A LUZ DAS ÁGUAS E A SEDE NA DEMOCRACIA.

por Sarah Segalla – especial para o Jornalistas Livres.

Hoje, enquanto muita gente estava atenta à televisão, eu estava adentrando 400 km no sertão do Ceará, sem sinal de internet para acompanhar o julgamento do Lula.

Sarah Segalla, médica de família e comunidade, com o chocalho nas mãos.

Enquanto eu dirigia por uma ótima rodovia, vi cisternas de água nos quintais. Vi postes de energia elétrica mesmo onde o asfalto não alcançava. Entrei em aldeias indígenas, escolas e centros de saúde. Conheci equipes de saúde com médicos cubanos cuidando das pessoas em lugares onde outros médicos não querem ir. Mudanças recentes, de 10, no máximo 15 anos.

Já no final da visita, chega esbaforida uma mulher, nordestina, liderança indígena tabajara, com pinturas no rosto, uma camiseta vermelha e empunhando uma lança, vestida pra luta. Ela vinha de um ato em apoio ao Lula numa cidadezinha próxima, para nos conhecer e contar emocionada sobre suas lutas em defesa da natureza e das terras de seu povo. Mais de uma vez ela chorou ao falar do sofrimento de seu povo e da luta pela sobrevivência de suas raízes e da mãe-terra. Pronto, estava ali na minha frente a síntese que eu precisava para compreender o dia de hoje, histórico por um motivo infeliz.

Eu passei os últimos anos reclamando do governo do PT – e que fique bem claro que eu não sou do grupo que bate panela. Eu reclamava por achar que eles não fizeram o suficiente pelo povo, não enfrentaram com radicalidade as estruturas de poder. Discursei n vezes sobre como pelo Estado não se muda nada (e não muda quase nada estruturalmente mesmo).
Não precisei de mais que 8 horas no interior do nordeste para rever alguns (pré)conceitos. Para ver o quanto o governo petista transformou – dignificou – a vida de muita gente com medidas que eu não enxergava porque não beneficiaram a minha parcela social direta ou visivelmente. Mas beneficiou gente muito menos privilegiada do que eu. Eu não acho os governos petistas ótimos. Mas tenho certeza de que foram os melhores governos que tivemos.

Lamento. Lamento por admitir isso só hoje, no dia em que ficou tão estupidamente claro que o governo de Lula foi tão transformador a ponto de fazer a elite armar um circo patético (de enredo bem pouco convincente, convenhamos) para impedir que ele volte ao governo pela legitimidade do povo brasileiro.

Mulher caminha em luto, em novembro de 2002, em busca de água no sertão nordestino. Imagem por Helio Carlos Mello©

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornalistas Livres

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