Facebook censura tradições milenares

Para a plataforma, imagens de tradições indígenas brasileiras se equiparam à pornografia

Foto de Orlando Brito

Por Chico Sant’Anna, jornalista em Brasília e responsável pelo blog Chico Sant’Anna e a Infocom

A nota Flechas Cibernéticas, veiculada em edição de dezembro do Brasília Capital, foi ilustrada por mim na versão digital da coluna Brasília com uma foto do conceituado fotógrafo Orlando Brito, retratando o Huka-Huka, durante os festejos do Quarup, na região do Xingu.

Milenarmente, é por meio do Huka-Huka – que se assemelha à luta greco-romana – que a virilidade dos jovens guerreiros é testada. Eles trajam apenas, uma tanga – não muito diferente das usadas pelos lutadores do sumô japonês. Compartilhada na rede social, os algoritmos utilizados pelo Facebook bloquearam a veiculação da nota por considerar que ela ”viola os padrões de nudez e atividade sexual”.

Um pedido de reexame foi formulado e o Facebook destacou um membro de sua equipe para a tarefa. Mesmo com a análise personalizada, foi mantida a censura das imagens dos indígenas: pois, na visão do perito “não segue os padrões de nudez e atividade sexual e ninguém mais pode ver esta publicação”, sentenciou o censor.

É curiosa a eficiência do Facebook, que é capaz de censurar em frações de segundos a imagem de um índio com tanga, mas não consegue identificar os emissores de fake news, que no Brasil, Estados Unidos e outros países se multiplicam em períodos eleitorais.

Esse episódio, mais do que demonstrar ignorância por parte das máquinas e dos homens do Facebook, demonstra o perigo em que a sociedade se depara quanto à garantia do livre fluxo de informações e imagens.

Hoje é a silhueta de um índio que é censurada por uma empresa, cujos propósitos políticos e econômicos quase ninguém sabe. E amanhã? O que os algoritmos ou quem estiver por de trás deles irão bloquear? A liberdade de expressão está consignada na maioria das constituições das nações e também na Carta dos Direitos Humanos da ONU que acaba de completar 70 anos. Quando é que impérios econômicos, como esse do senhor Mark Zuckberg, serão mais transparentes e mais respeitosos com os direitos de cada um de seus usuários?

https://chicosantannaeainfocom.blogspot.com/2018/12/facebook-censura-tradicoes-milenares.html?fbclid=IwAR1oBdfJQUVAWVFKq4hYMQtOAnD-Xqb70p6Stoq60BLm9_0eaSlY_1VOOnk

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AnáliseCensuraComportamentoGeralÍndios
Um comentário
  • Karina
    4 janeiro 2019 at 20:14
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    O negócio é deslegitimar o facebook e usar plataformas próprias, como uma rede social dos Jornalistas Livres, por exemplo.

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