Sem essa de maçã e costela. Contra as mentiras de Adão!

Por Priscila de Oliveira Cardoso Pereira, especial para os Jornalistas Livres. Fotos: Dilceu Locir Witzke e Priscila de Oliveira Cardoso Pereira

“Se Eva tivesse escrito o Gênesis, como seria a primeira noite de amor do gênero humano? Eva teria começado a esclarecer que ela não nasceu de nenhuma costela, nem conheceu nenhuma cobra, nem ofereceu maçãs para ninguém, e que Deus nunca lhe disse: ‘Parirás com dor’ e ‘Teu marido te dominará’. Que todas essas histórias são puras mentiras que Adão contou à imprensa.” (Eduardo Galeano)

Com provocações como essa, o 4º Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião, foi aberto no dia 5 de agosto na Faculdade EST, em São Leopoldo (RS). Para a platéia repleta de diversidade preparou-se um cenário decorado com maçãs, flores e velas.

O símbolo do evento foi a maçã, que além de dialogar com o tema, evocava também, como foi lembrado na fala de abertura, o fruto proibido do mito da criação e a culpabilização da mulher. Idiomas, cores, orientações, religiões, cursos e lutas diversas. Foi um evento marcado pela pluralidade e transversalidade.

O Congresso Latino-Americano de Gênero e Religião surgiu da importância de construir um fórum continental que reunisse iniciativas que articulem gênero e religião nos pontos de vista acadêmico, social e político. Em sua quarta edição, com o tema “História, Saúde e Direitos”, o congresso contou com a presença de aproximadamente 300 pessoas, e tratou de políticas públicas e laicidade em perspectiva de gênero, diversidade sexual, raça e etnia, ecumenismo e diálogo inter-religioso, teoria queer, luta das mulheres na América Latina.

Além das mesas temáticas e grupos de trabalho, o congresso disponibilizou espaços para os movimentos sociais, feira de economia solidária, galeria de arte e a exposição das editoras que publicam nas áreas de pesquisa citadas.

O evento também promoveu uma plenária dos movimentos sociais presentes, que pautaram debates em comum, como gênero nas escolas, luta da comunidade LGBTQ, trabalho doméstico, migração, racismo, feminicídio, Estado laico, mulheres encarceradas, pessoas trans encarceradas, tráfico de mulheres. Houve uma crítica à ênfase que os movimentos têm dado à academia e o descaso com o trabalho popular. A conclusão foi pela necessidade de retomar o trabalho de base através da teologia e pedagogia, independente das confissões religiosas e movimentos.

Um momento emocionante do encontro foi a celebração dos 25 anos de criação da Cátedra de Teologia Feminista, no qual as mulheres partilharam suas experiências e transformações através do feminismo, numa mística repleta de símbolos e lágrimas.

A programação cultural foi recheada, contando com intervenções artísticas, música, dança e a batucada feminista da Marcha Mundial de Mulheres no encerramento.

Foram quatro dias importantes para fortalecimento da luta feminista, para o momento em que vivemos, cheio de retrocessos no Congresso Nacional e com um fundamentalismo religioso patriarcal, intolerante e homolesbitransfóbico. Ao compartilharmos nossas experiências e identificarmos nossos objetivos em comum, nos encontramos umas/uns nxs outrxs e renovamos as forças para continuar.

Priscila de Oliveira Cardoso Pereira é graduada em Teologia e militante do Levante Popular da Juventude e da REJU (Rede Ecumênica da Juventude).

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Feminismo
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