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Menino Kalapalo brinca e observa enquanto os homens constroem nova casa. © Renato Soares

O fotógrafo Renato Soares, sempre atento ao mundo que gira e à terra que resiste, no livro Krahô os Filhos da Terra, publicado em 1994, trouxe rico texto escrito pelo velho Orlando. Lembra o irmão Villas-Bôas que o índio fugiu de ser explorado e passou a ser atacado. País de golpes esse.

“A ocupação indígena no Brasil foi de Norte a Sul. É claro que a Amazônia e Brasil Central, também amazônico, abrigavam e continuam abrigando a mais densa população indígena do país. Pesquisas recentes atestam uma ocupação de dezenas de milhares de anos.

A teoria das migrações da Ásia Mongólica registra levas migratórias sucessivas, mas com largos espaços de tempo uma da outra, conforme atestam estudiosos da matéria. Donos da terra e livres num domínio incontestável, os índios, a seu modo, viviam felizes. Suas grandes malocas, seus incontáveis abrigos provisórios, suas crenças, suas danças que pareciam vir de um passado remoto, do fundo dos tempos, são verdadeiros fragmentos do Brasil quinhentista.

E foi ela, essa terra imensa, que se desdobrou misteriosa e fascinante aos olhos deslumbrados dos homens das caravelas. E eles, os índios, receberam as naus do
Descobrimento acenando alegres e despreocupados. Jamais podiam imaginar que começava ali sua desdita. Que aqueles homens amáveis, risonhos, seriam vanguardeiros de outros que, num futuro próximo, haviam de chegar. Viriam eles não tão risonhos como os primeiros patrícios. Forasteiros, ambiciosos, não olhariam as gentes, veriam isso sim, as riquezas do novo país. As matas os deslumbravam.
A velha Europa já se ressentia de muita coisa que havia em abundância na nova terra. Mas os novos invasores não queriam o trabalho duro.
Julgaram encontrar no índio uma fácil mão-de-obra. Daí tentarem escravizá-los. Jamais podiam pensar que aquela gente livre não iria se sujeitar a um trabalho escravo.

Começou, então, aquilo que foi chamado de o primeiro ciclo de atividades – a extração da madeira. Frustrado o intento, bandearam para a terra. A cana de açúcar foi o atrativo, constituindo o segundo ciclo. Os índios recusaram o tamanho da terra. Queriam que o tempo não continuasse existindo, que não houvesse anos, meses, dias e horas. Queriam, isso sim, o fluir silencioso das horas. Queriam continuar vivendo livres como uma folha na correnteza sendo levada à deriva. O terceiro ciclo não demorou. O ouro dominava a ambição daquela gente sem lei, tal como ainda hoje acontece.

O quarto ciclo foi quase ontem. A indústria extrativista. A procura das “drogas” da mata: a borracha, o látex, a castanha, a poaia e tudo o mais que a floresta oferecia. Foi nessa atividade, o fim do século XIX.
O índio fugiu de ser explorado e passou a ser atacado. O país, depois da independência, foi sendo invadido por frentes desordenadas. O índio, milenar dono da terra, passou a ser um estranho.

Não fosse a figura descomunal de Rondon ele teria desaparecido. Não foi pequeno o tributo que pagaram. Se eram cinco milhões no Descobrimento, hoje não passam de 250 mil! Pagaram um tributo de um milhão de índio por século. Desaparece uma sociedade estável, tranqüila, plena, sem ódios, onde a criatura não tem o fascínio pelo poder nem a preocupação no acúmulo de riqueza. Desaparece uma raça da qual nada sabemos. A nossas leis dão a eles a condição de tutelados. Cabe à União zelar por eles. Mas nem sempre ela é zelosa. É, isso sim, quase sempre omissa. A nossa sociedade tem para com eles uma dívida que não esta sendo paga. Infelizmente é uma verdade.

Lévi Strauss, um dos mais respeitáveis antropólogos do nosso tempo, ao referir-se aos nossos índios disse: “… é uma outra humanidade que estamos tendo o privilégio de conhecer”.

Não obstante, se preservarmos a política indigenista vigente, breve desaparecerão. Mas os dicionários continuarão dizendo – “gente de cultura estranha que se diferencia da cultura nacional“.

ORLANDO VILLAS-BÔAS

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