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SOBRE O COMEÇO DO GOVERNO DE JAIR BOLSONARO

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Texto do professor Rodrigo Perez Oliveira (UFBA)

Definitivamente, não dá pra saber como o governo de Bolsonaro acabará. Qualquer um que arrisque um palpite estará apenas palpitando, torcendo, seja contra ou a favor.

Porém, é perfeitamente possível saber como o governo começará. Aqui o cenário é claro, basta colocar a cabeça para fora da janela e olhar. É isso que faço neste ensaio.

Não passaram nem dois meses desde as eleições. Parece que foi mais. Nas crises é assim mesmo. O tempo passa mais rápido. Bolsonaro foi consagrado nas urnas com uma votação expressiva (55% dos votos válidos). Não foi uma goleada, como em algum momento pareceu que seria. Mas foi uma votação expressiva. Não dá pra negar o óbvio.

 

Podemos até questionar o processo eleitoral, e cada vez mais estou convencido de que a esquerda naturalizou muito fácil essa derrota, como se as eleições tivessem acontecido dentro da normalidade. Haddad fez twite parabenizando Bolsonaro na mesma noite da derrota. O velho republicanismo de sempre.

 

Somente Lula, no pouco espaço que tem para falar, insiste em dizer o óbvio: as eleições foram fraudadas. O principal candidato foi impedido de concorrer pelo juiz que aceitou ser ministro do Presidente que a ajudou a eleger. Enfim, essa é outra discussão. Não é disso que quero falar aqui.

 

Fato mesmo é que Bolsonaro saiu fortalecido das urnas, como acontece com todo governo recém eleito. Em regra, os governos são como as pessoas: quanto mais jovens, mais saudáveis e viris. O governo de Bolsonaro é a exceção à regra.

 

Em janeiro, Bolsonaro começará seu mandato fragilizado, sem que a oposição tenha começado a se movimentar. E vejam, leitor e leitora, que a oposição, liderada pelo Partido dos Trabalhadores, também está fragilizada. Hoje, o Brasil vive uma situação atípica: o governo eleito e a oposição derrotada estão enfraquecidos. É que a crise é muito profunda. É a crise de todo um sistema político. É uma crise total.

 

Mas o que aconteceu em menos de dois meses que enfraqueceu tanto o Presidente eleito?

Por gilmar

 

1°) As disputas por dentro.

 

O governo de Jair Bolsonaro ainda nem começou e está sendo disputado por dentro, à foice. Os aliados estão ansiosos, afobados, comendo uns aos outros.As brigas estão vindo a público, num espetáculo grotesco e algo cômico.

 

Existem, hoje, cinco núcleos no governo de Jair Bolsonaro.

 

Cinco grupos com projetos distintos, e muitas vezes rivais entre si.

 

O núcleo do mercado tem o objetivo claro de dar continuidade à refundação do Estado brasileiro iniciada no governo de Michel Temer. Liderado por Paulo Guedes e seus “Chicago Boys”, o núcleo do mercado pretende sepultar de vez o nacional estatismo, entregando completamente o desenvolvimento nacional ao controle da iniciativa privada.

 

O núcleo dos militares, comandado pelo General Mourão, tem o objetivo de reabilitar a imagem das forças armadas como o berço das virtudes da pátria. Mourão já deixou claro que não será um “vice decorativo”, que quer protagonismo, que deseja interferir nos rumos do governo. Nos últimos dias, ele fez alguns gestos em defesa das empresas com especializadas em obras de infraestrutura, justamente aquelas que foram mais abaladas pela operação Lava Jato. Não me parece que os militares vejam com bons olhos a agenda privatista e entreguista representada por Paulo Guedes e pelo núcleo do mercado.

 

O núcleo da família é o mais ideologicamente desequilibrado. Os filhos de Bolsonaro, liderados por Eduardo, estão mesmo convencidos de que em algum momento existiu no Brasil um governo socialista, cujas heranças precisam ser combatidas a qualquer custo. Os caras estão dispostos a investir energia política nisso, seja tentando passar o “Projeto Escola Sem Partido” ou organizando uma “internacional conservadora”. Duvido que o núcleo do mercado, com seu pragmatismo, apoia essa jornada anticomunista da família presidencial.

 

O núcleo dos evangélicos, liderado por Silas Malafaia e Edir Macedo, tem afinidades programáticas com o núcleo familiar, já que a histeria comunista tem lá sua dimensão moralista, de patrulha do comportamento e controle dos corpos. No entanto, não me parece que os interesses dos evangélicos sejam exatamente os mesmos do núcleo familiar. Ainda não consigo distinguir com clareza uns e outros, mas tenho a intuição de que não são exatamente iguais. Os evangélicos são muito ambiciosos, desejam o controle pleno da política cultural e educacional do país. O caso da nomeação para o Ministério da Educação foi emblemático dessa ambição. Primeiro Bolsonaro nomeou Mozart Neves, um educador liberal, palatável ao mercado e tolerável até mesmo pelo campo progressista. Os evangélicos pressionaram e Bolsonaro precisou voltar atrás, nomeando Ricardo Véles Rodriguez, um direitista orgânico.

 

Há também o núcleo político, que se subdivide em outros dois grupos: em um lado, estão os parlamentares de primeiro mandato, eleitos quase todos pelo PSL. Alexandre Frota, Joice Hasselman, Daniel Silveira entre outos. Tal como acontece com o núcleo familiar, esses atores também são movidos pela histeria anticomunista, o que não significa necessariamente uma aliança entre os dois grupos. Pelo contrário, a disputa pelo protagonismo se torna ainda mais acirrada, como ficou claro no quebra pau entre Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselman. No outro subgrupo, estão as velhas raposas vinculadas a outros partidos de direita que estão acenando para Bolsonaro. Aqui, destaco Rodrigo Maia e a ala do PSDB liderada por João Dória. Essa semana, até mesmo Renan Calheiros piscou para o governo eleito, ao dizer que, se for o Presidente do Senado, não permitirá que Flávio Bolsonaro (o chefe do motorista milionário) seja processado na comissão de ética. Essas lideranças vinculadas a partidos tradicionais são fisiológicas, desejam poder. Por isso, querem se alimentar do bolsonarismo. Se elas perceberem que Bolsonaro está desidratando, não vão pensar duas vezes em pular fora do barco.

 

E ainda tem o Sérgio Moro no Ministério da Justiça. Não dá pra saber se Moro será movido apenas por um projeto pessoal de poder ou se será capaz de fundar e liderar outro núcleo. A ver o que acontece.

 

Como podemos perceber, são quatro grupos constituídos, com agendas diferentes, unidos por um fio muito tênue. Até aqui, ninguém conseguiu construir hegemonia, o que é um problema para Jair Bolsonaro, pois isso o obrigar a agir como o fiel da balança. Já que na disputa natural entre os aliados não há um vencedor, o Presidente terá que escolher, o que obviamente o desgastará com os que foram preteridos.

 

2°) O sentimento de frustração.

 

Algum escritor sábio já deve ter dito que a frustração é a filha da expectativa. Se ninguém disse, digo eu: a frustração é a filha da expectativa. Quanto maior a expectativa, maior será a frustração.

 

Um dos grandes méritos da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro foi o de convencer o eleitorado de que o capitão representa a mudança nas práticas políticas brasileiras.

 

E tratou-se de um grande mérito, de uma genial jogada de marketing político, pois foi capaz de esconder o óbvio: Bolsonaro foi um Deputado improdutivo por quase trinta anos e ao longo desse tempo só atendeu aos interesses de sua própria família, conseguindo transformar seus quatro filhos em políticos profissionais. É o velho nepotismo de sempre.

 

A família Bolsonaro construiu um império imobiliário. A curva de evolução patrimonial é impressionante. Mesmo assim, Bolsonaro conseguiu convencer seus eleitores de que é honesto e vai “mudar tudo isso aí”.

 

As pessoas estão esperando a mudança. Estão alimentando expectativas. Os eleitores mais atentos já começam a manifestar frustração, principalmente depois do escândalo envolvendo a movimentação bancária do assessor de Flávio Bolsonaro. Esse é um caso clássico de corrupção rasteira, baixa, típica do baixo clero. Explico rapidinho o esquema:

 

O parlamentar contrata uma dúzia de assessores e combina que eles devem devolver parte do salário. No começo do mês, logo depois de receberem o salário, os assessores pagam o pedágio, depositando o dinheiro na conta do assessor que ficou responsável pela gestão do esquema. Assim, o parlamentar ganha uma mesadinha por fora, livre de impostos, molezinha. No caso do bolsogate, a mesadinha foi depositada na conta de Michele Bolsonaro. É o mensalinho da Michele.

 

As pessoas estão vendo isso tudo acontecer, estão começando a se decepcionar. Se o governo não conseguir dar uma resposta rápida ao problema da crise econômica, se a população não sentir na pela a melhoria de suas condições materiais, todo esse clima de desconfiança vai evoluir para um sentimento coletivo de frustração, que vai ser tão forte quanto a expectativa gerada na campanha eleitoral. Se isso acontecer, Bolsonaro perderá as ruas. Sobrarão apenas os apoiadores mais fanáticos.

 

Não há dúvidas de que nos últimos anos, a esquerda brasileira vem sofrendo contundentes derrotas. Se fosse possível dar alguma boa notícia em meio a tanto desalento, eu diria que o lado de lá não tá com essa bola toda. O jogo continua sendo jogado. A história nunca acaba.

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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