Lembremos para que nunca mais aconteça

O estudante e presidente da UBES Pedro Gorki escreve sobre as barbaridades de Jair Bolsonaro ao justificar a tortura e ironizar o desaparecimento de militantes contrários à ditadura militar

Pedro Gorki I Agência Saiba Mais 

Governos reacionários têm como uma de suas características a tentativa de mudar a história, apagar as torturas, brutalidades e desumanidades cometidas contra o povo. Como não podem mudar o presente (para melhor, porque sempre pode piorar), tentam mudar o passado, recontando a história sob o ponto de vista dos algozes, negando, minimizando ou justificando as atrocidades que a história não consegue apagar.

É o que acontece nesse momento. O Brasil tem um presidente que não nega a tortura, mas ao contrário a justifica, tem orgulho dela. É um ser humano da pior espécie, que homenageou Brilhante Ustra, ao votar pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef. Ustra foi o torturador de Dilma, presa durante a ditadura militar.

Depois de eleito, Bolsonaro determinou a comemoração do golpe de 1964, ocorrido em 31 de março. Agora, em sua declaração mais cínica e cruel, diz que “se o presidente da OAB quer saber como o pai desapareceu no período militar, eu conto pra ele”.

O presidente da OAB é Felipe Santa Cruz, filho de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, que desapareceu na ditadura. O pai do presidente da OAB militou no movimento estudantil e participou da Juventude Universitária Católica (JUC), movimento da Igreja reconhecido pela hierarquia eclesiástica, e depois integrou a Ação Popular (AP), organização contrária ao regime militar.

Sua mais recente cartada na tentativa de revisar a história é a troca dos integrantes da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Represália após a Comissão declarar que Fernando Santa Cruz foi assassinado pelo Estado brasileiro.

Além do atestado de óbito emitido pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, relatório da Comissão Nacional da Verdade destaca que documentos da Marinha e da Aeronáutica informam que Fernando foi preso e desapareceu quando estava sob custódia das Forças Armadas, em 1974.

Como Fernando, a ditadura deixou 434 mortes e mais de 200 desaparecidos, segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

Bolsonaro comete crime ao fazer a cínica declaração sobre Fernando Santa Cruz. Desrespeita a Constituição Federal que tem entre seus fundamentos “a dignidade da pessoa humana, na qual se inclui o direito ao respeito da memória dos mortos”.

Não é possível ficar calado diante de um presidente que desonra o cargo que ocupa, ofende os brasileiros e a Constituição. Bolsonaro e seus apoiadores querem fazer crer que não houve ditadura e sim uma guerra, vencida pelos militares.

Estudantes que somos, temos compromisso com a história e com o ensino em nossas escolas. Não aceitamos e denunciamos a tentativa de falsificar os fatos. Não se enganem os falsificadores. Podem ter vitórias momentâneas, mas jamais conseguirão esconder ou justificar a tortura e o assassinato.

Vamos às ruas, como foram os que se opunham ao regime militar de 1964. E como eles, iremos derrotar o obscurantismo antes do que imaginam. Estudamos a história e lutamos para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

Pedro Gorki é estudante do IFRN e presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas

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