O Peabiru da mina e seus códigos

O Peabiru era caminho antigo de ida e volta de muitos povos em trânsito na América do Sul. Após tantos passantes no saque constante do continente, a luta hoje aqui é a criação do Parque da Fonte.

Campanha pela criação do Parque Fonte. Foto: Hélio Carlos Mello/Jornalistas Livres

Fotos e texto por Helio Carlos Mello e vídeo de Sato do Brasil e Iolanda Depizzol

O morro se chama Querosene, mas na designação indígena o lugar era Pirajussara. Seus códigos são de magia nas ruas Padre Justino e Cícero Alencar. Pouso de bandeirantes em tempos remotos, como sugere estudo da arquiteta Fernanda Accioly Moreira, espaço residual da suburbana vida e natural viver, simples assim, onde o uso do tempo é distinto e o espaço urbano acolhe prosas. Encontro de culturas aqui respira a cidade imensa, lugar de água limpa de fonte, caminho antigo de índio, rumo dos Andes ao Atlântico nos mitos do bairro. Por toda paz presente em tudo paira a ameaça a esse mundo possível, onde negócios travam a amarga trama das vontades imobiliárias no apetite dos mercados.

Simples casas trazem ainda na fachada um velho pé de louro entrelaçado ao jasmim manga. Um pé de maracujá que se enrosca em portão da garagem, denunciando que ali não entram carros. Vasos com boldo ou comigo-ninguém-pode, de bromélias ou samambaias ocupam varandas.  O sossego no bairro é pleno e o barulho da cidade, distante. Um leve som dos cantos dos pássaros ouve-se a todo momento e anunciam que estamos numa ilha urbana.

Antigo mapa que descreve o traçado do Peabiru. Foto: Hélio Carlos Mello/Jornalistas Livres

Antigo mapa que descreve o traçado do Peabiru. Foto: Hélio Carlos Mello/Jornalistas Livres

Curioso saber que aqui era rota de índios, o Peabiru: caminho antigo de ida e volta dos muitos povos em trânsito na América do Sul. Após tantos passantes no saque constante do continente, a luta hoje aqui é a criação do Parque da Fonte no amplo terreno que guarda farta mina d’água.

Moradores me olham com atenção a fotografar desenhos nas paredes e muros diversos, artistas habitam esse solo, é evidente. Adentro em velho boteco, descubro que Raul Seixas fez ali o mesmo gesto muitas vezes. Botecos são a academia do povo.

Uma senhora de fala doce e sorriso nos olhos se aproxima e conheço Dona Benê, Benedita de Mello, a se pronunciar em minha pauta: “não podemos pegar a água de São Paulo e passar cimento por cima, eu como brasileira me envergonho. A gente tem que acordar, as águas que temos aqui são o pulmão do Butantã. A sede é de todos”, conclui.

A fonte no Morro do Querosene, na Zona Oeste de São Paulo, serviu a muitos por séculos, resistiu aos prédios, aos shoppings, às ocupações dos homens. Se aqui o parque é sonho dos homens a água que corre é o pranto da cidade.

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