NOTA SOBRE OCUPAÇÃO DA PUC-SP

Em nota alunos que ocuparam a PUC-SP explicam como se deu o processo de ocupação

Após cinco dias ocupando o principal campus da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) pela contratação daquela que seria a primeira professora negra do curso de Serviço Social, os estudantes foram forçados a desocuparem na sexta feira (25).

O movimento dos estudantes que ocuparam liberaram uma nota sobre o todo o processo. Nela ressaltam que “é no mínimo contraditório que uma luta antirracista se torne caso de polícia novamente, e ainda mais pensar na possibilidade da polícia invadir novamente a PUC que contém um histórico de resistência”.

Leia a íntegra da nota abaixo:

Na segunda feira, 21 de maio, a PUC de São Paulo amanheceu com uma surpresa: estudantes de Serviço Social ocuparam os corredores nos quais teriam aula e, em solidariedade, estudantes ocuparam o corredor da Faculdade de Ciências Sociais, secretaria responsável pelos cursos de Relações Internacionais, Serviço Social, Historia e Ciências Sociais. O movimento foi muito rápido e logo outros cursos aderiram, incluindo Psicologia, Filosofia e Multimeios, paralisando completamente.

A pauta do movimento, desde o início, se manteve:

1- A permanência da primeira professora negra em 80 anos de Serviço Social que estava contratada em regime de temporalidade e contrato com término previsto para Julho de 2018;

2- A inclusão da disciplina Gênero, Raça e Etnia como matéria obrigatória em todos os cursos da universidade;

3- E que não houvesse nenhum tipo de criminalização dos estudantes pelas ações políticas tomadas para atingir as pautas supracitadas.

Na terça feira o movimento ganhou ainda mais força, e estudantes de outros cursos se solidarizaram. Contribuindo com doações e somando na construção do movimento.

O auge ocorreu quando, durante a noite, estudantes de Serviço Social, ocuparam o “Prédio Novo” da universidade pressionando a reitoria junto a Fundação São Paulo para se posicionarem quanto a gravidade e urgência da pauta.

Diante dos prédios Edifício Reitor Bandeira de Mello (Prédio Novo) e Prédio Velho ocupados, na quarta feira pela manhã, estudantes brancos e fascistas tentaram invadir o “Prédio Novo”, portando barras de ferro, pedras e pedaços de pau, afim de retirar a força os ocupantes. Um diálogo foi estabelecido e estes, apesar de não concordarem com os métodos do movimento, e após terem danificado duas portas de emergência do prédio em questão, se retiraram. A partir de então, a ocupação do campus estava consolidada.

Paralelamente na quinta feira, ao passo que a universidade buscava uma saída comum a esse problema junto aos estudantes, a Fundação São Paulo entrava com uma liminar de reintegração de posse, inclusive, abrindo a possibilidade do uso de forca policial contra estes ocupantes. Além disso, o mandato de reintegração de posse era acompanhado de um processo registrado na Vara Civil, ambos nominais e continham o nome de dois bolsistas integrais e uma bolsista parcial.

De fato, é no mínimo contraditório que uma luta antirracista se torne caso de polícia novamente, e ainda mais pensar na possibilidade da polícia invadir novamente a PUC que contém um histórico de resistência contra o autoritarismo e que, ultimamente, tem sido ignorado em prol de uma burocracia extremamente tecnicista e inumana.
Vale ressaltar que, conforme vistoria no prédio ocorrida no dia da desocupação, assinada por representantes da Fundação São Paulo, da Reitoria e do movimento, os danos registrados pela vistoria da universidade foram protagonizados pelos não ocupantes.

A inflexibilidade da universidade era imensa, após proporem saídas extremamente moderadas tendo em vista a dimensão do movimento, como a extensão do contrato temporário da professora vinculado a criação de uma matéria optativa de Gênero, Raça e Etnia, na noite de quinta feira ela encerrou a negociação com estudantes. Em assembleia, os mesmos, exigiram que, apesar de insuficiente as pautas, o método havia se esgotado e pediram para que a reitoria assinasse as promessas feitas aos estudantes. Mais uma vez eles se recusaram.
Na sexta feira a reitoria volta atrás e assina um documento que garante que não há intenção de criminalizar nenhum estudante e nem coadunar com práticas punitivistas. Porém, na mesma sexta feira que o documento foi assinado e se iniciou o processo de desocupação o Oficial de justiça foi a universidade procurar os três estudantes.

Em suma, será que a PUC é racista ? Se não, se de fato há um racha entre a Reitoria e sua mantenedora Fundação São Paulo e a reitoria se comprometeu a não criminalizar ao passo que a fundação entrou com o processo, qual a efetividade real da Reitoria? Até onde ela pode exercer sua autonomia jurídico-politica? Além do mais, será que a Igreja Católica, após toda sua reorientação baseada no Concílio Vaticano II, na encíclica papal Laudato Si, será que esta instituição ainda coaduna com o racismo? Qual será o posicionamento de Dom Odilo Scherer? Luta estudantil antirracista é um caso de polícia? Ficam as reflexões para que, o mínimo que há de história de resistência na universidade seja preservado.
Pelo fim imediato do processo! Contra qualquer medida que puna os movimentos estudantis!

Pelo Fim do Medo! Não há arrependimento.

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