LGBTs dividem-se quanto à nomeação de Soninha para a Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual

Por Leo Moreira Sá, especial para os Jornalistas Livres Com fotos de Ennio Brauns

Soninha dá entrevista ao repórter Leo Moreira Sá, dos Jornalistas Livres

A nomeação de Sonia Francine Gaspar Marmo conhecida como Soninha para a Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual (CPDS), ligada à à Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do governo estadual de São Paulo, substituindo a titular Heloisa Helena Cidrin Gama Alves, surpreeendeu a comunidade LGBT e dividiu opiniões. A polêmica girou em torno do fato de que uma pessoa hétero (Soninha) entrar no lugar de uma lésbica (Heloisa) às vésperas do dia da Visibilidade Lésbica (29).

Profissional dedicada e muito querida pela comunidade LGBT, Heloísa Alves esteve na função por 4 anos e 3 meses e conquistou o respeito da maioria da militância e até mesmo de adversários políticos que reconhecem o seu comprometimento com a causa. Ela sofreu forte desgaste político entretanto em decorrência do seu envolvimento no caso Verônica Bolina, a travesti espancada por policiais nas dependências do 2° DP (https://www.facebook.com/jornalistaslivres/posts/299009370222947), mas ao que tudo indica não foi esse o motivo de sua destituição e sim uma transferência para outro cargo dentro do governo do Estado. Em um post de despedida em seu perfil do faceboock, Heloisa escreveu que irá continuar “na luta em prol da população LGBT, mas em outra trincheira”.

A nomeação de uma pessoa cisgênera e heterossexual, como Soninha, causou certo desconforto em algumas pessoas LGBTs, que preferiam que o cargo fosse ocupado por alguém da comunidade. Abaixo a opinião de militantes:

Marcia Balades da Liga Brasileira de Lésbicas: “Trata-se de um retrocesso sair a Heloisa e entrar a Soninha Francine que nem lésbica é, e ainda na véspera (do dia) da visibilidade lésbica (29.08). Mas isso é sintomático… As lésbicas são invisíveis no movimento LGBT, no movimento feminista, na sociedade, no trabalho, na família e agora mais que nunca no governo Alckmin. A Heloisa tem seus defeitos, mas tem um histórico na militância LGBT. Incrível como as pessoas são descartáveis quando não servem mais… Bom, espero que a Heloisa aprenda a não defender tanto o governo Alckmin.”

Nicolle Mahier, articuladora social da Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo: “Como dizia o Tiririca pior do que tá num fica, mas a Soninha pode surpreeender por ser de outro partido, o PPS, diferente do da Heloisa que dava uma passada de mão na cabeça da PM. Quem sabe ela afronte a PM ditatorial do Alckmin”.

Renata Peron, presidente da CAIS (Associação Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais): “O fato da Soninha Francine ser uma mulher cis e hétero, para mim não tem problema algum, mas é muito complicado nomear alguém que não faz parte da comunidade LGBT. Apesar disso, Soninha será bem vinda se ela tiver competência para essa pauta, e vamos trabalhar juntas para que a nossa população, que vem sofrendo preconceitos e violências todos os dia, possa ter um pouco mais de dignidade e respeito.”

Daniela Andrade, ativista transfeminista: “Não é necessário ser uma pessoa LGBT para assumir a CPDS porque há muitas pessoas héteros e cis que são bastante aliadas da causa LGBT. O grupo Mães pela Diversidade por exemplo, faz um brilhante trabalho de conscientização para a causa. Alguém diria que elas não deveriam fazer isso por não serem LGBTs? Pepe Vargas, o ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República estaria impossibilidade de pensar em políticas públicas para pessoas em situação de rua por não estar em situação de rua? Para deficientes por não ser deficiente? Desconheço também que ele seja LGBT. Ter um homem gay no comando dessa secretaria significa que pode representar os gays, mas vai representar uma mulher transexual, por exemplo? A menos que colocasse lá uma pessoa que fosse ao mesmo tempo gay, lésbica, bissexual, travesti e transexual, só aí para representar toda a população. É preciso ser uma pessoa que lembre o que significa lugar de fala e legitimidade de espaço. Para se criar políticas para todas as pessoas representadas na sigla LGBT, é preciso ouvir as diferentes vozes dos grupos representados por essa sigla. Creio que o requisito fundamental para estar à frente de um cargo de coordenação de políticas LGBTs é a aderência que a pessoa tem à causa de direitos humanos. Sempre vi Soninha aderente à causa dos direitos humanos.”

Em um post em seu perfil do FB, Soninha relata sua preocupação com a reação da comunidade LGBT à sua nomeação. Preocupava-a, principalmente, a reação da Daniela Andrade, considerada sua “guru” no “assunto trans”: “Depois de anos de militância, achei que já conhecia bastante o assunto, até participar com ela de uma roda de conversa e descobrir que não sabia da missa um terço (sem provocação religiosa rs). Que bom que ela não achou ruim… rsrs.”

O estilo sóbrio de terninho e óculos de Heloisa Alves, deu lugar ao estilo despojado da nova coordenadora, Soninha Francine, que é vegana e budista. É formada em cinema pela ECA-USP e começou sua carreira como VJ da MTV, permanecendo na emissora entre 1990 a 2000. Em seguida foi pra TV Cultura apresentar um programa para a juventude mas acabou sendo demitida depois de declarar ser usuária de maconha numa entrevista concedida à revista “Época” em 2001. Começou a sua carreira política em 2004 como vereadora eleita pelo PT, seu partido até 2007 quando se desfiliou. .Em 2009 foi nomeada subprefeita na gestão de Gilberto Kassab. Em 2010 foi editora do site oficial da campanha de José Serra à Presidência da República. Em 2014 tentou sair como deputada federal pela coligação PSDB-DEM-PPS, mas teve sua candidatura impugnada pelo TRE devido à lei da Ficha Limpa. Soninha foi diretora técnica da Sutaco (Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades) que teve as contas relativas ao ano de 2011 rejeitadas pelo Tribunal de Contas do Estado.

 
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