Indígenas do Xingu sofrem com invasões de agropecuaristas

“Querem tomar”. Pajé da etnia Kalapalo alerta o que o Estado já sabe, mas finge não ver. Invasões de terra com interesses da indústria agropecuária preocupam tribos do Território Indígena do Xingu no Mato Grosso

Jawa Kalapalo, em 2018 durante entrevista. Foto: Christopher Noto

por Paulo Giannini*

Tapar o sol com a peneira. Essa parece ser a solução do governo brasileiro nos últimos anos quando a pauta é a causa indígena. Com incêndios batendo recordes alarmantes na região amazônica, mais uma vez a questão é levantada. Não muito longe do fogo que arde, o Território Indígena do Xingu, localizado no Mato Grosso, sofre com invasões de terras comandadas pelos interesses agropecuários.

Sempre oriento e explico, não pode liberar pro branco invadir, se não a gente vai perder. Presidente novo que entrou agora acabou de derrubar índio. Tá acabando (as terras), ele vai acabar com tudo”, afirmou o pajé Jawa Kalapalo, durante entrevista realizada em 2018 e só divulgada agora.

A luta para manter as fazendas agropecuárias literalmente nos limites da demarcação do Parque Indígena do Xingu é uma constante preocupação das 16 etnias que habitam o parque, como relata Jawa:

Querem tomar, entrar aqui. Entrar para derrubar, fazer a roça, para criar boi. Aí nós não deixamos não. Até hoje a gente segura na mão ainda. Isso é nosso, tá vendo aqui planta (mata fechada), essa é a nossa segurança. Se não como é que do branco vai esconder?”

O relato do pajé reforça a necessidade de um olhar mais atento para a questão socio ambiental dos povos originários dessas terras. O extermínio iniciado nos primeiros anos do século 16 pelos europeus segue seu curso quando o atual governo toma medidas ilegais como a tentativa de devolver a demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura, em junho deste ano.

Nesse momento vale ressaltar que a deputada Tereza Cristina (DEM), escolhida pelo presidente Bolsonaro para ser ministra da Agricultura e Pecuária, também já foi presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Frente que hoje é comandada pelo deputado Alceu Moreira (MDB). A FPA, conhecida por muitos como bancada ruralista, está à frente de projetos de lei que tendem a estimular ainda mais o aumento da violência de fazendeiros contra os povos indígenas.

É o caso do PL 3715/19, do senador Marcos Rogério (DEM), que libera a posse de arma em toda a extensão rural. O projeto foi aprovado na última quarta-feira, 21 de agosto, sobre o pretexto de corrigir um “equívoco”. O autor do projeto, senador Marcos Rogério afirma: “Não tem sentido autorizar a posse ao morador da zona rural e não permitir que ele exerça seu legítimo direito de defesa fora da sede da fazenda”. A medida preocupa ainda mais quando relatórios como o da ONG Global Witness registra 20 assassinatos de ativistas ambientais em 2018, um deles o cacique Emyra Waiãpi, no Amapá. Em 2017 foram 110 indígenas assassinados conforme informação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Ainda há tempo, ainda há esperança, a preocupação vem quando observa-se que as ações dos últimos governos não são as de um Estado que entende a necessidade e urgência de tomar medidas que diminuam tensões e evitem conflitos. A atenção ao que é decidido no Congresso, na Câmara dos Deputados e nos Ministérios deve ser redobrada.

* Paulo Giannini FIlho é jornalista desde 2015. Iniciou sua carreira no jornalismo institucional.  Teve passagem pelo jornalismo esportivo na redação do Jornal Lance!. Também trabalhou na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Esteve no Parque Indígena do Xingu em 2018, onde realizou a entrevista com o Pajé Jawa Kalapalo, ao lado do cinegrafista Christopher Noto. Hoje trabalha de forma independente.

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