[Exclusivo] A relação entre a candidatura Bolsonaro e a ultradireita fascista organizada no Brasil

Candidatura do capitão da reserva ganha adesão de agremiações declaradamente fascistas; partido da chapa presidencial organizou frente ultranacionalista

por Vinícius Segalla

O cartaz que se vê acima era uma propaganda da “Dezembrada”, evento então marcado para o dia 12 de dezembro de 2015, na cidade de Curitiba. Ali, seria realizado o “Congresso Fundador da Frente Nacionalista”. A programação também contava com os shows das bandas “Confronto 72”, “Ação Hostil”, “29 de Dezembro Integralista” e “Estandarte Patriótico”, entre outras.

O jornal “A Gazeta do Povo”, o maior do Paraná, assim noticiou o fato à época: “Curitiba vai sediar o congresso de um grupo inspirado no fascismo. A ‘Frente Nacionalista’ espera reunir mais de mil pessoas, após ter selado aliança com os skinheads ‘Carecas do ABC’”.

O diário curitibano não estava fazendo proselitismo. A Frente Nacionalista, ou FN, até hoje não esconde suas inspirações, pelo contrário, mantém inclusive uma rádio online, a “Rádio Combate”, antiga “Rádio Careca”, para expressar suas opiniões. Uma pequena mostra do que se está falando segue nas imagens abaixo. Há muito mais nas páginas das entidades.

Se ainda resta alguma dúvida sobre o caráter político da Frente Nacionalista, tome-se a letra da música “Vamos para a guerra”, da banda “Linha 12”, presente no line-up do congresso fundador da FN. Ela diz:

“Segura ele, sem dó desce o cacete
Pega aquele taco e arranca todos os dentes
Se tentar correr, desce a coturnada
Se tentar trocar, prejuízo vai levar”

Assim, a FN se constituiu pela união de grupos de ultradireita, principalmente a Frente Social Nacionalista, o CONACC (Conselho Nacional de Combate à Corrupção, ao Comunismo e Criminalidade) e também as entidades responsáveis pela realização do Congresso Fundador, que podem ser vistas no cartaz no topo da página: os “Carecas do ABC”, a “Rádio Combate” e o Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, ou PRTB, da coligação PSL/PRTB, do candidato a presidente Jair Bolsonaro, e ao qual é filiado o general Hamilton Mourão, candidato a vice-presidente na chapa do capitão da reserva.

Quando a “Gazeta do Povo” noticiou que o PRTB estava tomando parte em um congresso de skinheads e neofascistas, a direção estadual do partido desconversou, disse que aquilo apenas significava que as entidades reunidas possuíam posicionamentos em comum em questões como organização do Estado e patriotismo.

Bom, também não poderia admitir muito mais do que isso e ainda assim seguir como um partido dentro da legalidade. No próprio estatuto da FN consta que a entidade é contrária ao “sistema de democracia liberal”, pregando um modelo inspirado no corporativismo posto em prática na Itália na década de 1930, quanto Benito Mussolini, do Partido Fascista, estava no poder.

Tampouco fez muito esforço, o PRTB, para esconder suas ligações com os grupos que compõem a Frente Nacionalista. No dia 25 de agosto de 2016, por exemplo, a FN anunciou a entrada oficial do seu CONACC (Conselho Nacional de Combate à Corrupção, ao Comunismo e Criminalidade) no PRTB, como pode se ver abaixo.

Desde de então, do meio de 2016, a Frente Nacionalista passou a externar franco apoio a candidatos em eleições tanto do PRTB como do PSC, de Jair Bolsonaro. E, na medida em que a eleição deste ano foi se aproximando, a frente de ultradireita passou a fazer campanha deliberada pelo capitão da reserva, como se vê:

A derrocada da democracia por dentro da democracia

O historiador Odilon Caldeira Neto, professor do Instituto de Ciências Humanas e da Informação da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), produziu um estudo acadêmico sobre as relações da Frente Nacionalista e outros grupos de pregação abertamente contrária ao sistema democrático com os partidos de direita institucionais, como o PRTB e o PSL.

Conforme explica, “Levy Fidelix e o PRTB aproximam-se do terreno do neofascismo, inclusive pela sua disponibilidade em termos de aglutinação partidária. A relação entre o PRTB e a Frente Nacionalista exprime essa característica”, e nunca se escondeu, como, mais uma vez, se pode ver abaixo.

Em relação a Jair Bolsonaro e seu clã, o professor aponta: “Existe (entre Bolsonaro e os grupos neofascistas) princípios de similaridade e possível articulação. A proibição da simbologia comunista como estratégia de barrar a atuação política das esquerdas, é um ponto em comum entre a Frente Nacionalista e integrantes da “família Bolsonaro”. Isso é corroborado pelo Projeto de Lei 5358/201639, de autoria de Eduardo Bolsonaro (Partido Social Cristão, SP), que prevê a criminalização da ‘apologia ao comunismo’”.

O professor, então, conclui: “Não despropositadamente, essa iniciativa é alimentada para teoria da conspiração sobre o ‘marxismo/gramscismo cultural’, presente no Partido de Renovação Trabalhista Brasileiro, “Frente Nacionalista”, “Mídia Sem Máscara” e pronunciamentos da ‘família Bolsonaro’”.

As ligações com o “fascismo-raiz”

Para além da ligação com grupos de ultradireita de estética skinhead e assumidamente pregadores da violência como estratégia política, a chapa de Bolsonaro também estabeleceu relações com os grupos que carregam hoje em dia as bandeiras do Integralismo, movimento nacional da primeira metade do século passado fundado por Plínio Salgado, que confessadamente se inspirava na experiência italiana com Benito Mussolini.

Conforme mostrou o DCM em reportagem do último dia 25, a Frente Integralista Brasileira (FIB), herdeiro da extinta Ação Integralista Brasileira, formalizou na semana passada o seu apoio à candidatura Bolsonaro, participando, inclusive, de ato de campanha do ex-capitão na avenida Paulista, como se vê abaixo.

Em menos de 24 horas, os brasileiros estarão a caminho das urnas para decidir o futuro que querem para o país. Que possam escolher da melhor forma possível, de acordo com a sua consciência. Só não poderão dizer que não sabiam de nada.

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