Morre a poeta Tula Pilar Ferreira, uma Carolina dos saraus da periferia de SP

Ela deixa livros, a gargalhada única e o abraço apertado, seus três filhos e o entusiasmo pela poesia e pela vida que pulsa nas quebradas. Pilar presente! Sempre!

Poeta, dançarina, atriz, ex-empregada doméstica, vendedora da revista Ocas, Tula Pilar nasceu em Leopoldina, Minas Gerais, em 1970. Quando tinha dois anos mudou-se para Belo Horizonte com a mãe e as irmãs. Aos sete, começou a ajudar a sua mãe, que era cozinheira, no trabalho, não deixando de lado a escola e as brincadeiras.

Teve a primeira filha, Samantha aos 15 anos. Continuou a trabalhar, tentou morar no Rio de Janeiro, mas aos 19 anos foi trabalhar como doméstica em São Paulo, em casa de família. Trabalhou também como passadeira, mas em um momento de dificuldade financeira acabou conhecendo o trabalho da Revista Ocas, produzindo poemas e vendendo a revista. Tula virou referência em todos os saraus da periferia da cidade.

Participou de festivais de literatura e publicou o livro “Palavras Inacadêmicas” de maneira independente em 2004 e “Sensualidade de fino trato”, publicado pelo selo do Sarau do Binho em 2017. Também teve participação em obras coletivas, como o “Negras de Lá, Negras Daqui”, lançado em fevereiro deste ano.

Mãe solo com três filhos, Pilar, vê sua trajetória muito parecida com Carolina de Jesus. Lançou o “Cadin de coisa”, sarau que mistura culinária mineira e arte.

“Sou uma Carolina”, por Tula Pilar Ferreira

“Sou uma Carolina
Trabalhei desde menina
Na infância lavei, passei, engraxei…
Filhos dos outros embalei

Sou negra escritora que virou notícias nos jornais
Foi do Quarto de Despejo aos programas de TV

Sou uma Carolina
Escrevo desde menina
Meus textos foram rasgados, amassados, pisoteados
Foram tantos beliscões
Pelas bandas lá de Minas
Eu sou de Minas Gerais

Fugi da casa da patroa
Vassoura não quero ver mais
A caneta é meu troféu
Borda as palavras no papel
É tudo o que quero dizer

Sou uma Carolina
Feminino e poesia
A negra escritora que foi do Quarto de Despejo
aos programas na TV

Hoje uso salto alto
Vestido decotado, meio curto e com babados
Estou na sala de estar
No meu sofá aveludado

Porque…

Sou uma Carolina
Feminino e poesia
Pobreza não quero mais
A caneta é meu troféu
Borda as palavras no papel
É tudo o que quero dizer…

Carolina…”

Segundo os filhos, Tula Pilar não estava bem e foi levada para o hospital hoje, dia 11 de abril de 2019. Ao que tudo indica, que teve uma parada respiratória a caminho da UPA.

Agora, além dos poemas, do sorriso, dos filhos, do entusiasmo nos deixa um grande vazio. Saudades Pilar!

O enterro deve acontecer amanhã, no cemitério da Saudade, Taboão da Serra (SP), a confirmar.

A família aceita apoio financeiro:
Caixa Econômica Federal
Agência: 0357
Conta poupança: 00001062-0
Samantha Pilar Ferreira
363.319.688-90

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Um comentário
  • Carlos Silva
    12 abril 2019 at 14:37
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    Pilar, Ô Nega Pilar…
    Porque dedicar fora quebrando o PILAR DA POESIA, que nos sustentava com a força sensual do teu dizer.
    Pilar, Ô Nega Pilar, dos manos, das minas, dos guetos, das vielas, do asfalto e da favela, dos manos e de Minas nas outras tantas Minas Gerais.

    Nada temos mais para te ofertar, a nao ser, a nossa extensa, aguda, e tao sentida saudade do teu largo e tao alegre sorriso.
    Brilhará sempre, no Cruzeiro do nosso pensar.
    Pilar, Ô Nega Pilar, ate mais ver, criaturinha doce, amiga de fé, mulher guerreira, é mãe. Mãe com o símbolo maior de amor que toda mãe deve ser.

    Carlos Silva, poeta de ca dos sertões da Bahia.

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