O que os gritos de #ForaCunha em Manaus têm a dizer sobre política no Amazonas

Ato contra Eduardo Cunha em Manaus. Foto: Kevin Tomé/Mídia NINJA

 Por Allan Gomes, para os Jornalistas Livres

Desde que assumiu a presidência da Câmara, no início deste ano, Eduardo Cunha e sua tropa agem como um rolo compressor. Suas posições são impostas na câmara lastreadas por um maioria consolidada por meios, no mínimo, duvidosos visto que conseguem vitórias em votações de uma forma que não tem relação com os posicionamentos dos partidos. Talvez a postura de Cunha seja só a face explícita de uma forma de se fazer política, a forma que sufoca opiniões e minorias para fazer parecer que essas não existem. No xadrez político nacional a região Norte é assim encarada, com suas demandas encontrando apenas ouvidos moucos e suas populações tendo que gritar cada vez mais para se fazer ouvir.

Metáforas de lutas desiguais em que pequenos derrotam grandes se somam aos montes ao longo da história. É esse tipo de narrativa que impulsiona os poucos que erguem suas vozes na capital amazonense contra o projeto político que o presidente da Câmara representa. Nesse mês, em dois momentos, Manaus foi palco de manifestações contra Eduardo Cunha: na quarta-feira, 11, e na sexta-feira, 13.

Mulheres marcharam em direção à Assembleia Legislativa do Estado, em Manaus. Foto: Junior Moraes/Mídia NINJA

Somando-se a movimentações — também de pequenos, por serem “minorias” — por todo o país, mulheres de vários movimentos marcharam na quarta ao longo da avenida Recife, indo da frente da delegacia da mulher até o prédio da Assembleia Legislativa do Estado. Em suas pautas e demandas, vozes femininas do movimento sem teto, da juventude socialista e do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher. Antes de iniciar a marcha, uma grande roda com as palavras de ordem: “Oh companheira me ajude, que eu não posso andar só. Sem você eu ando bem, mas com você ando melhor” e esse foi o tom até à ocupação do plenário da ALE-AM.

O que teria deixado as mulheres por todo o Brasil tão indignadas com Eduardo Cunha? Dentre a agenda de retrocessos que o deputado tem encabeçado a frente da Câmara como a Redução da Maioridade Penal, a revogação do Estatuto do Desarmamento, e até uma cínica reforma política que só reforça os vícios do sistema, certamente o PL 5069/13 é o que dá ares mais medievais para a atuação do congresso mais conservador da história brasileira.

Representantes do movimento feminista compareceram ao ato. Foto: Kevin Tomé/Mídia NINJA

Não a toa, dentre as faixas empunhadas uma se indignava “Não acredito que tenho que lutar por isso em pleno 2015”. O PL, de autoria de Eduardo Cunha, dificulta o acesso de vítimas de estupro à atendimento, além de dificultar o acesso a métodos contraceptivos, dentre outros retrocessos. Ora, essa proposta já não seria mais do que suficiente para que multidões se reunissem para impedir o ataque a direitos conquistados? Não com o véu de silêncio que há sobre o que se passa na Câmara dos Deputados.

Ato contra Cunha foi realizado no Centro de Manaus. Foto: Kevin Tomé/Mídia NINJA

Historicamente a bancada federal do Amazonas foi incapaz de conectar o que se passa em Brasília com o dia a dia da população amazonense. Não é de se estranhar que muitos dos políticos de carreira considerem uma derrota um mandato na Câmara ou no Senado e busquem, logo que possível, retornar à disputa de cargos executivos locais. Essa desconexão acontece também em via dupla. Nenhum dos representantes amazonenses parece ouvir — ou se importar — com qualquer que sejam as demandas locais que possam repercutir em Brasília fora os interesses econômicos que sustentam a Zona Franca. Nesse contexto, não é de se espantar que nas principais votações de interesses de Eduardo Cunha a bancada do Amazonas vote em peso com o deputado.

O que se viu neste mês não foi um fato isolado, afinal, além da mobilização de quarta-feira, na sexta, 13, diversos movimentos foram à Praça da Matriz para, novamente, marcar posição contra a pauta atual do Câmara, na figura do seu presidente. Se na primeira manifestação as vozes eram, em sua maioria, femininas, na segunda era a juventude que dava a tônica. O movimento de mulheres Olga Benário e o Levante Popular da Juventude se fizeram presentes, e fizeram barulho. Os trabalhadores populares da região, geralmente indiferentes às pautas política costumeiramente debatidas na praça, não se furtaram de também pedir o microfone do carro de som e apresentar suas demandas

 Ato contra Eduardo Cunha em Manaus. Imagens: Dirce Quintino/Jornalistas Livres

Como todo momento de ebulição, os pedidos em Manaus pela saída de Eduardo Cunha transbordaram e atingiram o prefeito da cidade, Arthur Virgílio (PSDB-AM). Em dado momento uma vendedora ambulante tomou a palavra e aplaudiu o prefeito por “ter criado o maior banheiro público a céu aberto”. A ironia referia-se à obra de restauração da Praça da Matriz, prevista para ser entregue antes da Copa de 2014 e que até agora não foi concluída.

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