No meio do caminho tinha uma Petra

A cena é dura e fere como uma pedrada: uma multidão de pessoas, imigrantes buscando refúgio correm, maltrapilhos e maltratados através de um imenso campo na Hungria, sendo duramente reprimidos pela polícia húngara e filmados por dezenas de cinegrafistas enquanto buscavam refúgio.
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A cena é dura e fere como uma pedrada: uma multidão de pessoas, imigrantes buscando refúgio correm, maltrapilhos e maltratados através de um imenso campo na Hungria, sendo duramente reprimidos pela polícia húngara e filmados por dezenas de cinegrafistas enquanto buscavam refúgio.

Desesperados e aos gritos, corriam em direção ao que imaginavam dias melhores.

Fugiam da morte certa, personagens de uma guerra que não tem vitoriosos, apenas imigrantes, refugiados e mortos.

A cena é dura e fere como uma pedrada: a cinegrafista Petra Laszlo, da emissora húngara N1TV, desfere chutes nos refugiados e, quando consegue se aproximar, estica sua perna, usando-a como alavanca para derrubar um senhor idoso que carregava nos braços uma pequena criança.

Petra fez de sua perna uma pedra de tropeço.

Há vários aspectos desumanos nessa tragédia de proporções absurdas, mas logo no início reparo que a cinegrafista usava uma máscara.
Não uma máscara para ocultar sua identidade: era uma máscara cirúrgica, dessas que se usam em hospitais para se filtrar o ar.

Petra não se envergonharia do que fez e não tinha motivos para esconder seu rosto.

Esse detalhe me chamou a atenção e me fez pensar que Petra nutre um profundo sentimento de repulsa por aquelas pessoas, uma espécie de temor xenofóbico aliado a um sentimento de superioridade.

O recado da máscara era bem claro: “Não quero respirar o mesmo ar que “essa gente”.

O que leva uma pessoa a desumanizar de maneira tão cruel seu próximo?

Que tecido social roto é esse que veste Petra e tantas outras pessoas, e as leva a agredir seres humanos já tão violentados pela vida?

Que manto de desumanidade imaginário cobre seu corpo, uma espécie de armadura invisível, mas que se mostra visível e ouso dizer inocultável em alguns momentos?

Há muitas Petras espalhadas pelo caminho: enquanto fazia a pesquisa para escrever esse artigo encontrei esse comentário e outros de igual teor em uma das matérias veiculadas na internet sobre o assunto:

“Ótima ação, minha co-irmã. Essas pessoas estão ILEGALMENTE em Europa.
São alienígenas. Possuem ZERO direito garantido pelas constituições. Tudo que elas querem é espalhar caos e terceiro-mundismo pela Europa. Danemark já deu o exemplo de que ainda existe o sentimento de Europa vivo.
E que não permitiremos que alienígenas destruam tudo pelo que nossos antepassados já derramaram muito suor e sangue… Deportemos TODOS eles: VIVOS OU MORTOS!”
(Leo Schwartzer)

Sinto que recebo outra pedrada, outra mais entre as mais de 700 que encontrei, isso só em uma pequena nota dada por um dos grandes portais na internet.

Prossigo, já meio tonto, questionando:

Em qual momento essas pessoas se despem de humanidade, vestem máscaras que lhes filtra qualquer resquício de compaixão e transformam em pedras as teclas dos seus notebooks e telefones?

Creio que a força que estica os dedos dos “Leo Schwartzers” para digitarem em um teclado termos como “alienígenas”, “sentimento de Europa vivo” (seja lá que raios isso signifique) ou mesmo conclamar a DEPORTAR VIVOS OU MORTOS pessoas que sequer conhecem e que jamais lhes fizeram algum mal é a mesma força que esticou a perna de Petra, tornando-a uma pedra no caminho que fez cair por terra os sonhos de dois seres humanos, um senhor idoso e uma criança que igualmente jamais lhe fizeram algum mal.

Um senhor e uma criança feridos pelas pedras que Petra carrega em seu coração de pedra.

Chego a uma conclusão:

“Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra”
(Carlos Drummond de Andrade)

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