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Rafael Correa: ‘Restauração conservadora é um Plano Condor 2’

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por Murilo Matias

Rafael Correa deixou a presidência do Equador depois de dez anos no poder e quatro eleições vencidas, mas continua intensamente presente na política de seu país. Após sua Revolução Cidadã eleger o sucessor, Lenín Moreno, e 74 de 130 congressistas, uma inesperada guinada de rumo do novo mandatário coloca dúvidas sobre a continuidade do movimento responsável pela inclusão social de mais de dois milhões de equatorianos, redução das desigualdades e enfrentamento a setores da classe dominante.

No Brasil para uma série de encontros com líderes como Lula, Dilma e Mujica, o ex-presidente, que está engajado na formação de um novo partido político, falou com exclusividade a CartaCapital sobre a situação da esquerda em seu país, as dificuldades do campo progressista na América Latina, a perseguição a figuras populares e as novas estratégias da direita a serem enfrentadas pelo campo popular.

CartaCapital: Como a disputa política, de tão difícil compreensão sobretudo para quem está distante, tem afetado a vida da população?

Rafael Correa: Desde 24 de maio, a Revolução Cidadã foi interrompida. Há uma ofensiva conservadora para derrubar tudo que foi criado ao longo de uma década. Claro que não podem destruir as escolas, acabar com as estradas, mas podem entregar o poder aos de sempre. Essas pessoas esperavam um momento para nos trair, já que não conseguiam nos vencer nas urnas, e buscaram um traidor para roubar nosso triunfo e frear a continuidade do nosso projeto de esquerda, o que é gravíssimo para o povo.

Não se trata de diferentes formas de ser, são coisas muito profundas, ideológicas e éticas. A ditadura perfeita é a que tem a cumplicidade dos meios de comunicação e Lenín pactou com a imprensa mais corrupta. É como se aqui ganhasse Dilma e ela se aliasse ao grupo Globo, ou Scioli aderisse ao Clarín, na Argentina. Foi o que fez Moreno ao conseguir juntar toda a direita, nossos adversários e parte do poder público para perseguir e destroçar dez anos de profundas mudanças no Equador. Estamos fora do estado de direito, colocaram uma vice-presidenta inconstitucional, promoveram uma consulta que rompeu a divisão de poderes e impuseram um presidente da Assembleia. Estão perseguindo pessoas inocentes, o mesmo que estão fazendo com Lula.

CC: Como o progressismo rebate a utilização de instrumentos democráticos como consultas e referendos que ao fim servem a interesses de grupos hegemônicos e antipopulares?

RC: Realizamos quatro consultas nacionais, além de locais, todas pela Constituição. A última consulta popular foi na verdade feita pela oposição derrotada nas urnas. Dizem que o governo venceu. Como, se depois de toda campanha de mentiras, de perguntas induzidas ainda houve resistência como no caso em que se tratava da proibição da reeleição inclusive com efeito retroativo a de anos exatamente para impedir que eu participe, porque sabem que nas urnas nós os barramos? Eu mesmo defendi a transitoriedade, rejeitei assinaturas públicas e qualquer movimento de nossa bancada no congresso para eu apresentar uma nova candidatura porque essa é a minha ética democrática. Dizem que a proibição é para garantir a alternância democrática, mas é para tirar o direito do eleitor de escolher quem queira.

CC: Sobre a questão da reeleição, o senhor declarou que quando governos se reelegem na Europa trata-se de maturidade democrática, enquanto se o cenário for a América Latina a continuidade significa caudilhismo e ditadura.

RC: Esse é o erro que muitos analistas cometem. Há países europeus com reeleição indefinida. Hoje, os EUA podem ter um Trump ou não ter presidente que vão seguir funcionando, mas o sistema nasceu com reeleição ilimitada. Roosevelt ganhou quatro eleições e quando morreu no poder a direita e a esquerda, democratas e republicanos uniram-se para limitar o instituto e fazer um pacto oligárquico pelo controle do Estado. Ninguém deve ser imprescindível, mas há pessoas muito necessárias. Se um governo funcionou, por que mudá-lo? Basta de ingenuidade.

É o povo que deve decidir, com eleições transparentes e universais. Atentam até contra a Corte Interamericana de Direitos Humanos, que ratifica como razões exclusivas para impedir a participação política a nacionalidade ou o local de residência, mas nunca já haver ocupado um cargo. Trata-se de uma zona de terror em que buscam soluções extra-democráticas por meio da judicialização da política. Eu não pensava em me candidatar, mas só o temor de que poderia voltar foi suficiente. Pode-se enganar e manipular o povo com recursos da democracia direta. Trata-se de impedir a mim e ao progressismo. Já basta dessa dupla moral.

CC: Com a judicialização da política, há uma permanente tentativa de associar governos de esquerda à corrupção, além da perseguição a líderes. O vice-presidente Jorge Glass está preso e há muitos processos contra o senhor, Lula, Cristina Kirchner…

RC: A América está calada e se seguirmos assim só nos faltará a volta dos militares. As ditaduras dos anos 70 não regressam porque não se necessita, existem estratégias supostamente democráticas que impulsionam o ‘lawfare’, tudo aparentemente com uma imprensa livre. Estamos retrocedendo em nível constitucional e de direitos humanos. Há indícios claros de fraude em Honduras, perseguição ao kirchenrismo na Argentina com Cristina acusada de traição a pátria, algo que só acontecem em situação de guerra, e ninguém diz nada. Onde estão o Sistema Interamericano, a União Europeia? Se o que fazem contra Lula, Glass – que está preso sem nenhuma prova -, Cristina, Dilma fosse feito a um opositor na Venezuela, o país já teria sido invadido.

O mesmo ocorre comigo, não sei quantos processos tenho. A cada semanas casos de desvios são tratados como show pelos meios de comunicação para dar a entender que tudo é corrupção em nossa época. Nunca dizem onde está o dólar roubado, mas semeiam a dúvida. No caso Odebrecht perceberam ser rentável politicamente decretar que éramos corruptos quando o atual presidente e seu grupo formavam parte da administração. Se houve corrupção generalizada, onde estiveram nesses anos todos? Foram cúmplices, tontos ou estão mentindo? Para nos perseguir e desprestigiar inventam dados sobre a economia e repetem mentiras jogando com o que há de mais sagrado num revolucionário, a moral. É impossível não haver casos de corrupção, mas o que faz um governo ser honesto é sua não tolerância com essa prática, e nós não toleramos a corrupção.

CC: O senhor vivenciou os golpes de Honduras, Paraguai e Brasil na condição de presidente e sofreu também uma tentativa de afastamento. Que papel a Unasul teve nesses momentos e que posição adota agora?

RC: Nunca houve um golpe de Estado contra um governo de direita, sempre contra a esquerda. Houve o golpe fracassado contra Chávez em 2002, ações separatistas na Bolívia e em seguida o golpe exitoso contra Zelaya em Honduras com descarada participação militar. Houve a deposição de Lugo (no Paraguai) aproveitando-se de incidentes violentos ocorridos no campo. Logo veio contra mim, quando estive mais de dez horas detido por grupos armados que ameaçavam tomar aeroportos e a Assembleia. Obtive o apoio das ruas para derrotar esse movimento. Recentemente, a consulta popular foi um golpe contra mim para impedir uma possível nova candidatura. O que se passou no Brasil é impensável. Um golpe parlamentar criado a partir de um bombardeio midiático que cria insatisfação ao dizer que tudo está mal. O PT tirou 38 milhões da pobreza, mas onde estiveram essas pessoas quando destituíram (Dilma) ilegalmente?

CC: Há um incremento no Brasil da presença dos militares em postos estratégicos. O Rio está sob intervenção militar e há um aumento da repressão a movimentos sociais e da violência, inclusive com crimes políticos como o cometido contra a vereadora Marielle Franco. Como se chegou a essa situação?

RC: O poder civil deve prevalecer. Temer as forças armadas é um retrocesso e é o que faz o atual governo. Lenín diz que confia muito nas forças armadas para dizer que sem eles não pode governar. Tive enfrentamentos fortes com o alto comando para que os soldados tivessem boas casas, bons salários. A repressão no Equador não é noticiada. Muitas pessoas vão à porta da cadeia em apoio a Glass e são repimidas.

CC: Diante do avanço da direita, fala-se em uma restauração conservadora. Qual a debilidade demonstrada pela esquerda para que a situação se apresente tão desfavorável?

A direta mudou suas estratégias. Em 2014, observamos uma organização de forças conservadoras com discursos articulados nacional e internacionalmente. A restauração é um Plano Condor 2. Nos anos 70 havia desaparecimentos e assassinatos, que ainda persistem como o ocorrido com a vereadora Marielle, mas agora não se respeita a democracia e os direitos humanos de formas mais sutis através do linchamento mediático, da judicialização. Nossos governos foram exitosos, mas claro que tiveram desgastes, como variações de ciclo econômico, a queda de preço de alimentos, minerais, do petróleo que chegou a cem reais o barril e depois estava em dezesseis. Tivemos anos difíceis ainda com terremotos, multas por conta de tratados de comércio e apressadamente falavam em fracasso e condenavam nossas políticas públicas ao invés de reconhecer que elas evitavam o colapso do país.

CC: Como está a formação do novo partido depois da ruptura da Aliança País e como se dá a relação de forças no Congresso a partir do novo cenário?

RC: Ganhamos a eleição presidencial e a maioria na Assembleia não por causa de Lenín, mas pela Revolução Cidadã. Soubemos agora que já durante o segundo turno Lenín estava pactando com a direita e ao chegar ao poder passou a promover o programa da oposição. Dos 74 eleitos, ficamos com 29 e o restante está com o governo. Há muita gente leal, mas o que me surpreendeu foi que a maioria das pessoas se enganaram, outras se venderam por cargos ou covardia e várias foram ameaçadas. Já me ligaram chorando dizendo que não podiam fazer diferente, mas outras pessoas passaram pelo mesmo e fizeram diferente. Agora, no Congresso, não há maioria e a gestão se alia à direita, rompe a Constituição, compra a imprensa e a direção do partido, por isso estamos formando um partido novo. Mesmo que eles fiquem com nossa tradição, a infraestrutura, o povo está conosco. A Aliança País passou de ser a legenda com maior apoio popular, com 30%, para o patamar de 8%.

CC: Durante seu mandato o senhor promovia sabatinas para estar em contato com a população. Como deve ser feito o enfrentamento no campo comunicacional?

RC: Se a esquerda não entendeu que a imprensa burguesa é o principal inimigo, não entendemos nada. Sem a imprensa, a direita não poderia fazer o que faz. Eu tinha mais credibilidade do que a imprensa e capacidade de comunicação a partir do governo. Em 2007, de sete canais nacionais, cinco eram de oposição. Nenhum pobre tem canal de televisão. Os meios de comunicação são comprados para defender os interesses dos grupos dominantes, não para informar. Precisamos mudar as relações para o poder estar na mãos da maioria e transformar o Estado para servir a todos, principalmente aos mais pobres. É necessário mudar a imprensa imoral e corrupta que domina a América Latina e age para manter o status quo.

CC: Como avalia o cenário de eleições em Brasil, México e Venezuela, e a perspectiva da retomada da esquerda em países centrais da região?

RC: Em 2013, vivemos a época de ouro do progressismo. Oito de dez países sul-americanos tinham governos de esquerda, com exceção de Peru e Colômbia. Quatro anos depois, ocorre essa mudança brutal. A América Latina é uma região de surpresas. Não sabemos o que vai ocorrer nos próximos meses e anos. Maduro deve ganhar na Venezuela, por isso a oposição quer postergar a disputa. Lula deve ganhar no Brasil e Obrador no México. Se Evo Morales concorresse, venceria na Bolívia e o mesmo se passaria conosco no Equador. Nossos povos podem se aturdir, mas despertarão e a retomada será importante.

CC: Com a nova situação política o senhor decidiu regressar em definitivo ao Equador ou permanecerá na Bélgica?

RC: Somos uma família que não deseja luxos. Sempre vivemos em nossa casa de classe média, minha mulher permaneceu como professora primária por dez anos e minhas filhas somente foram estudar fora por conta da pressão mediática a que estavam expostas. Meus planos eram me retirar da política equatoriana por um tempo pelo menos, mas a traição sofrida e os companheiros que precisavam de apoio exigiam minha presença. Agora, meu futuro está indefinido.

por Murilo Matias, publicado 19/03/2018, na Carta Capital

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Geral

A satanização do Irã pela mídia ocidental, um processo em desconstrução

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Eduardo Nunes Campos*

Desde 1979, ano da Revolução Islâmica, o Irã e a sociedade iraniana são rotulados mundo afora como símbolos de terrorismo, de crueldade, de violência, de preconceito. Essa imagem foi sendo sistematicamente construída pelo mainstream ocidental, através das grandes mídias e do cinema, sobretudo a partir dos Estados Unidos e da Europa, em especial o Reino Unido, de seus aliados em outros continentes e dos vizinhos árabes da civilização persa.
Para além das mudanças internas promovidas pelas lideranças xiitas que assumiram o poder, o Irã, antes totalmente subjugado aos interesses dos Estados Unidos e da Inglaterra, tornou-se o país mais anti-imperialista do mundo, minando o poder do Império na Ásia Ocidental. A região passou a ser taxada de Oriente Médio a partir do final do século XIX, refletindo a visão eurocêntrica do continente, que se considerava a grande referência histórica e cultural do planeta.
O isolamento do país na região se expressa na criação do Conselho de Cooperação do Golfo, em 1981, constituído pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes, Kwait e Omã. O surgimento da instituição reflete a desconfiança desses países em relação à Revolução Islâmica, mas é instigado pelos Estados Unidos. Em 1980 emerge a “Doutrina Carter”, segundo a qual o país usaria força militar para defender seus interesses no Golfo Pérsico, mirando sobretudo o petróleo e em contraposição à invasão do Afeganistão pela União Soviética. A partir da chamada “Guerra do Golfo” (1990-1991), bases estadunidenses foram instaladas em todos os países do Conselho.

Irã Mall Foto: Eduardo Campos

A construção da imagem do Irã como um Estado terrorista contradiz sua história. Desde o final do século XVIII o país não ataca nenhum outro, a não ser revidando agressões sofridas. É oponente declarado das facções islâmicas extremistas e sectárias, como os salafistas, aos quais se vinculam o Al-Qaeda e o Estado Islâmico.
Essa falsa imagem do país forjada pelo Ocidente atingiu diretamente os iranianos, que passaram a ser vistos como um povo violento, atrasado e preconceituoso. A iranofobia é uma junção de estereótipos, xenofobia e islamofobia. O que a torna mais grave ainda é o fato de ter sido assimilada por parte expressiva do mundo progressista, em função da escassez ou mesmo da inexistência, até recentemente, de canais globais de alcance significativo capazes de fazer uma contraposição efetiva ao mainstream.
Ao contrário da visão propagandeada, os iranianos são muito inteligentes e cultos. Amantes das artes, são historicamente conhecidos por sua tapeçaria única, destacando-se também sua arquitetura, a poesia, a música, a caligrafia como arte visual e a produção de filmes excepcionais. Seu lazer inclui também a prática sistemática dos piqueniques envolvendo familiares e amigos.

Destaca-se ainda em sua cultura a celebração do Ano Novo, o Nowruz, que se inicia entre 20 e 21 de março, quando começa a primavera, e se estende por 13 dias. Na véspera da última quarta-feira do ano persa realiza-se um ritual de fogo por todo o país, chamado “Chaharshanbe Suri”, que tem origem no zoroastrismo. As pessoas acendem fogueiras em espaços abertos ao longo da noite e saltam sobre as chamas para se purificar e afastar o que de negativo aconteceu no ano que se passou e emanar energias positivas e saúde para o ano que se inicia.

Ritual de fogo “Chaharshanbe Suri” Foto: Eduardo Campos

A sociedade apresenta traços de modernidade que contrastam com outros de natureza conservadora. O homem é considerado o provedor da família e tem que oferecer um dote à mulher quando se casam, mas contingente significativo de mulheres já tem seu lugar no mercado de trabalho. As mulheres, a despeito das restrições que lhes são impostas pela República Islâmica, cujas normas têm forte componente machista, ocupam posição de relevo em várias áreas, constituindo cerca de 60% dos estudantes universitários do país, com destaque para sua presença nas áreas de Engenharia e Ciências.

O índice de natalidade é baixo e o de alfabetização próximo dos 90%, sendo de quase 100% entre os jovens. A taxa de divórcio é elevada, superior a 50% em algumas grandes cidades, sendo parte dessa taxa derivada da pressão da mulher sobre o marido para pagar o dote ou aceitar a separação. As taxas de feminicídio não são conhecidas, mas não há indícios de que sejam elevadas. A legislação, contudo, é leniente com o marido que mata a esposa quando o adultério é inequivocamente comprovado, sendo perdoado ou recebendo uma pena leve, pelo fato de a traição da mulher, e apenas dela, ser considerada crime contra a honra.
Um dado curioso é que, apesar de o aborto e a homossexualidade serem vedados, o Irã é um dos países do mundo em que mais se realizam cirurgias de mudança de gênero, parte das quais custeadas pelo Estado. Está também no topo das rinoplastias, cirurgias para remodelar o nariz, percebidas cotidianamente nas ruas de Teerã. Em sentido contrário, raramente se encontra no Irã um homem usando gravata, vista como símbolo de opressão e da influência imperialista ocidental.
Os iranianos são doces, acolhedores e generosos, talvez como nenhum outro povo em todo o planeta. Estrangeiros que visitam o país são frequentemente convidados para jantares e chás em suas casas e, por vezes, até mesmo a se hospedarem nelas. Tratamento especial é dispensado aos visitantes, quaisquer que sejam eles, parentes, amigos ou aqueles até então desconhecidos. São sempre servidos em primeiro lugar e alvos de permanente atenção dos anfitriões.
A origem dessa hospitalidade e simpatia está na cultura persa e se expressa em um gesto de cortesia conhecido como “taarof”. Quando uma pessoa oferece alguma coisa a outra a praxe é inicialmente ouvir um “não, obrigado” como resposta. Se ela insiste é uma demonstração de que não se trata de uma oferta retórica, mas efetiva. Esse gesto polido é comum até mesmo quando se tem que fazer um pagamento de uma compra ou serviço prestado, quando o credor costuma recusar o dinheiro na primeira tentativa de quitação da dívida.
Mas há um fator adicional à cultura persa que ajuda a entender a postura simpática dos iranianos em relação aos estrangeiros que visitam o país: a consciência de que são um povo estereotipado, hostilizado e objeto de profundo preconceito ao redor do mundo. Sentem-se todos extremamente injustiçados com a visão discriminatória de que são vítimas, sejam os apoiadores da República Islâmica sejam seus opositores, que concordam, em maior ou menor grau, com críticas dirigidas ao sistema de poder e não admitem ser confundidos com ele.
Nem tudo, entretanto, são flores na sociedade iraniana para os não nativos no país. Os árabes, com quem são confundidos com frequência, são alvos de um enorme preconceito, cuja origem remonta ao passado de ambas as civilizações. Pertencem a grupos étnicos, linguísticos e culturais distintas, sendo a maioria dos iranianos de origem persa, havendo também um contingente significativo de azeris e curdos e em menor grau de outras etnias. Essa diversidade inclui até mesmo árabes, que constituem cerca de 2% da população nativa.
Adicionam-se às diferenças históricas as religiosas e as disputas pela hegemonia da região. Os iranianos que professam o islamismo são adeptos da corrente xiita, enquanto a maioria dos países árabes são de maioria sunita, exceção feita ao Iraque e ao Bahrein. Há também zoroastristas, judeus e cristãos no país e um número expressivo de seculares e ateus nas camadas mais jovens.
A guerra em curso e a primeira ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o país, em junho de 2025, estão tendo um papel importante na desconstrução dessa falsa imagem do Irã e de seu povo. A mídia convencional do Ocidente já não consegue esconder que o Irã é a vítima e não o algoz, ainda que continue se esforçando para sustentar que, em última instância, o país é o responsável pelos conflitos na região, e não a aliança entre o Império e os sionistas.
A unidade dos iranianos contra as agressões de que são alvos é um outro fator importante de desmascaramento da mídia mainstream. Não se trata de ignorar as contradições do país, o descontentamento de parcela considerável da população com a República Islâmica, mas de defender a sua soberania e da compreensão majoritária de que cabe aos iranianos, e tão somente a eles, resolverem os seus problemas internos.
O expressivo fortalecimento da mídia alternativa tem também cumprido um papel de grande relevo nesse processo. Cresce significativamente o alcance de canais progressistas no youtube, a plataforma substack, os sites contra-hegemônicos. Não por acaso, recente pesquisa feita a partir dos Estados Unidos constatou que Israel é hoje o país mais odiado do planeta, além de ter perdido o apoio da maioria da população estadunidense, o que seria impensável até alguns anos atrás.
O resgate das enormes qualidades do povo iraniano, de sua inteligência, de sua sabedoria e de sua cultura não deve ser visto apenas como uma reparação das injustiças que contra ele têm sido cometidas ao longo das últimas décadas, mas como um aprendizado para os segmentos progressistas da sociedade mundial que se deixaram enganar pelas falácias da mídia convencional do Ocidente. Ao mesmo tempo é imprescindível reconhecer e valorizar as ações anti-imperialistas da República Islâmica do Irã, independentemente de diferenças culturais ou mesmo ideológicas que se possa ter com ela.

(*) Jornalista

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Internacional

IRÃ: A GUERRA DAS CRIANÇAS

Irã se prepara para receber 20 milhões de peregrinos nas cerimônias de despedida do aiatolá Khamenei, que se iniciam na próxima sexta-feira (3)

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O Irã se prepara para uma colossal manifestação de unidade nacional a ser realizada durante as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que se iniciarão na próxima sexta-feira (3), quatro meses depois de seu assassinato, no dia 28 de fevereiro, o primeiro dia da guerra mais recente dos Estados Unidos e Israel contra o país persa. Há quatro meses, o presidente Donald Trump anunciava seu principal objetivo: derrubar a teocracia xiita, que governa o Irã desde a revolução islâmica de 1979, e se apossar das suas imensas reservas petrolíferas nacionais. Quatro meses depois, o Irã segue insubmisso já que logrou impor duras derrotas à coalizão EUA-Israel. E é nesse quadro, tendo conquistado um acordo de paz ainda frágil, que o Irã se organiza para receber estimados 20 milhões de peregrinos nas cerimônias fúnebres que homenagearão Ali Khamenei.

Uma pequena amostra desses preparativos foi o que os observadores brasileiros puderam testemunhar na noite de ontem, sob lua cheia e temperatura de 34 graus Celsius. Em uma praça no norte da capital Teerã, todas as noites desde o assassinato do dia 28 de fevereiro, se reúnem iranianos — a maioria deles praticantes da fé xiita — para homenagear o aiatolá Ali Khamenei, as 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos, mortas por bombardeio americano no mesmo dia na escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, e centenas de outras vítimas da guerra.

A delegação brasileira está hospedada em um hotel localizado a aproximadamente cem metros de um prédio que foi destruído por um bombardeio. As ruínas são visíveis. O clima nas ruas é de calma, mas de luto evidente. As cerimônias noturnas reúnem centenas de pessoas — e, em algumas cidades, milhares. Em Teerã, cidade de 10 milhões de habitantes, essas manifestações ocorrem simultaneamente em várias praças, espalhadas por vários bairros. Os participantes cantam, empunham bandeiras do Irã e choram abertamente. É impressionante o envolvimento das crianças iranianas nessas cerimônias.

O assassinato das 168 meninas na escola de Minab, gerou uma mobilização expressiva entre o público infantil. Na praça onde estive, crianças participavam da cerimônia: agitavam bandeiras, brincavam e cantavam músicas em homenagem às colegas mortas e ao líder supremo morto. “Podia ser eu”, disse um menino de 15 anos à reportagem, depois de sair com uma miniatura do drone Shahed-136, fabricado no Irã, arma de guerra “revolucionária”, segundo o comandante Robinson Farinazzo, da Marinha brasileira. Com um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o Shahed conseguiu confundir os sistemas de defesa dos EUA e esteve envolvido na derrubada de aeronaves norte-americanas e no ataque a navios cargueiros que se aventuraram pelo estreito de Ormuz, controlado pelo Irã. Cada miniatura do Shahed, impresso em 3D, e vendida na praça, saía pelo equivalente a US$ 3, mesmo preço da miniatura do míssil Fattah-1, outra jóia do arsenal iraniano, um míssil “hipersônico” que viaja em direção ao seu alvo a uma velocidade cinco vezes maior do que a velocidade do som (cerca, 6.100 km/hora). Os meninos adoram.

Segundo a organização do enterro, o corpo do aiatolá Khamenei, em caixão fechado, deixará Teerã nos próximos dias e percorrerá cidades do Irã e do Iraque (Najaf e Karbala), onde se encontram santuários sagrados do islamismo. O enterro ocorrerá no local que ele determinou em testamento.

Segundo a agência de notícias iraniana Fars, uma cerimônia de homenagem para líderes estrangeiros e autoridades de alto escalão está prevista para 3 de julho em Teerã. Cerimônias públicas de despedida estão marcadas para os dias 4 e 5 de julho no Imam Khomeini Mosalla, na capital. Uma procissão fúnebre em Teerã está agendada para 6 de julho. Outras cerimônias estão programadas para 7 de julho em Qom, 8 de julho em Najaf e Karbala, e 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, terra natal de Khamenei. Ele será sepultado no Santuário do Imam Reza, um dos locais mais sagrados do Islã xiita.

Em tempo: estou usando véu, em sinal de respeito aos preceitos religiosos xiitas. Também me visto de forma respeitosa em relação dos preceitos religiosos quando compareço a cerimônias católicas, evangélicas, judaicas ou do candomblé.  Mas, andando pela cidade de Teerã, vi muitas (muitas mesmo) mulheres sem véu. Trata-se de um sinal evidente de distensão da norma.

Por Laura Capriglione é enviada especial a Teerã, para a TVT e Jornalistas Livres

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Geral

O caso Mariana Ferrer, por Honoré de Balzac

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

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O caso Mariana Ferrer por Honoré de Balzac

Por Dirce Waltrick do Amarante*

Quando o escritor francês Honoré de Balzac teve acesso ao vídeo da audiência de Mariana Ferrer, ele decidiu escrever o Código dos homens honestos, isso nos idos de 1875, mas só agora estou tornando públicas suas palavras, que estavam sob segredo de justiça.  

Em uma análise bastante rigorosa, Balzac lembra, em primeiro lugar, que sabemos perfeitamente bem que “em princípio, ficou estabelecido que a justiça seria para todos, mas […]” . A tradução é de Léa Novaes, pois Balzac tinha dificuldade em escrever em português.

Dito isso, ele fala da figura do procurador. Em tempos idos, diz Balzac, os procuradores “levavam tão a sério o interesse de um cliente que chegavam a morrer por eles”. Além disso, eles “nunca frequentavam a sociedade”, e se a frequentassem eram vistos como “monstros”, mas hoje, “hoje tudo está monetarizado: já não se diz que Fulano foi nomeado procurador-geral, vai defender os interesses de sua província […]. Não, nada disso; o senhor Fulano acaba de conquistar um belo posto, procurador-geral, o que equivale a honorários de vinte mil francos […]”.

Balzac ia falar da figura do juiz e do defensor público, mas depois de tudo que assistiu ficou sem as palavras justas para descrevê-los.

Então, o escritor francês decidiu se debruçar sobre o papel do advogado, que “frequenta bailes, festas […] despreza tudo o que não é elegante”. E, diz Balzac, “Justiça seja feita aos advogados […]! São os decanos, os chefes, os santos, os deuses da arte de fazer fortuna com rapidez e com uma sagacidade que os torna merecedores de muitos elogios”.

Enfim, “de todas as mercadorias deste mundo, a mais cara é sem dúvida a justiça”.

Não citei na íntegra o texto do Balzac, porque foram esses os únicos fragmentos aos quais tive acesso, os outros foram apagados.  

*Formada em Direito, em 1992, na Universidade Federal de Santa Catarina

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