A surpreendente fé da esquerda no Judiciário

Grande parte dos progressistas acredita que Lula será solto, concorrerá e ganhará sem luta

Foto: Marcos Corrêa/PR

Muitos atores do campo progressista andam irritados com o movimento/locaute do caminhoneiros. A razão é que eles, os caminhoneiros, abriram um “Fora Temer” a cinco meses da eleição. Pergunta essa ala progressista: “por que só agora, nas portas das eleições, parte dos caminhoneiros tenta derrubar Michel Temer com tanta volúpia?”. Vai que o Temer cai mesmo, não é? O que surpreende é que parece não pairar dúvidas de que haverá eleições e que elas representarão, minimamente, a vontade dos eleitores.

Acham que o mercado ganhou com a greve/locaute dos caminhoneiros.

Perdoem por discordar. O mercado não ganhou com a paralisação dos caminhoneiros, ele ganhou quando assumiu os destinos do Brasil em conjunto com Temer, Meirelles, Parente e companhia em 2016. A volta do PSDB ao governo implicou a volta da agenda pró-mercado de Fernando Henrique Cardoso. Não é justo culpar os caminhoneiros ou quem apoiou sua paralisação por não terem conseguido mudar a política de favorecimento dos investidores nas ações da Petrobras.

Acham que a paralisação dos caminhoneiros foi o momento que talvez “até aqui mais tenha feito a sociedade civil sangrar”. Compadecem-se dos “pequenos produtores perdendo a colheita, dos motoristas de Uber perdendo a semana de trabalho, das escolas e universidades sem funcionar”.

Perdoem por discordar. A recessão e o desemprego fizeram a sociedade civil sangrar de verdade. Uma semana sem carro e, talvez, com algum desabastecimento não é comparável a mais de 13 milhões de desempregados e uma queda na produção brasileira de bens e serviços de mais de 7%, perto de R$ 500 bilhões que deixaram de ser produzidos. A perda de produção de quase 500 bilhões de reais não se compara com o desconforto provocado pela greve dos caminhoneiros ou ao que foi realmente perdido em sua consequência.

Criticam acidamente parte da esquerda que “via um movimento autônomo dos trabalhadores, um ato de resistência ao golpe”.

Perdoem por discordar. A greve dos caminhoneiros impôs a maior derrota ao golpe, e aos meios de comunicação que o abraçam, do que qualquer outro movimento. Essa derrota é muito mais importante do que qualquer custo que a sociedade tenha que arcar com a perda dos impostos sobre o diesel. Só a exposição da política de preços da Petrobras e da política privatista do golpe ao conjunto da população valem anos de PIS e Cofins e Cide sobre o diesel. A exposição das reais intenções dos golpistas atingiu seu pico com essa greve. O que vale mais: a derrota política do golpe ou o benefício econômico das empresas de transporte?

Só uma enxurrada de derrotas políticas impostas ao golpe abrirá parca chance de uma eleição como gostaríamos. É o que penso.

Nota

1 Recomendo que vejam a entrevista que fizemos com “Alpha Caminhoneiro”, um profissional autônomo, liderança da categoria, no link https://jornalistaslivres.org/por-que-a-greve-dos-caminhoneiros-e-mais-do-que-justa/

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Um comentário
  • Maria Antonia Cardoso
    31 maio 2018 at 12:03
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    Locateli, voce disse exatamente o que quero gritar o mais alto possível à todos. Ouso acrescentar que todo êsse movimento desnudou a face cruel e egoista da sociedade e sua participação não colaborativa e sim, uma demonstração de aceite aos desmandos que todos sofremos. Parte da esquerda é lenta mesmo, não há dúvida. O único problema é que quando acordam, as coisas já tomaram outro rumo, já se assentaram, já foram decididas. Questionam como conseguiram nos minar por dentro mas não compreendem que esse grupo que nos açoita tem como premissa nos pegar pela base, como é o caso da proposta relacionada à educação. Estão partindo exatamente da base ou seja, da feitura dos livros destinados a professores e alunos. O resto, é fácil mudar.Penso estarmos em terra de cegos.

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