Escola do SESI proíbe livro sobre cultura africana

  • Esta notícia foi atualizada às 17:07 de 22/03/2018 com uma nota de esclarecimento da Firjan, enviada aos jornalistas Livres, que consta no final deste texto.

Na semana passada, o SESI proibiu que a escola da unidade de Volta Redonda/RJ usasse um livro sobre cultura africana. Trata-se do livro “Omo-Oba – Histórias de Princesas”, publicado pela editora Mazza. Neste livro, Kiusarn de Oliveira reconta mitos africanos que reforçam os diferentes modos de ser femininos.

Com esta ação, a escola contrariou a Lei Federal 11.645/2008, que incluiu a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena” no currículo oficial da rede de ensino, como uma forma de reconhecer garantir a memória das matrizes afrodescendentes do povo brasileiro. O comunicado do SESI diz ter recebido “um questionamento de alguns pais em relação ao conteúdo do livro” e que a Gerência de Educação Básica, responsável pela escolha do material, esclareceu “que o título trata da cultura africana e que não tem um cunho religioso” e autorizou a escola fazer a troca do referido título.

A violação foi reportada pela mãe de um educando e percorreu as mídias sociais.

 

Relato de Kiusam de Oliveira, autora do livro

“Agora estamos na era da caça às publicações que tratam da cultura afro-brasileira. Meu livro Omo-Oba: Histórias de Princesas (Mazza Edições, 2009), por sinal, altamente premiado, foi caçado ao ser adotado pelo SESI VOLTA REDONDA (RJ) quando pais fundamentalistas procuraram jornais e setores da educação para denuncia-lo por tratar de princesas africanas. A postura do SESI foi simplesmente trocar por outro livro.

Omo-Oba é um livro que privilegia o recontar de mitos africanos pouco conhecidos pelo público brasileiro em geral. O livro apresenta seis histórias de rainhas, na figura de princesas, com o objetivo de fortalecer a personalidade de meninas, independente de raça/cor, etnia, condições socioeconômicas. Tais rainhas são nossas ancestrais, uma vez que há comprovações científicas de que África é o Berço da Humanidade.

A forma com que eu as apresento neste livro é sem nenhuma conotação religiosa, mergulhadas que estão na história e nos aspectos da cultura afro-brasileira, através de uma narrativa com personagens negras cheias de afeto e de empoderamento, o que é uma raridade em bibliotecas brasileiras. Ele atende perfeitamente as leis 10.639/03 e 11.645/08 que obriga o ensino da História da África e das Culturas Afro-brasileira nas escolas em todos os seus segmentos.

O livro é altamente premiado, além de ser um espelho para o ser negro no país. Fui professora da Educação Infantil por 23 anos e atualmente sou professora na Universidade Federal do Espírito Santo, dando continuidade ao meu trabalho de fortalecimento e formação de crianças, jovens e adultos negros. Durante estes anos, foram várias as situações de confrontos de alunos negros com a ausência de príncipes e princesas como eles nas literaturas infantil e juvenil brasileira.

Assim sendo, resolvi publicar histórias de rainhas negras que fazem parte da história, da cultura e da HUMANIDADE. Pode parecer pouco, mas num país racista e eurocêntrico como o Brasil, tais princesas têm sido a defesa de crianças negras na luta contra a sua invisibilidade, a discriminação racial e o racismo.

Ao SESI que adotou o livro, parabéns, mas ao mesmo SESI que o alterou no momento de manifestações contrárias sem que efetivamente tivesse exercido um papel educador e transformador eu digo, sinto muito. Mas sinto muito mais pelas crianças negras que continuam como fantoches nas mãos de professores/as e profissionais da educação totalmente despreparados/as para lidar com as práticas racistas como vemos nesse caso, onde raramente a educação pensa um projeto que combata de frente, o racismo, tendo em vista o bem-estar da criança, do jovem e do adulto negros que ocupam os espaços escolares.

Continuamos, assim, a ver um país de pretos sendo manipulados por brancos, pretos sendo exterminados por brancos. E assim, o golpe… aquele golpe branco, continua a pautar o extermínio da população negra. O que nos cabe? Estarmos juntas e juntos combatendo o fascismo, a opressão, a ditadura de forma visceral. Somos alvos e vítimas daqueles coxinhas que tanto apostaram num país melhor!”

 

A PRESSÃO REVERTEU A DECISÃO DO COLÉGIO 

[Atualização às 23h07] Após pressão popular, o SESI revogou a decisão autoritária e manteve o livro no programa educacional da escola. Segue nota completa

“A Escola Sesi de Volta Redonda cometeu um erro ao anunciar livro opcional à obra “Omo-oba – Histórias de Princesas”, da autora Kiusam de Oliveira, para alunos cujos pais questionaram a sua utilização em aulas de História.

A instituição vem a público reconhecer o equívoco no tratamento do assunto e informar que não mais será adotado um livro adicional.

Além de cumprir a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e suas complementações, que tornaram obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, o Sesi Rio está empenhado e comprometido com a questão da diversidade cultural, tanto que adotou em todas as suas escolas, a referida obra como livro paradidático na disciplina de História. Diante do questionamento de alguns pais se precipitou, de forma equivocada, ao permitir a troca da obra para aqueles interessados, procedimento que foi revisto.

O Sesi já entrou em contato com a mãe que se sentiu ofendida com a promessa de um livro opcional para se desculpar e esclarecer o ocorrido. Além disso, ainda hoje (19/03) fará uma reunião com pais e responsáveis para também abordar o tema.

Para que equívocos como o ocorrido não se repitam, o Sesi irá realizar uma reciclagem com toda a sua equipe pedagógica.

A Escola Sesi de Volta Redonda também promoverá, em breve, um encontro para debater com a comunidade escolar a diversidade e o multiculturalismo.”

 

A nota da FIRJAN enviada aos Jornalistas Livres

[Atualização às 17:07 de 22/03/2018]

A Firjan, por meio de sua assessoria de imprensa, escreveu-nos para enviar o seu esclarecimento sobre o caso desta notícia. Na nota, a instituição diz que o livro não foi proibido pela escola, que a escola abriu a possibilidade da troca do referido livro, que tal abertura foi posteriormente considerada equivocada, que reciclarão toda a sua equipe pedagógica, que promoverão um encontro para debater com a comunidade escolar a diversidade e o multiculturalismo, e pediu retiremos que a informação sobre a censura seja retirada do site.

Respeitamos e apreciamos a postura de revisão de decisões que sejam consideradas equivocadas, assim como a postura de esclarecer o caso e gentilmente enviar tal solicitação a ser integralmente transcrita a seguir.

Devemos considerar que a censura não pode caber mais no Brasil. Como os Jornalistas Livres e, posteriormente, a Firjan entendemos que houve uma prática de censura – que foi revertida em uma instância superior à escola –, manteremos o conteúdo original e destacaremos que o caso foi esclarecido pela instituição.

Segue abaixo a íntegra do esclarecimento enviado por e-mail:

A Escola Sesi de Volta Redonda cometeu um erro ao anunciar livro opcional à obra “Omo-oba – Histórias de Princesas”, da autora Kiusam de Oliveira, para alunos cujos pais questionaram a sua utilização em aulas de História.

A instituição vem a público reconhecer o equívoco no tratamento do assunto e informar que não mais será adotado um livro adicional.

Além de cumprir a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e suas complementações, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, o Sesi Rio está empenhado e comprometido com a questão da diversidade cultural, tanto que adotou em todas as suas escolas a referida obra como livro paradidático na disciplina de História. Diante do questionamento de alguns pais se precipitou, de forma equivocada, ao permitir a troca da obra para aqueles interessados, procedimento que foi revisto.

O Sesi já entrou em contato com a mãe que se sentiu ofendida com a promessa de um livro opcional para se desculpar e esclarecer o ocorrido. Além disso, realizou em 19/03 uma reunião com pais e responsáveis para também abordar o tema.

Para que equívocos como o ocorrido não se repitam, o Sesi irá realizar uma reciclagem com toda a sua equipe pedagógica.

A Escola Sesi de Volta Redonda também promoverá, em breve, um encontro para debater com a comunidade escolar a diversidade e o multiculturalismo.

 

 

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