A posse da esperança de Andres Manuel Lopez Obrador no México

País transforma-se em principal pólo progressista da América Latina ao eleger pela primeira vez um projeto de esquerda para a presidência

A política é tempo. A frase dita pelo presidente eleito do México Andrés Manuel Lopez Obrador na entrevista após a confirmação da vitória em julho deste ano rememorava a caminhada não de uma campanha, mas de uma longa jornada de amadurecimento democrático e desejo de mudança expressado pelo povo que pela primeira vez coloca no poder um projeto popular e progressista a partir de 1 de dezembro, data do início do mandato de AMLO, como é chamado devido às iniciais de seu nome.

Depois de perder duas disputas presidenciais com fortes suspeitas de fraude, sobretudo em 2006, e percorrer as 2.446 cidades do país, o líder do partido Movimento de Renovação Nacional (Morena) assume ao lado do inédito gabinete paritário, com oito homens e oito mulheres conforme a composição ministerial anunciada ainda em 2017 pela coalizão Juntos Faremos História, integrada pelo Partido Encontro Social e Partido do Trabalho. No legislativo a novidade desponta pela pluralidade encarnada pela chegada de campesinos, indígenas, mulheres e jovens como a senadora  Citlalli Hernández Mora, senadora aos 28 anos pelo Morena, a segunda com menos idade da Câmara Alta.

“Tudo saiu melhor que o previsto, ganhamos da mentira, da fraude, do dinheiro. Teremos maioria no Senado e Câmara, vamos governar para todos, mas primeiro para os mais pobres. Temos alguns dos homens mais ricos do mundo e estados inteiros e populações muito carentes. O povo sempre quis mudança e agora teremos grandes discussões envolvendo a seguridade social e temas como a despenalização do aborto, da maconha. A expectativa é a mais alta da era moderna dentro do projeto no qual buscamos ampla unidade nacional” comenta. Atenta ao cenário latino, a parlamentar manifestou preocupação com o avanço da extremadireita no Brasil e fez questão de transmitir sua solidariedade ao ex-presidente Lula.

Para chegar à presidência com 30 milhões de votos e 53% da preferência na votação mais contundente alcançada por um presidenciável Obrador combinou movimentos de aproximação com setores do empresariado e da classe média adotando o tom da reconciliação ao mesmo tempo que  afastava-se o de partidos cujas cúpulas costumam atuar por interesses particulares. O “pasito a direita” de Obrador e o “pasito a esquerda” dos empresários junto da suavização do discurso renderam o apelido Amlove durante a campanha, apesar da retórica de medo de seus adversários que sugeriam uma grande depressão em caso de ascensão da esquerda.

Na outra ponta, atraiu parte majoritária do voto de castigo do eleitorado, que expressava “hartazgo” com o que muitos classificam de esgotamento com a ditadura de partido único e pela corrupção que caracterizou os últimos 70 anos da hegemonia do Partido Revolucionário Institucional (PRI), com a breve alternância do Partido Ação Nacional (PAN) , de práticas tão comuns que foram misturados no codinome PRIAN – PRI mais PAN pelos populares. A regionalização da campanha e a organização de uma estrutura territorial mostrou-se outro acerto ao reforçar as bases no centro e sudeste que tradicionalmente tendiam à esquerda e ampliar a presença no norte, próximo aos Estados Unidos e de posições majoritariamente conservadoras.

Nesse cenário de amplo alcance, a execução da agenda que pretende tirar da condição de  pobreza de metade dos 130 milhões de mexicanos segundo  o Conselho Nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social (Coneval) aponta para o que o presidente define como a quarta transformação com a chegada da justiça social. As anteriores são independência ante os  colonizadores espanhóis (1821), as reformas constitucionais de 1861 e a revolução que culminou na derrubada da ditadura de Porfírio Diaz em 1917 e na constituição vigente.

Para começar o cambio do modelo que produz poucos ricos e muitos pobres a urgência será por espalhar a rede de proteção aos idosos e pessoas portadoras de deficiência através do pagamento de pensões mensais de mil e duzentos pesos mexicanos, quase 250 reais, o dobro do que recebem atualmente. A mesma medida foi adotada com sucesso quando Obrador governou a Cidade do México , época em que inaugurou o Hospital de especialidades Belisário Dominguez e abriu a Universidade Autônoma, no início dos anos 2000.

“Tem quem acredita e quem acha que AMLO é um populista, a polarização existe. Sua gestão é elogiado pela construção do segundo piso do periférico, a melhora do centro e a atração de investimento ao passo que os críticos citam os videoescandâlos nos quais funcionários do governo são flagrados recebendo subornos, o que prejudicou muito sua imagem”, detalha Esau Alvear, publicitário mexicano morando em Brasília há quatro anos. “Existe muita esperança e se não der certo via ser um golpe muito forte para os mexicanos”, complementa.

À juventude, a ênfase será na concessão de bolsas em universidades e parcerias com empresas privadas para criação de vagas de primeiro emprego a fim de amenizar a falta de oportunidades dos que nem estudam nem trabalham, estimados em dois milhões e seiscentos mil jovens.  A contratação de profissionais para aturarem na reativação de hospitais no interior chamados de elefantes brancos pelo abandono e a valorização do salário mínimo são outras estratégias para geração de postos de trabalho, incluindo a viabilização de refinarias através da atuação da Petróleos Mexicanos (Pemex), empresa estatal de economia mista.

 No campo, a concentração agrária aumentou nas últimas décadas a partir da flexibilização do controle do estado sobre quase 50% das terras produtivas asseguradas ao setor social. Consequência da expansão da mecanização e do agronegócio a vulnerabilidade cresceu, motivo pelo qual as famílias das zonas rurais receberão seis mil pesos do governo federal e serão incentivadas a plantarem culturas que permitam o país atingir a autossuficiência alimentar evitando, entre outros itens, a importação de 30% do milho dos Estados Unidos, base de toda culinária mexicana. 

A politização de um povo

Amlo pretende comunicar-se diariamente com a população no que espera ser a transição da democracia representativa para a participativa. Foi assim quando esteve à frente da Cidade do México e pelas manhãs concedia coletivas para tratar da administração. Desse modo, busca contrapor a produção de informação  concentrada pelas gigantes Televisa e TV Azteca, similares à rede Globo na elaboração da linha editorial voltada a atender as elites e na influência que exercem sobre as maiorias – recentemente a atual gestão distribui televisores a milhões de cidadãos cujo único sinal será dos oligopólios da mídia.

O desenvolvimento da cidadania, afastada das decisões durante a permanência da direita, e reavivada com a eleição deste ano determinará as ações do governo. O mecanismo das consultas populares já definiu, por exemplo, o destino de grandes obras, com o cancelamento do aeroporto de Texcoco e economia 13 bilhões de dólares e a aprovação do Trem Maya, que prevê 500 quilômetros de via férrea passando por cinco estados do sudeste, uma das regiões mais carentes. Além disso, no meio do mandato de Amlo a população definirá se o novo presidente deve ou não permanecer no cargo, conforme previamente anunciado.

“Uma outra cara nasce do mexicano, acostumado a não reivindicar seus direitos desde a destruição da cultura milenar pelos colonizadores com reflexos até hoje na autoestima nacional. O México nunca esteve tão perto de implementar as mudanças com compromisso social e isso só se dará com a apropriação da sociedade de todo esse processo”, observa Marisa  Fatima Roman, doutora em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Autonoma do Estado do México e moradora de Toluca, cidade de expressivo ramo automobilístico e farmacêutico, lembrada também pela grande oferta hídrica e baixos impostos.

Dentre as próximas polêmicas a repercutirem na esfera pública e passarem pelo crivo popular irá perguntar-se acerca das investigações envolvendo possíveis desvios de ex-presidentes, incluindo o titular Peña Nieto e a criação da Guarda Nacional, plano oficial de reunir em uma grande corporação as forças policiais e armadas, tática que pode ensejar a excessiva militarização da polícia, de acordo com observadores do assunto. Da porta para dentro também surgem ressalvas a respeito da nomeação em ministérios como o da agricultura, que será ocupado por Víctor Villalobos, ligado à multinacional dos transgênicos Monsanto, colocando em questão a amplitude do pacto a ser negociado com segmentos influentes.

“O movimento campesino terá um respiro para uma situação muito difícil, mas existe preocupação com as nomeações feitas para o setor e com as grandes obras que podem atingir pequenos produtores e comunidades indígenas”, alerta o pesquisador do centro federal Colégio da Fronteira Sul, especialista na área, Peter Rosset.

Há, de outra parte, consensos diante de rupturas sinalizadas contra altas esferas acumuladoras de privilégios, enquanto trabalhadores domésticos e camponeses permanecem à margem da lei. O fim do foro privilegiado, a venda do avião presidencial e o corte no salário da magistratura e do próprio Amlo estabelecerá a linha máxima de 107 mil pesos mensais aos altos funcionários públicos, pouco acima de 20 mil reais.

 Neoliberalismo na veia

Nunca os mexicanos pagaram tão caro pela eletricidade e pela gasolina – em torno de quatro reais o litro. A reforma energética que privatizou serviços aumentou tarifas pouco meses depois dos defensores da venda prometerem o barateamento dos custos e significou de rebote a perda da soberania em uma área sensível. A reforma trabalhista quitou direitos da classe trabalhadora, submetida a um dos mais baixos salários da região e exposta a níveis elevados de informalidade. Aos trabalhadores do ensino, a reforma educacional foi considerada a antesala à privatização do ensino, razão pela qual Obrador anunciou seu veto.

“Já enfrentei muitas reformas ao longo de27 anos no magistério e a última foi feita sem a participação dos professores. Agora há maior contato entre o governo eleito, o sindicato e as representações para reformular o projeto educativo aprofundando os debates. Precisamos  expandir o ensino técnico e as chances de capacitação em zonas rurais e industriais, por exemplo”, contextualiza a professora de Historia Juana Cerda,moradora de Sao Cristobal, no estado de Chiapas, sul do México, onde e possível almoçar por seis reais e encontra-se grande número de ambulantes nas ruas. Apesar de dados oficiais indicarem o menor desemprego da história, mais da metade dos trabalhadores encontra-se na informalidade.

Ao mergulho no neoliberalismo combinou-se a explosão da violência retratando a síntese da presidência de Peña Nieto, incapaz de reverter o domínio do narcotráfico em diversas localidades e a normalização  dos assassinato políticos em  todo o território. O desaparecimento de 43 estudantes de Ayotizinapa segue um drama para os mexicanos quatro anos após o ocorrido e uma infeliz marca dos últimos seis anos, os mais violentos perante os  122 mil homicídios registrados, incluindo grave índice de feminicídios.

“A cidadania preferiu a mudança pois não via avanços nas administrações passadas. Há um dever da classe política para responder a falta de segurança, emprego, saúde e crescimento econômico”, reconhece o deputado Xavier Zuniga, eleito pelo PAN, partido que deve liderar o bloco oposicionista ao ser o segundo maior partido do congresso.

Dos problemas postos aos que surgem, o tradicional corredor migratório representado pelo México viu-se pressionado com a chegada da caravanas migratória originadas da centroamérica. O apoio de prefeituras e da população tem auxiliado os milhares de migrantes, em que pese manifestações de xenofobia, sobretudo após AMLO falar em receber os estrangeiros que desejem permanecer e buscar colocação no mercado interno, postura contrastada com a violência adotada pelos EUA em relação ao tema – a crise de fronteiras e o acordo de livre comércio exigirá negociações de ambos os países nos próximos meses na longa lista de tensões junto a Trump, o qual não estará presente na posse deste sábado.

Em meio às autoridades mundiais confirmadas para o evento de Nicolas Maduro, preside da Venezuela a Mike Pence, vice-presidente dos EUA, a grande novidade estará reservada ao que poderá representar a estréia do povo no centro do poder. Poucos dias antes da votação que consagrou sua vitória, Obrador lotou o estádio Azteca em um potente ato de campanha diante de cem mil pessoas, agora com o jogo começando a expectativa é de manter a efervescência das multidões mexicanas. Quatro dias após a posse presidencial, em 5 de dezembro, Claudia Sheinbaum (Morena) será a primeira mulher eleita a assumir a Cidade do México numa prévia da intensa agenda política que deve mobilizar o país pelos próximo dias, meses e anos.

“Publicado originalmente em carta capital”

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