

Na Irlanda, o voto não é obrigatório. Mesmo assim, mais de 3,2 milhões de eleitores foram às urnas no país, e em somente uma região, entre as 43 áreas de votação, o Sim perdeu. A adesão da juventude foi massiva e importante para a campanha chamada Yes Equality. A mais famosa drag queen da Irlanda, Panti Bliss, codinome para o ativista irlandês Rory O’Neill, 47, lembra que os últimos meses foram difíceis para gays, lésbicas e transexuais irlandeses. “Quando andávamos pelas ruas e víamos as placas de Não, parecia algo pessoal, pois as pessoas estavam falando sobre você e muitas vezes te desvalorizando”.

A campanha pela igualdade ganhou ainda mais visibilidade quando, no começo deste ano, o atual ministro da saúde, Leo Varadkar, assumiu publicamente sua homossexualidade. Pelas ruas, voluntários se empenharam em pedidos de voto, reuniões, comícios e, inclusive, batendo de porta em porta. Panti conta que foi encorajador ver a comunidade gay se unindo e recebendo apoio de mães, estudantes e heterossexuais.

União Civil versus Casamento Igualitário

Na Irlanda, desde 2010, gays e lésbicas já podem praticar a união civil, porém, há diferenças entre união civil e casamento como a proteção do segundo pela Constituição e a adoção de crianças, o que levantou grande parte da polêmica entre Sim e Não.

Foto: Caio Bibiano

Com a vitória do Sim, anunciada em clima de festa no Dublin Castle, região central de Dublin, capital do país, na tarde do último sábado, 23, o passo seguinte será a alteração do artigo 41 da Constituição. A partir de então, haverá uma especificação, na qual o casamento se dará, de acordo com a lei, entre duas pessoas sem distinção de sexo. O governo estima que entre todos os trâmites, a atualização deve entrar em vigor em cerca de três meses.

Na Irlanda, toda emenda constitucional é colocada em votação pública. Também na última sexta-feira, 22, irlandeses decidiram por manter a idade mínima de 35 anos para ser presidente do país, indo contra a proposta de redução para 21 anos de idade.

Pesos e Medidas

De um lado, a campanha em prol do casamento igualitário pedia igualdade de direitos, ressaltando que se trata de um casamento civil e, portanto, não afetaria matrimônios religiosos. Do outro, a campanha pelo Não reivindicava o direito de uma criança ter um pai e uma mãe, entre outros argumentos.

O período de campanha foi marcado por polêmicas de diversas naturezas. Em placas espalhadas pelo país, uma imagem sem autorização foi associada ao Não. No entanto, pai e mãe que aparecem na fotografia se manifestaram em um comunicado oficial, esclarecendo que além de não terem permitido o uso da imagem, apoiam o casamento igualitário.

Entre os argumentos do Não, insinuaram, por exemplo, que a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo poderia abrir uma brecha e que, no futuro, poderia ser aprovada uma lei para barriga de aluguel, o que criaria um tipo de mercado para “encomenda de crianças”.

Tradição Religiosa

Com a vitória do Sim, há preocupação por parte da Igreja Católica, que já esboça uma reação à resposta do plebiscito irlandês considerando fazer “uma revisão da realidade”, de acordo com entrevistas concedidas pelo bispo Diarmuid Martin. Posicionamentos de católicos como o do auditor fiscal Rob Hanlon, 26, é um exemplo. Para Hanlon, “a orientação sexual de uma pessoa não pode defini-la aos olhos da lei. Não há motivos para eu poder casar e alguns dos meus amigos não”, diz.

A juventude questionou paradigmas de tradição na hora de votar. Andrew Keneddy, professor, 26, diz, “eu não considero opiniões religiosas em questões sobre igualdade”, afirmou.

“A sua religião não deve afetar a felicidade dos outros. Se eu tiver filhos homossexuais quero que eles possam se casar com quem amam e sejam vistos como um casal perante a Constituição”.

Hillary Fagan, jornalista e membro do grupo religioso Mothers and Fathers Matter, diz que na própria Constituição consta que “nenhuma autoridade é maior que a da família”, e o casamento seria o início da criação de uma família. “É a união entre um homem e uma mulher com o objetivo de procriar. Não queremos que isso seja alterado”.

Para a enfermeira e eleitora do Não, Lucy McDonald, 57, a preocupação em “proteger as crianças” a motivou a votar contra o casamento igualitário. Mesmo motivo de sua colega de profissão, Karen Ludden, 24. “Não sou contra gays, mas devemos preservar o direito natural de crianças terem um pai e uma mãe”, diz.

Foto: Acássia Deliê

A influência do cristianismo na Irlanda é confirmada por números. No último censo, de2011, 90% da população se declarou cristã, sendo 84% da Igreja Católica Apostólica Romana. O cristianismo está enraizado na cultura irlandesa de modo que a festa mais conhecida do país é a comemoração do Dia de São Patrício, santo católico e padroeiro da Irlanda. Além disso, a maior parte das escolas públicas é administrada por membros da Igreja.

Uma vez que a Igreja Cristã considera a homossexualidade pecado, organizações religiosas envolveram-se diretamente na campanha em prol do Não, entre outros motivos, baseadas nas suas convicções de fé. O pastor Samuel Mawhinney, da Igreja Presbiteriana, diz que a definição de casamento dada por Deus, no livro Gênesis, da Bíblia, corresponde a uma união entre um homem e uma mulher. “Jesus reforçou isso nos evangelhos e o apóstolo Paulo usou o casamento entre homem e mulher para representar a relação entre Jesus Cristo, o noivo, e a Igreja, a noiva. Para mim, isso é casamento”.

Mawhinney não hesita em justificar sua campanha em crença religiosa. Porém, rebate o argumento de que a Igreja não deve se envolver em uma questão sobre direitos civis. Para ele, uma vez inserida na sociedade, a Igreja também deve participar do debate. “Mesmo entre cristãos, muitos acreditam que Estado e Igreja devem ser totalmente separados. Eu acredito que Deus está na sociedade, mesmo que a sociedade ignore o que Ele diz.”

“A Irlanda não é governada pela Igreja Católica”, Panti Bliss

Em um texto para o jornal irlandês The Independent, Panti defendeu que a Irlanda não é um país governado pela Igreja Católica. E depois de visitar o Dublin Castle, onde o anúncio oficial do governo irlandês foi feito em uma tarde de sol com direito a arco-íris no céu, a drag queen foi recebida com salvas de palmas e clima de festa em seu pub, Pantibar, na região central da cidade. Uma multidão se aglomerava no cruzamento aos gritos de “Queen of Ireland” (Rainha da Irlanda), que também escreveu, “essa é uma luta de mais de 40 anos, e eu sinto como se tivesse pedido a Irlanda em casamento, e todos me disseram sim!”.

Colaboraram: Fernanda Machado e Mariana Gasparetti

Foto: Pedro Machado
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LGBT
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