Partidos de direita são favoritos nas eleições presidenciais de El Salvador deste domingo

Depois de dez anos no poder a FMLN, representante da esquerda, tem reduzidas chances de chegar ao segundo turno, indicam pesquisas

MURILO MATIAS PARA O SITE  OPERA MUNDI

Caso as urnas confirmem a previsão, o pleito segue para o segundo turno, tirando da disputa o candidato Hugo Martínez, do tradicional partido de esquerda Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN).

De acordo com o levantamento, a liderança está nas mãos de Carlos Calleja, com 27% da preferência dos eleitores, seguido por Najib Bukele, com 21%, Hugo Martínez 10% e Josué Alvarado, do recém-formado partido Vamos, que apresentou apenas 3% de intenção de voto. A pesquisa aponta ainda que 22% de eleitores não sabem em quem votarão.

Entre os dois favoritos a vencer as eleições, o destaque é o ex-prefeito de San Salvador, Nayb Bukele, candidato alheio às grandes siglas, que se comunica pelas redes sociais e não comparece aos debates. O fenômeno, somado às dificuldades da esquerda e a centralidade dos temas relativos à corrupção e segurança, fazem com que a disputa salvadorenha repita em muitos aspectos os fenômenos ocorridos na recente eleição brasileira que culminou na vitória de Jair Bolsonaro, incluindo a suspeita de manipulação de dados em redes sociais.

“Vejo muito positivamente a vitória de Bolsonaro por sua luta contra a delinquência, temos muitas coincidências nisso. Estamos a ponto de romper trinta anos do bipartidarismo da Arena e da FMLN com um jovem de 38 anos, dentro de um partido criado há apenas nove anos. O cansaço das pessoas abre espaço para Bukele e nossa sigla”, define Guillermo Gallegos, deputado da Grande Aliança pela Unidade Nacional (Gana), que posiciona a legenda como liberal em termos econômicos e conservadora no terreno dos costumes.

À semelhança da plataforma vencedora no Brasil, o ex-prefeito bem avaliado na maioria das pesquisas de intenções dos votos sintetiza o sentimento das ruas com frases de efeito como a que repete sobre a corrupção, “o dinheiro alcança quando ninguém rouba”, garante Bukele. “Nas redes sociais nota-se muito apoio, mas nas ruas não há muita propaganda. Esses eleitores formam uma maioria que discorda da realidade que aí está, mas desconhecem a história do país, o processo da guerra, do pós-guerra. Como os meios de comunicação culpam a esquerda por toda a desordem, eles repetem essa ideia, além das discordâncias que existem por parte de setores mais críticos em relação ao atual governo”, comenta o jornalista Carlos Roberto.

Apesar do apelo de Bukele junto aos mais jovens, em paralelo à plataforma que prega a modernização do Estado, seu grupo político agrada aos segmentos conservadores ao propor leis mais punitivas no parlamento e o reforço dos aparelhos de repressão. No entanto, o candidato da Grande Aliança pela Unidade Nacional parece ignorar o rigor que a legislação já apresenta em determinados assuntos, a exemplo do caso de mulheres acusadas de aborto cujas penas podem chegar a trinta anos de detenção – no início deste ano, a pressão de movimentos sociais e feministas foi decisiva para a liberação da jovem Imelda Cortez, presa após um aborto espontâneo depois de ser violada durante anos por seu padrasto.

Embora as cifras oficiais indiquem a diminuição do número de homicídios no último ano, segundo as estatísticas do Plano El Salvador Seguro, o predomínio das questões envolvendo o poder das pandillas das letras e dos números, como são chamadas as principais facções do crime organizado Mara 18 e Mara Salvatrucha, e a sensação de insegurança, dificultam que a gestão do presidente Salvador Sánchez Cerén projete sua agenda positiva. Ao longo da década em que a esquerda esteve no poder, o país figurou entre os que mais reduziram seus índices de pobreza devido ao aumento da renda do trabalho nas famílias mais pobres, de acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), apesar do salário mínimo de 300 dólares ser considerado insuficiente para as necessidades de primeira ordem.  

O resultado do projeto Ciudad Mujer, centros de referência espalhados pelo território para o atendimento médico, jurídico e de qualificação profissional para as mulheres, que contempla mais de dois milhões de cidadãs, destaca-se entre os pontos que qualificam a administração. Figura histórica da FMLN, Cerén, ex-guerrilheiro presente nos acordos de paz celebrados 27 anos atrás e que carrega junto o título de professor, comemorou a extinção do analfabetismo em 100 das 232 cidades do país e a entrega de 80 mil títulos de propriedade a campesinos.

“Desde 2009 com o triunfo do primeiro governo da FMLN começaram a se assentar as bases das mudanças estruturais a favor da população mais desprotegida com programas de pacotes agrícolas, a pensão universal para idosos (…) fortalecidos ainda mais no segundo governo. Isso não foi fácil diante da direita oligárquica de Arena e Gana que consideram os projetos sociais desperdício de dinheiro”, publicou em nota a Associação Nacional de Trabalhadores Agropecuários, recomendando a seus membros a continuidade da presente gestão.

Das zonas rurais do país ao posicionamento no cenário internacional, a autonomia em relação ao tema venezuelano, por exemplo, pode ser medida na presença do presidente Cerén na posse de Nicolás Maduro, a despeito do tom adotado pela maioria dos vizinhos na América Central. A canonização pelo Vaticano de Monsenhor Romero, assassinado durante o auge da repressão oficial contra os movimentos populares e guerrilheiros nos anos 1980 aparece como outro momento de relevância no ambiente externo.

“Não sou religiosa, mas vejo Monsenhor Romero, mais do que um religioso, um personagem que fez algo muito importante para El Salvador. A admiração que existe é por sua obra de dar a vida ao povo e defender valores de igualdade”, comenta a estudante Gabriela Herrera.

A difícil “remontada”

A terceira geração da FMLN representada pelo engenheiro e ex-ministro das relações exteriores Hugo Martinez terá muita dificuldade em conquistar o terceiro mandato consecutivo para o partido. Segundo a empresa Gallup, Sanchez Céren desagrada metade dos eleitores e a permanente denúncia de esquemas de corrupção atingindo integrantes da legenda, incluindo o ex-presidente Mauricio Funes, que encontra-se em asilo na Nicarágua alegando perseguição judicial, debilita as chances da legenda em viabilizar a “remontada” (virada). A situação marca absoluto contraste com a disputa de cinco anos atrás, quando Funes estava entre os presidentes mais bem avaliados da região.

“As pessoas não avaliam Cerén por suas obras, mas pela maneira como se expressa. Os meios de comunicação e as redes tinham clara tendência de ridicularizá-lo, tornando mais evidente os equívocos através de um desgaste sistemático de sua imagem. Por outro lado, a esquerda foi muito mal comunicadora de seus acertos”, contextualiza o professor Romeo Miguel.

A ascensão da direita foi sentida já nas eleições municipais e parlamentares de 2018 quando a Arena venceu 138 prefeituras contra 61 obtidas pela Frente. Na Assembleia Legislativa, os conservadores voltaram a ter maioria com a ocupação de mais da metade das 84 cadeiras. “Aprofundamos programas sociais que se tornaram emblemáticos como as unidades de Cidade Mulher, a reforma de saúde, a alimentação e uniforme escolar até o ensino médio, a gratuidade no ensino superior, a formação e especialização de 25 mil docentes. Além disso, apostamos no engajamento popular criando a secretaria de participação cidadã, transparência e anticorrupção para prestar melhores informações à sociedade. Essas políticas não existiam há dez anos, avançamos grandemente. O legado desse governo mudou a vida dos salvadorenhos”, defende a deputada da FMLN, Dina Argueta.

Apesar da avaliação da congressista, a permanente crítica ao estilo do presidente junto aos graves problemas econômicos é explorada pela oposição para insuflar a insatisfação. A migração de salvadorenhos rumo aos Estados Unidos segue como a única alternativa a milhares de famílias, muitas inclusive agregam-se às caravanas migratórias que ocorrem na região em direção ao norte. Embora o oficialismo alegue que o contingente de migrantes venha diminuindo, três milhões de compatriotas vivem nos EUA, a maioria enviando remessas que representam expressiva parcela da economia da nação centro-americana.

“Hugo tem boas ideias, mas ninguém quer mais a FMLN, desejam algo novo. Falta oportunidades para trabalhar, grandes empresas saíram do país causando muito desocupação. Os empregos disponíveis pagam somente o salário base de 300 dólares e somente para comprar a cesta básica são necessários mais de 100 dólares, razão pela qual muitas pessoas se endividam”, avalia a chefe de cozinha Cláudia Dominguez.

É nesse aspecto que se concentra a campanha do empresário Callejas, sócio da principal rede de supermercados do país. “Vote por el trabajo”, propõe o candidato que defende a instituição do ensino do inglês para qualificar a mão de obra e tenta se desvincular das críticas que envolvem o passado da Arena, rechaçada por parte da população que enxerga no partido o alinhamento com os interesses da elite nacional em detrimento das classes menos favorecidas.

“As últimas pesquisas pontuam que 40% da população não tem ideologia, é um dado que nos mostra uma mudança de paradigma no plano político. As soluções esperadas pela cidadania deixaram de ser ideológicas e são sobre o bem-estar, os resultados e as oportunidades”, observa a deputada Milena Mayorga, da Arena.

A esquiva de posicionamentos demarcados encontra eco no discurso entoado pelos correligionários de Bukele. “Essa eleição é a menos ideológicas de todas, Bukele vai governar sem ideologias”, afirma o deputado Oziris Meza (Gana). Apesar do esforço, nem todos se convencem com a estratégia especialmente em relação a Bukele, que saiu da esquerdista FMLN para outro campo partidário e sobre cuja campanha paira a suspeita de manipulação nas redes ligada à obtenção de falsos apoios.

“Para conseguir a candidatura não importou a Bukele alinhar-se com um partido de direita. Muitos que iam votar por ele desistiram por essa razão. Foi um ato de desespero”, descreve Dora Quintanilla, de San Salvador, cidade que concentra muitos eleitores de Bukele, prefeito lembrado por doar o salário que recebia e pela revitalização do centro histórico, dentre outras ações na área de infraestrutura.

Tragado pelo discurso que muitas vezes beira a despolitização, discussões de fundo perdem fôlego substituídos pela especulação acerca da religião dos candidatos e por mensagens de Whatsapp sem qualquer comprovação de veracidade dos fatos que expõem. Na outra ponta, temas que interessam ao coletivo como a ameaça de privatização de mananciais de água – utilizados largamente por grandes empresas de bebidas de forma predatória – e a urgência em aumentar o investimento do PIB em educação, atualmente estacionado em 3%, são ofuscados.

Na véspera da decisão, os debates e tentativas de convencimento se concentrarão na militância uma vez que o período oficial da campanha está encerrado. Com o desafio de transformar os tempos de paz iniciados com a pacificação da guerra civil em tempos sem medo e de justiça social, El Salvador volta às urnas a cumprir mais uma fase de sua ainda recente democracia.

A expectativa de confirmação da vitória pela direita e o sonho da virada pela esquerda interessa para além dos sete milhões salvadorenhos a toda comunidade latino-americana na estreia eleitoral do ano na região.

Wikicommons

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