Educação Popular e Lutas de Resistência na América Latina no Fórum Social Mundial

O debate sobre o papel e os desafios da Educação Popular na atual conjuntura esteve presente em diversas atividades na 13ª edição do Fórum Social Mundial, em Salvador, Bahia, com o tema “Resistir é Criar, Resistir é Transformar. A Educação Popular, traduzida como concepção política, ética e pedagógica, inspirada sobretudo nas ideias do educador Paulo Freire, é a expressão de práticas educativas comprometidas com os interesses das classes populares e que se orientam por uma ação transformadora da realidade social.

A Educação Popular, nascida na América Latina na década de 60, é hoje um movimento cultural e pedagógico fortemente vinculado às lutas dos povos oprimidos, dos movimentos sociais e da sociedade civil por direitos e a sujeitos e instituições que acreditam em outra educação possível.

Há 35 anos surgia o Conselho de Educação Popular da América Latina- CEAAL presente hoje em 21 países da América Latina e Caribe como movimento de educadoras(es) populares organizados em uma rede. Neste arranjo as prioridades são formação política, cultura, comunicação popular, paz e direitos humanos; feminismo e luta anti-patriarcal; economia solidária; incidência em políticas educativas, sobretudo nas de educação de jovens e adultos.

No FSM, o CEAAL, algumas vezes em parceria com outras redes, organizações e movimentos sociais, desenvolveu atividades temáticas que possibilitaram a reflexão e a troca de experiência entre pessoas e grupos. Reafirmou-se a necessidade de intensificar a Educação Popular como instrumento de fortalecimento das lutas de resistência nesta conjuntura de avanço avassalador das políticas neoliberais no mundo, em detrimento das conquistas sociais e da soberania dos povos, especialmente na América Latina e Caribe e em nosso país, face ao golpe a favor do capital financeiro internacional, aprofundando as desigualdades sociais.

A temática desenvolvida sobre “A Democracia que Temos e a que Queremos”, enfatizou fortemente a necessidade de fomentar e radicalizar as práticas de democracia participativa e da retomada do trabalho de base como caminho mais fecundo. No debate em torno de “Comunicação e Cultura Popular”, destacou-se a importância de criar e fortalecer as práticas e instrumentos de comunicação e de expressão popular, numa perspectiva contra hegemônica ao domínio e monopólio dos meios de comunicação.

Nas atividades auto-gestionadas, debateu-se os desafios e ações no campo de formação política, da educação cidadã e da sistematização de experiências. Face a conjuntura de forte ataque de atores do conservadorismo, o CEAAL entende que é fundamental fortalecer as lutas de resistência popular e construir estratégias de formação política fundamentadas nos princípios éticos, políticos e pedagógicos da Educação Popular. Com esta posição o CEAAL pretende que a Educação Popular possa contribuir para uma maior organicidade das lutas travadas pelos movimentos sociais por direitos e contra os retrocessos decorrentes do avanço das políticas neoliberais. No caso do Brasil, arquitetadas pelo governo golpista por ações opressoras e de cerceamento das liberdades democráticas como Escola Sem Partido.

Sob esta perspectiva, ressaltou-se a necessidade de dialogar com expressões artísticas e culturais, sobretudo com os movimentos de juventude que tem afirmado sua identidade e expressado seus sentimentos em relação ao contexto das opressões por eles vividas. A falta de perspectiva, o pouco acesso a políticas públicas, a discriminação de classe, gênero e raça, a violência policial a que amplos segmentos da juventude estão sujeitos, reforçam a importância de se considerar estes elementos nesta estratégia e conceito de formação política.

A sistematização de experiências, entendida como a capacidade dos atores sociais e políticos de teorizarem suas próprias práticas, foi apontada como passo importante para a reinvenção e criação de novas práticas e linguagens. Ressaltou-se ainda no Fórum Social Mundial a importância de se incorporar novos paradigmas, como “Bem Viver”, Eco Socialismo, Feminismo Anti-patriarcal e novas práticas de descolonização do pensamento como insumos para as práticas de Educação Popular.

Concluindo e retomando as ideias de Paulo Freire diante de uma conjuntura de resistências, é preciso vivenciar uma Pedagogia de Esperança e uma Educação Popular Libertadora que busque e exercite no cotidiano das vivências e das lutas populares, a construção de outro mundo possível e de outros caminhos para uma sociedade mais justa e digna para todos. É preciso que a solidariedade e valores fundamentais do ser humano se contraponham a este mundo devastador do capitalismo selvagem e dos retrocessos civilizatórios a que estamos submetidos.

Pedro Pontual, educador popular e presidente honorário do CEAAL

Cecília Figueira, educadora popular

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