ENCONTROS E DESENCONTROS: Andrés Manuel López Obrador e o EZLN

Por Maurício Barraza

MORENA, o partido político do novo presidente, prevaleceu praticamente em todo o país, obtendo 53% dos votos. AMLO ganhou em 31 dos 32 estados do México. Os deputados de MORENA serão maioria em 19 congressos estaduais e terão 309 de 500 espaços na câmara de deputados federal, assim como 69 de 128 vagas na câmara do senado. As cifras avassalantes e o clamor do povo legitimam e concedem um poder quase absoluto ao novo governo que começará em dezembro.

Neste primeiro mês depois da eleição, a ex-ministra da Suprema Corte de Justiça Nacional, proposta por AMLO como a próxima Ministra de Governação, o posto mais importante do gabinete, tem deixado clara a intenção de impulsionar a legalização do aborto, da maconha e da eutanásia no país inteiro. O presidente eleito também já divulgou seu plano de austeridade que propõe, entre outras coisas,  uma redução de 50% dos salários da alta burocracia do governo.

Mas, ao mesmo tempo, desde os cantos mais apartados do México, surgem vozes dissidentes que não confiam na mudança representada por López Obrador. Entre essas vozes,  o movimento social mais célebre do México: o Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN). Em 1994 os zapatistas organizaram milhares de indígenas no estado de Chiapas, no sudeste mexicano, e convocaram o povo mexicano a tomar às armas por uma verdadeira democracia, mas em 2018 eles se distanciam do presidente que promete superar o mesmo sistema corroído que eles combatem há décadas.  “Não, nós zapatistas não faremos parte” escreveu a Sexta Comissão do EZLN, em um comunicado intitulado “Píntale caracolitos a los malos gobiernos pasados, presentes y futuros”. A nota, assinada pelo célebre Subcomandante Galeano (antigo sub Marcos) e o atual porta-voz da organização, Subcomandante Moisés, é contundente ao expressar a rejeição ao novo governo.  “Poderão mudar o capataz e os mordomos (…) mas o fazendeiro continua sendo o mesmo”.

Para o EZLN, AMLO é filho e membro de uma democracia burguesa e de fato ele  declarou que a enorme desigualdade que sofre o povo mexicano não é produto do sistema capitalista e sim da corrupção. Já nos primeiros dias depois da eleição, López Obrador se reuniu com os empresários mais poderosos do México, e verdadeiramente, López Obrador nunca declarou ser anticapitalista, mas apenas contrário ao modelo neoliberal.

Nas últimas semanas, o EZLN embarcou numa discussão com Alejandro Solalinde, sacerdote mexicano defensor dos Direitos Humanos, especialmente dos direitos dos migrantes.  Solalinde, que integra a equipe de transição de López Obrador, declarou que o presidente eleito tem a intenção de dialogar com o EZLN e que inclusive já houve um diálogo entre zapatistas e integrantes da equipe de AMLO. Essa afirmação foi desmentida pelos  guerrilheiros de Chiapas através de outro comunicado, no qual chamam Solalinde de “racista, machista e mentiroso”, isto, entre outras coisas, porque o padre também já mencionou que “alguns poucos mestiços mantém o EZLN sequestrado, pois não permitiram o diálogo entre o próximo governo e as bases zapatistas”. Essa suspeita, que talvez beire a relutância, não é arbitrária. O movimento já teve experiências amargas por  “dialogar” com governos em turno.

Na primeira vez, o governo priísta de Ernesto Zedillo cometeu um massacre na qual foram assassinados quase cinquenta indígenas, incluindo mulheres e crianças, no episódio lembrado como  “o massacre de Acteal”. Em um segundo momento, quando o EZLN tentou colocar em prática os “Acordos de San Andrés”, que abordavam questões como a autodeterminação dos povos indígenas e sua plena autonomia, o governo conservador de Vicente Fox violou sua promessa de respeitar tais acordos, depois de falar durante a campanha que solucionaria “a problemática zapatista em quinze segundos”. Agora, mais uma vez, o novo presidente eleito se compromete a cumprir os acordos de San Andrés, mas, mesmo que López Obrador esteja agindo de boa fé,  os zapatistas não acreditam em seu projeto de nação.

Entre tanta confusão, desqualificação e desconfiança, a possibilidade de diálogo entre o EZLN e a nova presidência seria rentável se houvesse uma vontade sincera das duas partes. Provavelmente as experiências e as sabedorias zapatistas ensinariam muito à jovem democracia mexicana, e eles conseguiriam colocar sua agenda nas políticas públicas nacionais. Mas, enquanto uns chamam os outros de “radicais”, estes outros chamam os uns de “mentirosos” e “racistas”. Enquanto a maioria do povo do México vê o novo governo de López Obrador com esperança, os “de baixo e a esquerda” se desencontram com quem eles consideram “mais um” da classe política tradicional mexicana.

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