Agosto Indígena: tempo novo é tempo de luta

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Guarani, tukano, xavante… representantes de diversas etnias dos povos originários realizaram mais uma manifestação na Avenida Paulista para protestar contra o etnocídio e as ameaças de retrocessos, como a PEC 215 e a Agenda Brasil

por Adriana Carvalho, apoiadora dos Guarani Mbya, com fotos: Didier Lavialle

Miguel dorme um sono tranquilo nos braços de seu pai, Thiago Henrique, um dos líderes indígenas da etnia Guarani Mbya. Ele chegou ao mundo há dois meses e já faz parte da história de luta pelos direitos dos povos originários. Entre guarani, tukano, xavante e muitas outras etnias, Miguel pertence aos xondaros e xondarias (guerreiros e guerreiras, como se diz em guarani mbya) que na sexta-feira (14) fecharam a Avenida Paulista durante o Ato do Dia Internacional dos Povos Indígenas, coordenado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e pela Comissão Yvyrupa.

Quando ele crescer um pouco, provavelmente verá as fotos deste dia. E ouvirá muitas histórias. Saberá que teve a sorte de vir ao mundo poucos meses depois de seus parentes conquistarem a portaria declaratória da Terra Indígena Jaraguá. Espera-se que até lá, quando ele tiver idade para entender, possam contar a ele que o processo de demarcação foi concluído totalmente e que seus outros parentes, da Terra Indígena Tenonde Porã, no extremo sul de São Paulo, também obtiveram o reconhecimento legal de suas terras ancestrais. Porque esses são dois dos motivos que levaram tantos indígenas, incluindo o próprio Miguel, a interromper o trânsito nervoso da mais famosa avenida da maior metrópole do Brasil.

 Se alguém se lembrar, poderá contar ao Miguel que naquela sexta-feira, ao chegar ao vão livre do Masp, todos tiveram um embrulho no estômago ao ver que uma dúzia de pessoas vestidas com roupas camufladas e enrolados na bandeira do Brasil pediam a volta do regime militar.

Esperamos que quando ele tiver idade para entender essa história, seja coisa do passado e que não existam mais retrógrados como esses em nosso país. Talvez alguém se recorde e conte também que quando a senhora camuflada de óculos ray ban começou a vociferar no megafone, do outro lado do vão livre, um grupo do movimento Hip Hop e pelos direitos da população negra começou a tocar um reagge bem alto, encobrindo as palavras de ódio.

Miguel saberá que seus parentes e ele mesmo foram às ruas para protestar contra um projeto chamado PEC 215 que visa transferir para uma bancada de deputados ruralistas as decisões sobre as demarcações. E que ao dançar, cantar e fumar o petyngua (cachimbo) na avenida também lutavam contra outras investidas contra seus direitos, como uma tal de Agenda Brasil.

Esperamos que até lá tudo isso seja passado, Miguel. Que sejam apenas histórias tristes que não se repetem mais. Como aquelas pelas quais chora a parente tukano, Daiara. Com os olhos marejados envoltos em um enorme cocar de penas azuis, Daiara subiu ao palco do vão livre no final do Ato e abraçou-se à ativista Márcio Izzo, do Movimento Hip Hop de São Miguel. A primeira lamentava as mortes de parentes como os Guarani Kayowaa, atacados por pistoleiros no Mato Grosso do Sul. A segunda sofria por mais uma chacina acontecida na periferia de Osasco, na véspera, onde as vítimas eram negros e pobres. Enquanto as duas causas se abraçaram ao som do rap e dos chocalhos indígenas, Miguel dormia ainda. Quando ele crescer e estiver bem desperto, desejamos que encontre um tempo novo e melhor.

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