Conecte-se conosco

O que está por trás do sequestro do mandato de Sandro Pimentel (PSOL) no RN

Publicadoo

em

Por Rafael Duarte, da agência Saiba Mais

Eleito deputado estadual com 19.158 votos em outubro passado, Sandro Pimentel (PSOL) é vítima de uma trama inédita no Brasil. Ele teve as contas reprovadas em primeira instância e mesmo sem ter o recurso julgado pela Justiça Eleitoral, o parlamentar foi impedido de receber o diploma em 19 de dezembro de 2018 por uma decisão monocrática da juíza substituta auxiliar Adriana Cavalcanti Magalhães Faustino Ferreira com base num pedido do Ministério Público Eleitoral, que apontou irregularidades na prestação de conta dele. O mérito do recurso apresentado no processo, no entanto, ainda não foi julgado.

O tribunal da Corte eleitoral só volta a se reunir a partir de 21 de janeiro, quando há expectativa de que o processo finalmente entre na pauta e seja apreciado pelos desembargadores.

O MP Eleitoral apontou cinco irregularidades, entre elas a falta de nota fiscal do som utilizado no lançamento da campanha, capacidade técnica da cantora que gravou o jingle e recursos utilizados no impulsionamento de propaganda no facebook. Dos cinco pontos, quatro foram aceitos e apenas um ficou “insanável”.

Pimentel é acusado, e reconhece a falha, de ter efetuado seis depósitos em espécie na conta eleitoral da campanha cujos valores superam o limite máximo de R$ 1.064,10 estipulado pela legislação. Os depósitos feitos por ele totalizaram R$ 30 mil.

O deputado estadual eleito já admitiu que houve erro no procedimento e, segundo ele, já apresentou extratos bancários comprovando que os recursos em espécie depositados na conta da campanha são originados dos salários de vereador de Natal e como trabalhador vigilante da UFRN, função que exerce até hoje.

Agência Saiba Mais conversou com Sandro Pimentel no gabinete da Câmara Municipal de Natal, onde ocupa o cargo de vereador.

Com semblante tranquilo, ele explicou que os depósitos feitos em espécie na conta da campanha se devem ao hábito de guardar dinheiro em casa. Pimentel informou que metade do valor – R$ 15 mil – já está declarado no Imposto de Renda. Os outros R$ 15 mil em espécie, segundo o parlamentar, foram sacados da conta pessoal, entre janeiro e outubro de 2018:

– Eu guardo dinheiro em casa desde que eu era jovem. E para a campanha guardei um pouco mais. Vinha juntando desde janeiro. Já disse no meu Imposto de Renda que eu tinha 15 mil e de janeiro até outubro juntei mais R$ 15 mil e utilizei na campanha, que foi muito pobre, gastamos só R$ 52 mil. Eu não uso dinheiro sujo. Existem campanhas milionárias que a gente não sabe de onde vem o dinheiro e talvez não seja tão verificada assim como a minha. A minha campanha quebra a regra.

Pimentel já apresentou os extratos da conta-corrente pessoal de onde teria sacado R$ 71 mil no período. E reforça que a origem do dinheiro usada na campanha é lícita:

– Como o Ministério Público prova que (a origem do dinheiro) é ilícita ? Mas aí você diz: “você prova que é lícito ?” Provo. Pelo meu extrato. Antes do Tribunal pedir eu peguei meu extrato, de janeiro a outubro, e mostrei que saquei R$ 71 mil no período. E se eu saquei essa soma eu tinha condição de ter R$ 30 mil no período eleitoral. Mostrei que não há caixa 2 porque o caixa 2 não passa pela conta. Digo que em muitos casos, se fossem políticos tradicionais, estavam diplomados hoje. Se eu usasse caixa 2 e não tivesse feito depósito nenhum eu estaria diplomado. Mas esse não é o meu hábito, não é minha prática. Gosto de fazer as coisas de forma lícita, transparente. As vezes pago preço por ser transparente demais.

Até deputados presos foram diplomados

Ainda que a Justiça não aceite as justificativas do parlamentar eleito, a não diplomação de Pimentel é uma agressão à democracia e um sequestro do voto de quase 20 mil eleitores. A legislação eleitoral não permite que a diplomação seja cassada por meio de liminar.

A título de comparação, o que demonstra ainda mais o absurdo do impedimento, é que a senadora eleita Zenaide Maia (PHS) teve as contas reprovadas após julgamento do mérito do processo pela Corte eleitoral e, mesmo assim, recebeu o diploma como parlamentar eleita. O processo dela segue tramitando e está em grau de recurso.

Outro exemplo que escancara ainda mais a tentativa de sequestro do mandato do PSOL no Rio Grande do Norte é que em Sergipe, o deputado federal eleito José Valdevan de Jesus Santos (PSC) está preso acusado de receber doações de laranjas na campanha e, mesmo assim, o Tribunal Superior Eleitoral autorizou a diplomação dele por procuração. O TRE ainda tentou impedir a posse por meio de liminar, mas o TSE suspendeu os efeitos do recurso e garantiu a diplomação.

No Acre, o deputado federal eleito Manuel Marcos e deputada estadual Juliane Rodrigues, ambos do PRB, foram impedidos de receber o diploma em dezembro por estarem presos, acusados de compra de votos e desvio de mais de R$ 1 milhão do fundo partidário. No entanto, mesmo assim, receberam seus respectivos diplomas segunda-feira passada, 7 de janeiro, após a ministra do TSE Rosa Weber derrubar a liminar que impedia a diplomação.

Caso semelhante ocorreu no Rio de Janeiro, onde cinco deputados eleitos receberam o diploma por procuração em razão de prisões preventivas decretadas pela Justiça por conta da operação “Furna da Onça”. Os deputados André Corrêa (DEM), Chiquinho da Mangueira (PSC), Luiz Martins (PDT), Marcos Abrahão (Avante) e Marcus Vinícius “Neskau” (PTB) foram representados por advogados na diplomação.

Perfil

Sandro Pimentel é o primeiro deputado estadual eleito do PSOL na história do Rio Grande do Norte e tem um perfil completamente diferente ao dos parlamentares que ocupam uma vaga na Casa.

Vereador de Natal no segundo mandato consecutivo, ele é filho de agricultores, ainda trabalha como vigilante e mora na periferia de Natal, no bairro de Nossa Senhora da Apresentação, na Zona Norte da capital. A casa própria de Sandro Pimentel ainda não é quitada. Ele acredita que também há um preconceito de classe na tentativa de impugnar seu mandato:

– Eu me pergunto porquê está acontecendo isso comigo. Será porque eu sou filho de agricultor ? Porque eu sou vigilante ? Porque moro na periferia de Natal, em Nossa senhora da Apresentação numa casa ainda não quitada ? Por que eu não tenho riqueza ? Por que não sou filho de família tradicional ? É isso ? Porque se for isso está errado. A Justiça tem que ser linear. O pau que bate em Chico bate em Francisco. O que bate no rico tem que bater no pobre. Os tratamentos não podem ser diferenciados. Por isso estou confiante que vou ver a Justiça se reestabelecer porque como não há parecer no Tribunal, aí sim vou ver a justiça se restabelecendo e espero que eu seja diplomado.

PSD pediu a anulação dos votos de Sandro, mas recuou

Por trás da tentativa de tomar o mandato do deputado estadual eleito está o desejo do PSD de retomar a cadeira do deputado estadual Jacó Jácome, que não conseguiu se reeleger.

O parlamentar, que tem sua base eleitoral junto ao segmento evangélico e é autor do projeto Escola Sem Partido na ALRN, chegou a entrar com uma ação logo após as eleições requerendo a vaga no Supremo Tribunal Federal sob a justificativa de que o PSOL não havia atingido o quociente eleitoral, mas o ministro relator Luís Roberto Barroso negou o pedido.

Em novo ataque, o PSD ingressou segunda-feira (7) com ação pedindo a anulação dos votos de Sandro Pimentel, mas nesta quinta-feira recuou e desistiu do processo. Para o deputado estadual eleito pelo PSOL, a ação comprovou o que ele já suspeitava: a interferência política no caso.

Segundo a legislação eleitoral, diante de uma eventual impugnação do mandato de Pimentel, a cadeira deve ser ocupada pelo suplente. Como o PSOL não fez coligação com nenhum outro partido, a vaga naturalmente ficaria com o segundo deputado do Partido que obteve mais votos, no caso o professor Robério Paulino. O procurador eleitoral Kleber Martins, inclusive, pede que Robério Paulino seja diplomado no lugar de Pimentel, que reage:

– A gente já vinha com esse pensamento, mas não tinha provas. A partir do momento que o Jacó tinha tentado uma vez no Supremo e essa ação agora do PSD, as peças se uniram. Agora o motivo tem nome e sobrenome. É literalmente uma tentativa de assalto ao nosso mandato. Mas esse golpe não passará”, afirmou.

Sobre Jacó Jácome, ex-vereador e colega do próprio Sandro na Câmara Municipal, ele diz que os dois sempre se trataram com respeito, mas sugeriu que o parlamentar fosse fazer companhia ao pai, futuro auxiliar do governo Bolsonaro:

– Convivi muito bem com ele durante dois anos, sempre tratei Jacó com muito respeito. Ele é uma pessoa muito jovem, tem muita estrada pela frente, deve se candidatar a outros cargos. Acho que ele não deveria tentar sequestrar nosso mandato. O pai dele (Antônio Jácome) vai assumir agora um cargo no governo Bolsonaro e ele poderia ir pra lá, assessorar o pai, pra aprender alguma coisa”, alfinetou.

Há um ato público marcado para 16 de janeiro, a partir das 9h, em frente a Assembleia Legislativa, em defesa do mandato de Sandro Pimentel. A ideia é atrair para a manifestação não apenas eleitores do PSOLista, mas quem defende a democracia:

– Vamos convocar toda a sociedade, quem acha que estou sendo injustiçado. Porque eu estou sendo injustiçado. Vamos dar publicidade. Nosso advogado, no primeiro momento, pediu que ficássemos calados, mas agora já informamos a ele que cuidaremos nós mesmos da parte política. Não queremos informar o que está acontecendo só ao Rio Grande do Norte não. O Brasil tem que saber essa injustiça que está acontecendo aqui.

Sandro Pimentel também não tem dúvidas de que há um ataque orquestrado contra os mandatos de parlamentares de esquerda. E cita outros casos que ocorreram no Estado.

– Não é coincidência o que está acontecendo comigo nem o que aconteceu com o prefeito de Jaçanã Oton Mário, que também é do PSOL e tentaram cassá-lo. Não é coincidência o que fizeram com o deputado federal eleito Fernando Mineiro, que nem é do meu partido, mas foi eleito pelo voto popular. Não é coincidência também o que tentaram fazer com a própria governadora Fátima Bezerra, que teve a diplomação ameaçada. Nem é coincidência o que fizeram com Marielle Franco, que como não puderam cassar, eliminaram fisicamente. Eu sigo acreditando na força do voto popular. As tradições velhas da política estão sendo aniquiladas, mas não é com assassinato de ninguém não. Estão sendo aniquiladas pelo voto popular, pela vontade do povo.

Continue Lendo
Click para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

Publicadoo

em

Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

Continue Lendo

Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

Publicadoo

em

O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

Continue Lendo

Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Publicadoo

em

O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

Continue Lendo

Trending