Bacurau, da impressão do cotidiano à sugestão de uma esperança.

Por Anderson Moraes e Rodrigo Novaes

É muito simplista achar que o filme fala “apenas” deste governo, pois ele dialoga com mais de 500 anos de um Brasil que subjuga, discrimina e violenta uma parte da população denominada (erroneamente) de minoria.

A cada cena que passa se traduz com maestria a soberba imperialista, a violência banal, a discriminação entre outros pontos da nossa doente sociedade.

É interessante ver como o filme trata a questão da pessoa branca que se orgulha de ter antepassados europeus e, por isso, acabam acreditando que são “especiais”. Alguns chegam a dizer:  “Olha eu não sou brasileiro (a) eu sou…pois tenho um tio-avô que nasceu em…” 

Bacurau é uma crítica social que vai se despindo a cada camada que o filme apresenta. Já na contrapartida é mostrado como os invisíveis e vulneráveis podem e devem resistir.

“O filme Bacurau mostra como a sabedoria popular vale muito. É como as quebradas, favelas, becos e vielas…”

Com sua fotografia maravilhosa e uma direção de arte idem, Bacurau é deleite visual. Assim como as músicas que se encaixam e deixam recados implicitness, oras objetivo. A última música diz muito do momento que o Brasil vive. Vale cada minuto assistido!

Para o país que sempre foi cordial com bandeirantes, não negros, donos do capital a obra deixa o recado: “Brasil você tem complexo de vira lata, é preconceituoso e escravocrata. Porém existe uma parte da população (povão) que se reunida é a bússola da mudança e da resistência.”

Uma análise técnica do filme

A resenha que se segue é só mais uma entre tantas outras mas nunca é demais discutir sobre a arte, particularmente quando ela conversa de forma tão íntima com o nosso cotidiano.

Bacurau, 9 tema da nossa crítica, é sem dúvida o filme nacional mais comentado do ano. Com certeza a conjuntura política corrobora para isso. É sabido de todos o contingenciamento de recursos destinados à arte no país e particularmente ao cinema.

A Ancine sofre ameaças e há quem diga que o longa Mariguela tem sofrido boicote do governo que atrasou o repasse de fundos para o seu custeio. Por tudo isso e por sua qualidade técnica vale a pena uma nota sobre a obra de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles.

Tamanha foi a apreensão que antecedeu a chegada do filme que muitas das impressões sobre ele são opostas e conflitantes. A despeito disso a aprovação supera em muito a rejeição entre o público e os especialistas.

Chama a atenção, nos primeiros créditos, a alternância musical de um tema de suspense inspirado, como tantos outros, em Hitchcock, com a música Nao Identificado, de Gal Costa, melodiosa e romântica que de alguma forma confunde o expectador e se liga de forma amorosa com a protagonista Teresa ( Barbara Colen). Por talvez meia hora é impossível à quem assiste prever os momentos futuros e mesmo entender o tema principal do filme. Esse é mais um grande mérito dos diretores, típico das grandes obras. Procurando ainda evitar spoilers na crônica, os antagonistas são apresentados e de novo diretores e roteiristas trabalham para construir uma impressão geral de antipatia em relação aos mesmos.

A voz que se eleva além do roteiro, como nos longas anteriores “Aquarius” e “O Som ao Redor” , é de resistência e crítica ao contexto político e social em que vivemos. Esta voz é, de forma habilidosa, costurada com o cuidadoso resgate da cultura e do folclore nacionais.

Muito pode ser dito mas vale ressaltar a interpretação de Sonia Braga e dos demais atores, a maioria deles desconhecidos do grande público. Outro mérito considerável é o cuidadoso trabalho de roteirista e diretores que mantém por muito tempo uma indefinição sobre o desfecho final do filme.

Flertando com Tarantino e outros mestres mas mantendo uma identidade e assinatura autoral, Bacurau se destaca como um dos melhores filmes do ano do 2019, falando do Brasil e, mais do que isso, sugerindo alguma esperança de futuro que parte da nossa sociedade particular, com seus defeitos mas também virtudes.

Um material histórico!

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