Eleições 2018: e nós com isso?

foto de Felipe Iruatã do ato de 16/10 em homenagem ao mestre Moa do Katendê, no Pelourinho, Salvador

Quem somos nós? Somos lésbicas e o povo LGBT todo. Somos toda a população negra, principalmente os mais desesperançados, enganados por achar que o candidato que os quer mortos vai redimi-los. Somos o povo de asè e desafortunadamente, muitos de nós temos declarado voto em alguém que reiteradamente manifesta nojo por nós.

Somos pan-africanistas, anarquistas, punks, anarco-punks e queremos modelar o mundo à revelia das instituições. O caso é que os processos institucionais nos devoram passivamente se não participamos deles, principalmente em horas cruciais como agora nas eleições de 2018 em que nossa existência como seres humanos plenos e libertários está em jogo (é algo ainda mais fundo do que a derrocada da democracia).

Somos mulheres negras e também entre nós, para nosso total espanto existe gente partidária de um projeto de ditadura. Somos setores do Hip Hop votando em projeto fascista.

Somos uma gente iludida que por motivos diversos, todos ligados ao desespero, ao descaso e a falta de perspectiva, conseguimos achar que um projeto fascista pode significar alguma mudança positiva. Talvez sejamos um pouco suicidadas e queiramos entregar o pescoço ao carrasco como ovelhas entorpecidas.

Somos também aquelas pessoas que não fazem parte de algum dos grupos citados, que não nos identificamos como alguém pertencente a algum deles, mas temos filhos, primos, sobrinhos, tios, amigos, colegas respeitados que integram esses segmentos.

E o que tenho a dizer a vocês, o que tenho a dizer a todos nós, é que como na velha canção mineira, “vamos precisar de todo mundo banir do mundo a opressão e um mais um é sempre mais que dois.”

Vem que ainda é tempo de arrumar. Se a gente se organizar direitinho e votar a favor da vida, a gente vira o jogo. E é melhor que o façamos para não sermos os primeiros a morrer, inclusive os que acham que “não têm porra nenhuma a ver com isso”. Vem somar com a gente, ainda dá tempo.

Cidinha da Silva é prosadora e dramaturga. Autora de 11 livros de literatura entre crônicas para adultos, conto e romance para crianças e adolescentes. Destaca-se no conjunto de escritoras e escritores negros de sua geração editorial, por dedicar-se à crônica, gênero amplo e diverso que traduz pela palavra o cotidiano vivido. Seu livro mais recente é #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016).

Organizou duas obras fundamentais sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil: Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos dez primeiros livros sobre as ações afirmativas como estratégia de superação das desigualdades raciais, publicados no país. O segundo, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014), obra de referência na temática.

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