DE FAXINEIRA A PRESIDENTE, DE PRESIDENTA A ZELADORA

Por Gabriel Augusto, fotografias de Isis Medeiros, especial para os Jornalistas Livres

Fotografias por Isis Medeiros

O texto tenta reproduzir a opinião da presidenta Dilma Rousseff, segundo os fatos comentados e a abordagem escolhida em seu discurso. As aspas reproduzem a fala da presidenta.

“Eu hoje tô chorona viu, Daniela. Eu fui recebida aqui por uma manifestação maravilhosa”. Essa foi uma das primeiras frases de Dilma Rousseff enquanto discursava no 5º Encontro Nacional de [email protected] e Ativistas Digitais – #MenosÓdio,MaisDemocracia, durante a noite de sexta 20/05, no Hotel Belo Horizonte Othon Palace. Daniela, do cerimonial do evento, pediu à própria Dilma para quebrar o protocolo antes de lhe entregar o microfone. Contou que, dentre tudo, o que lhe deu maior tristeza foi saber de algo feito pelo filho de sua amiga: a criança, sem esperanças, dizia “morre Lula, morre Dilma” em um desenho de escola.
Do lado de fora do Hotel, milhares enchiam a Avenida Afonso Pena, protestando contra o governo Temer. Dilma, que é mineira, se encheu de alegria ao ver a “linda imagem dos balões vermelhos da liberdade”, no Estado onde, segundo ela, a liberdade alcança aos céus. Cumprimentou e agradeceu a todos: blogueiros, ativistas digitais, mulheres, negros, comunidade LGBT, ativistas da cultura; reconhecendo o atual sistema político enviesado que permite o domínio das posições mais conservadoras em detrimento das minorias mencionadas.

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Fotografia por Isis Medeiros

Vivemos sob “um ministério de homens velhos, ricos e brancos”, num país onde é impossível admitir que mulheres ou negros não possuam o mérito de ocupar aquelas cadeiras. Aquilo que ela considerou como a “face mais triste do governo” revela pessoas e programas que não foram escolhidos nas urnas. Admitir, portanto, “o caráter provisório [do governo] é importantíssimo. O processo é um golpe, e o governo tem que ser provisório”.

Errando, e rindo: A presidenta eleita e seu plano de governo conquistaram 54 milhões de votos nas urnas. Ao comentar isso, Dilma se confundiu, e disse 54 bilhões na primeira vez. “Já tô querendo ser do planeta, cês tão vendo?”, ela pergunta carismática, entre os risos da plateia. Mas como ela mesma disse, nem do planeta isso seria possível – teríamos que considerar a galáxia. E mais risos.

Fotografia por Isis Medeiros

O ministério, considerado conservador e preconceituoso, aprovou medidas de assustar em oito dias de governo. O fim do Ministério da Cultura evidencia o desconhecimento de tudo aquilo que é Brasil, e inicia a grande batalha em prol da cultura nacional. Assim como o fim do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos. O “governo está batendo o recorde dos desmentidos. Num dia dizem algo, no outro desmentem”. Foi assim com a proposta de redução do SUS; foi assim com a possibilidade de desmonte da previdência, que seria dividida entre a Fazenda e o Desenvolvimento Social. Segundo ela, assim será também com as chances de redução das políticas assistenciais. E ainda compara: “Uma vez Chico Buarque sintetizou que a política externa deles é a que fala fino com os países ricos e falava grosso com a Bolívia”. Revoltada, ela confirma que não poderíamos reduzir nosso poderio a acordos econômicos bilaterais segundo um mero aspecto do mercado. Uma paralisia que não se via desde 1998, que vai impedir qualquer possibilidade de reforma política, propostas de democratização de acesso e democratização da comunicação.

Dilma foi muito bem recebida. Aos gritos de “Fora Temer”, “Dilma guerreira da Pátria Brasileira”, “A verdade é dura: a Rede Globo apoiou a ditadura – e ainda apoia” e “Não vai ter golpe – vai ter luta!”, continua seu discurso, que totalizou mais de cinquenta minutos.
“Eu não cometi crimes de corrupção. Não tenho contas no exterior, nem tolerância com práticas irregulares do dinheiro público”. A condenam pelo exercício do Orçamento, atitude que, 101 vezes cometidas por FHC, revelam 30 exatamente iguais aos 6 da presidenta. Não a condenam por seus erros políticos, e sim pelos seus acertos. O “impeachment é um processo de quem não tem voto chegar ao poder. É uma eleição indireta”.

“Não podemos mais ser ingênuos diante da realidade”. 

E por isso Dilma pretende lutar. Afinal, demonstrou que nunca se afastou da luta, e nem isso vai deixá-la de fora. “Não vou ficar presa dentro da Alvorada”; disse que não é a intenção dela ficar lá isolada, e que não há justificativa para isso. Por outro lado, vai acompanhar com lupa tudo aquilo que ocorre no governo. Já foi chamada de faxineira, mas hoje se confirma como zeladora.

“Passo a ser zeladora dos direitos e da democracia!” – conclui, pelo imenso valor que dá ao modo de governo que ajudou a construir.
Dilma saiu entre clamor e aplausos. Garantiu que vai continuar lutando em todas as instâncias possíveis. E se apresentou como uma mulher forte, determinada, e verdadeira – a despeito de tudo que vem sofrendo e consciente do tanto que ainda precisa enfrentar.

Fotografia por Isis Medeiros

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2 comentários:
  • DE FAXINEIRA A PRESIDENTE, DE PRESIDENTA A ZELADORA | Jornalistas Livres | BRASIL S.A
    22 maio 2016 at 6:23
    Comente

    […] Fonte: DE FAXINEIRA A PRESIDENTE, DE PRESIDENTA A ZELADORA | Jornalistas Livres […]

  • Ana Cláudia Moreira
    22 maio 2016 at 12:09
    Comente

    Amigos, o título da matéria não está bom. Ela foi chamada de “faxineira” enquanto presidente, por causa do combate à corrupção. Hoje, sendo a presidente legítima (embora não a presidente “operacional”, como ela mesma colocou), vai “mudar de profissão, vai ser “zeladora”. Ela nunca passou de presidente a faxineira, nem de presidente a zeladora. Ela nunca deixou de ser a presidenta eleita (até agora)! Sugiro que o título da matéria seja repensado. Talvez: “De presidenta-faxineira a presidenta-zeladora.”

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