Conecte-se conosco

Você, mulher negra, deve ler imediatamente “Escritos de uma vida”, de Sueli Carneiro

Publicadoo

em

Por Katia Passos e Anderson Moraes, Jornalistas Livres 

Vamos começar falando de emoção, amor e de mais uma mulher preta forte, ou seja, de luta.

Quando olhamos para Sueli Carneiro, uma das diretoras do Geledés – Instituto da Mulher Negra, vemos uma ancestralidade de respeito misturada a uma estrondosa demonstração de como se faz uma luta sem trégua contra o racismo e as desigualdades sociais. Não existe medida menor de adjetivação do que essa, para descrever o que Sueli representa. Talvez pudéssemos tentar sintetizar nossa tamanha admiração por ela, com um pensamento:  “temos muitas “Suelis” Carneiro dentro de muitas outras mulheres negras”.

Ainda bem que temos a chance de conviver, de aprender, de sofrer junto com outras, tantas outras mulheres negras que fazem o embate de tentarem ser escutadas contra as inúmeras e infelizes vivências de racismo estrutural. Sueli está em muitas, em todas, sem dúvidas. Umas estão dentro das outras.

E nesses encontros e escritos de vida é que Sueli Carneiro é digna de selo editorial. Uma homenagem de uma das mais atuais feministas negras, Mestre em Filosofia Política, Djamila Ribeiro.  

O primeiro livro deste selo é Sueli Carneiro: Escritos de uma obra, que teve lançamento na terça-feira, 4 de dezembro, no SESC Pompeia, em São Paulo. A obra está prefaciada por mais uma gigante: a escritora Conceição Evaristo.

O livro é composto por vários textos de Sueli, todos escritos durante as trajetórias de combate ao racismo contra mulheres e o povo negro. Mas é, sem dúvida, um livro de feminismo negro e um tratado de defesa contra o que mulheres negras não podem deixar de saber, entender, absorver e ainda mais: um fomento à luta que vai ser ainda mais árdua a partir de 1 de janeiro de 2019. Nesse quesito, a vida das negras nunca foi fácil, mas com o alimento de uma obra com as vivências e posições de Sueli, o cotidiano pode ficar um pouco mais fácil de ser racionalizado ou digerido.

O selo pensado por Djamila dá visibilidade às mulheres negras intelectuais e ativistas em vida. Vamos lembrar aqui que muitas nem depois do falecerem, tem seu devido reconhecimento. Então essa iniciativa. é sem dúvida, de um inestimável valor para os tempos atuais e futuros. 

Um caso? Somente agora, em 2018 Beatriz Nascimento terá uma obra a sua altura, que será lançada este mês pelo União dos Coletivos Pan-Africanistas de São Paulo (UCPA), o “Beatriz do Nascimento: intelectual e quilombola. Possibilidade nos dias de destruição”, na Biblioteca Mario Andrade, no centro de São Paulo. Procurem. 

Djamila Ribeiro (coordenadora do Selo), Átila Roque (autor da orelha do livro), Nilza Iraci (Presidenta e coordenadora de comunicação do Geledés) e Bianca Santana (escritora e acadêmica, tem trabalhado em uma biografia de Sueli Carneiro) estavam na mesa de lançamento no SESC. 

Uma curiosidade: Sueli se apresenta como muito brava e eloquente, principalmente quando está nervosa. Mas o que vimos foi um misto de elegante timidez e humildade e uma capacidade admirável de nos fazer querer ouvi-la mais e mais. Segundo ela, essa timidez fazia com que no início de sua militância, tivesse tremedeiras até para segurar o microfone quando ia falar. A saída era usar um pedestal. 

Para a escritora, redigir estava relacionado com a possibilidade de organizar o pensamento e poder transmitir aquilo que ela queria dizer, seja a indignação, a inquietação ou o que ela estivesse pensando. E continua, por isso ela nunca achou que seu texto tivesse qualidade, digamos, literária, pois sempre foi uma forma de organizar seus pensamentos e vencer a dificuldade se expressar sobretudo em público. 

Por isso, registramos aqui essa curiosidade de encarar um microfone, câmeras e luzes que implica uma responsabilidade numa dimensão de militância que ela sempre achou a mais penosa.

Sueli relatou que cada texto que compõem este livro expressa um momento de enfrentamento ou uma batalha que estava sendo travada. Simples assim. 

Sobre a “fama” de ser brava e difícil, Carneiro se autointitula como um “cordeiro”, perto do que era Tereza Santos.

https://www.geledes.org.br/tag/thereza-santos/

A escritora disse que ambas compunham uma espécie de time das mal-assombradas e relembrou que era uma expressão muito comum na Bahia, pois não havia sequer, meia dúzia de mulheres negras que recebiam essa alcunha. A plateia, respeitosamente, caiu em risos. 

Das vivências que Carneiro relatou, uma nos chama atenção. Na época na redemocratização, no primeiro governo que fora eleito em São Paulo, com André Franco Montoro, foi criado o Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo (CECF). Nesse órgão, de 32 mulheres, não havia sequer uma mulhere negra. Isso fez com que a radialista, Martha Arruda ficasse muito mais brava que Sueli e Tereza juntas. Marta “botou a boca no trombone”, disse Carneiro, e ainda convocou todas as mulheres negras da época a protestarem.

Resultado: foi criado um coletivo de mulheres negras para assegurar a presença delas naquele espaço

Em 1985, esse Conselho iria preparar um diagnostico sobre a situação das mulheres negras no Brasil de 1975 a 1985.

Tereza não teve duvidas em dizer que as mulheres negras iriam construir esse registro. Entre risos, Carneiro lembrou que Tereza era atriz, teatróloga, diretora de escola de samba, tudo que se possa imaginar, menos socióloga, e mesmo assim, ninguém ousou negar essa construção à ela.

Assim, o primeiro artigo que abre o livro lançado no SESC é esse texto: um estudo sobre as desigualdades entre mulheres negras e brancas, um conteúdo pioneiro sobre o tema. 

Sueli contou que todos os artigos do livro têm historias interligadas com essa sobre Tereza e o Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo.

Com muita gratidão, Carneiro lembrou que sem Djamila Ribeiro esse sonho não seria possível, pois com voluntarismo e sobretudo, pela feliz capacidade que a jovem filósofa vem mostrando em assumir lacunas e responsabilidades que a geração de Sueli está deixando é que hoje temos essa importante obra à nossa disposição.

Sueli fez ainda questão de registrar que o projeto de Djamila sana uma dívida pessoal e de sua geração conectada à missão do selo de construir a memória do legado de lutas de um saber que é vítima diária de inúmeras tentativas de sepultamento e invisibilização. E finaliza dizendo que Djamila a aposentou, pois esse legado está em mãos preciosas agora. 

Então vamos voltar a falar de amor, emoção e luta. Tudo isso só aconteceu, porque Djamila Ribeiro foi à casa de Sueli dizendo que faria um selo e daria o nome da filosofa e idealizadora do Geledes.

E nós falamos: Obrigado, Sueli Carneiro!

Continue Lendo
1 Comment

1 Comment

  1. Mikah Ribeiro

    08/12/18 at 13:02

    amei! são essas pessoas que nos inspiram a lutar, a seguir e a protestar!

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

Publicadoo

em

Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

Continue Lendo

Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

Publicadoo

em

O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

Continue Lendo

Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Publicadoo

em

O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

Continue Lendo

Trending